Um dia de tristeza e memória, morreu Luis Fernando Verissimo Luis Fernando Verissimo | Foto: Divulgação

Um dia de tristeza e memória, morreu Luis Fernando Verissimo

Não dá para escrever o obituário do cronista, não para eternizá-lo, mas para já ir direto nas lembranças que temos de sua extensa obra

Não dá para escrever o obituário de Luis Fernando Verissimo. Não pelo propósito divinal de eternizá-lo. Mas, sim, perpetuá-lo por sua obra porque logo que se cita seu nome o que vem à memória é uma de suas crônicas preferidas, de suas tiras de jornal, seus personagens, seus livros.

Quem, da minha geração – tenho 62 anos -,  que consumiu sua obra, conviveu com a época que foi matéria prima de seus escritos e pensamentos, que aguardava os jornais para ler seus textos, e “tirinhas de jornal”, e o acessava, o autor, de forma diversa, tem na ponta da língua um pedaço de suas criações.

“Leu o Verissimo hoje?”

“Você leu o Verissimo hoje?”. É algo que estava sempre nas rodas de conversa.

Todos deveriam escrever um artigo (uma crônica?) sobre Verissimo. Porque todos guardamos essas saborosas e preferidas lembranças. Tenho as minhas, e vou dividir aqui, sem a pretensão das pretensões da unanimidade. Cada um, e uma, que o curtiu, tem as suas.

Consumidor voraz de jornal, corria para a parte das tiras, editada nos cadernos de cultura dos periódicos: “As cobras” e “Dudu, o alarmista” eram as de que mais gostava. Um traço simples, mas genial e os ‘balões’ com os diálogos e pensamentos eram de humor fino.

Quem não se lembra do “Ah é, é?”

Verissimo escreveu também para TV e foi redator de programas humorísticos. Só depois de um tempo soube que era dele a criação de um personagem de Jô Soares, cujo bordão foi imortalizado: “Ah é, é?”. Era dito por um cidadão que relatava a um amigo ter sido humilhado em alguma situação e não reagiu na hora. Perguntado, ‘mas o que você disse a ele?”. E dizia: “Ah é, é?”

“O sortudo” e a indiana

Das crônicas, a que me remeto quando preciso enaltecê-lo, é a do “O sortudo”, a história de um sujeito, claro, sortudo. Que se jogasse na loteria, ganhava. E por aí vai. E, sortudo que era, já tinha se relacionado com mulheres de quase todas nacionalidades, exceto uma indiana. E, um dia, no bar de um hotel, olha para o lado e avista uma bonita moça….indiana. Era sortudo, lembram? Se aproxima, conversa vai e vem e lá está ele numa noite de prazer com a recém-parceira. Acorda e, na cama, observa aquela pinta na testa da parceira, o ornamento chamado bindi. Resolveu raspar: ganhou um Monza!

E tem, claro, as criações de “Ed Mort”, “O analista de Bagé” e “A velhinha de Taubaté”.

“Álcool é nocivo para o mau-caráter”

Há duas semanas, o colega Fábio Victor, da Folha de S. Paulo, publicou uma matéria de sua visita a casa dos Verissimo, onde foi recebido pela esposa Lucia e os filhos Pedro e Fernanda. Lucia contou que Verissimo, já acometido por um AVC e pouco falando, assistia a uma entrevista do compositor e letrista Paulo Cesar Pinheiro na TV. E que o escritor gargalhou quando Paulo César relatou uma conversa com Pixinguinha e, ao falarem de consumo de álcool, disse: “O álcool só é nocivo para quem é mau-caráter”.

Paulo César aparecia nas suas crônicas, outra lembrança que tenho. Numa delas citou “Senhorinha” uma parceira do letrista com o compositor Guinga. Se referiu a essa canção como uma das mais belas composições de nossa música. E a comparou a beleza de Patricia Pillar, atriz que associava a quase tudo que apreciava.

Saxofonista, era amante do jazz. Um instrumento musical é também um biombo para os tímidos e introspectivos.

Acima, só algumas boas lembranças que guardo do cronista. Todos, ou quase todos, temos as nossas.

Verissimo morreu na manhã deste sábado (30) de agosto, em Porto Alegre. De complicações de uma pneumonia.

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