Planos de governo de Lula e Flávio Bolsonaro divergem em arquitetura, mas convergem na falta de detalhamento de custos Foto: BBC Eleições 2026

Planos de governo de Lula e Flávio Bolsonaro divergem em arquitetura, mas convergem na falta de detalhamento de custos

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Documentos registrados pelas duas candidaturas adotam lógicas opostas e concentram as propostas específicas em segurança pública e economia

As candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL) apresentaram planos de governo com estruturas distintas para o pleito de 2026. O presidente Lula, registrado pela coligação formada por PT, PSB, PV, PCdoB, PDT, PSOL e Rede, tem mais de 80 páginas e organiza as propostas em 13 eixos temáticos. Flávio Bolsonaro, com selo de sua legenda, o PL, soma 75 páginas divididas em oito eixos.

No entanto, nenhum dos planos detalha cronograma ou custo integral das propostas centrais. O texto de Lula não especifica, por exemplo, como pretende sustentar simultaneamente o arcabouço fiscal e a expansão de programas como a Política Nacional de Cuidados. 

“O resultado fiscal virá, como fizemos até aqui, da retomada do crescimento econômico, do controle do aumento do gasto primário, investindo na melhoria da eficiência e da qualidade do gasto público, da promoção de justiça tributária e do combate aos privilégios e às distorções”, narra um trecho da proposta de Lula.

Sob os planos do opositor do petista, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro condenado por tentativa de golpe de Estado, não esclarece a origem dos recursos para dobrar o investimento federal em segurança pública, além de não mencionar anistia a condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, uma das principais bandeiras defendidas pelo senador.

A falta de detalhamento financeiro nas propostas dos candidatos vem sendo questionado por especialistas e jornalistas do campo econômico. Há um alerta por parte do mercado para o risco de um “apagão da máquina pública”, diante do avanço das despesas obrigatórias e defendem mudanças estruturais para preservar a previsibilidade das contas públicas nos próximos anos. O termo refere-se ao risco de redução da capacidade de funcionamento do Estado à medida que despesas obrigatórias ocupam uma parcela cada vez maior do Orçamento da União. Atualmente, segundo a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, esses gastos representam cerca de 92% do orçamento primário real, aproximadamente R$ 4,32 trilhões de um total estimado em R$ 4,7 trilhões, sem considerar os recursos destinados ao refinanciamento da dívida pública.

Segundo a economista-chefe e consulta financeira, Tatiana Goes, qualquer candidato que assuma o próximo governo enfrentará um desafio de “proporções históricas”.

“Para a economia, o impacto é direto e imediato, como a perda de credibilidade fiscal eleva o prêmio de risco, pressiona os juros de longo prazo e encarece o financiamento da dívida pública. Sem uma agenda estrutural de revisão de gastos, que vá além de cortes pontuais e enfrente de fato a indexação e os benefícios, o país caminha para um cenário em que a política econômica fica refém do Orçamento, e não o contrário“, disse a especialista.

Goes finalizou e disse que “não há caminho para arrumar o país sem medidas impopulares: “ajuste de gastos, revisão de benefícios e indexações, contenção de despesas obrigatórias, tudo isso envolve custo político imediato e benefício econômico que só aparece no médio e longo prazo.”

Entre as principais despesas estão os gastos previdenciários, a folha de pagamento e benefícios vinculados ao salário mínimo. O cenário é agravado pela parcela das despesas discricionárias comprometida com emendas parlamentares e pelos bloqueios e contingenciamentos orçamentários. Segundo a União, cerca de R$ 61 bilhões estão vinculados a emendas.

Segurança pública concentrada nas propostas

Em ambas as propostas, segurança é a área com maior densidade de compromissos dos candidatos, ainda que com meios distintos à seus respectivos fins.

O plano de Lula reafirma o envio ao Congresso de uma PEC para redefinir atribuições dos entes federativos na área, prevê a criação de um Ministério da Segurança Pública condicionada à aprovação dessa emenda e cita a Lei Antifacção, sancionada em 2026, e o programa Brasil Contra o Crime Organizado como pilares já em curso. Lula também promete ampliar o uso de câmeras corporais por policiais e consolidar as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado na Amazônia Legal.

O plano de Flávio Bolsonaro propõe medidas executivas, como declarar PCC, Comando Vermelho e milícias organizações narcoterroristas, criar cinco presídios federais de segurança máxima reunidos em um complexo batizado de TREVA, abrir meio milhão de vagas prisionais em quatro anos e instalar um sistema de reconhecimento facial com mais de 1 milhão de câmeras, o Muralha Brasileira. Inclui ainda medidas penais mais duras — redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, fim da progressão de regime para crimes hediondos e castração química para condenados por estupro e abuso de crianças —, ausentes de detalhes nas propostas de Lula.

“Por isso, o novo Governo do Brasil vai usar toda a sua força para acabar com a progressão de regime de quem comete crimes hediondos”, declarou o plano de governo do candidato.

Economia: gestão em curso e reforma 

O eixo econômico de Lula descreve resultados já obtidos durante a sua gestão. Segundo o texto, a economia brasileira passou a crescer em torno de 3% ao ano, e a indústria teria sido a sexta que mais cresceu entre os países do G20 no período 2023-2025. Para o próximo mandato, a proposta é manter o novo arcabouço fiscal, buscar redução da taxa de juros e regulamentar o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional, criado pela reforma tributária já aprovada.

O plano de Flávio Bolsonaro trata essa mesma reforma tributária como problema a corrigir. Segundo o documento, o país caminha para um dos maiores impostos sobre valor agregado, em torno de 30%, ante média de 19% na OCDE, com um custo de transição estimado em R$ 1 trilhão sem fonte orçamentária definida. 

A proposta é revisar e redimensionar a reforma, reduzir tais impostos e fixar meta de crescimento de 4% ao ano, ancorada em R$ 900 bilhões para infraestrutura em quatro anos. Nenhum dos dois documentos submete essas projeções a fonte externa verificável nesta análise.

Programas sociais e agenda das mulheres

Com desenhos distintos, os dois planos reservam capítulos específicos às mulheres e aos programas sociais. Lula cita expansões que foram aplicadas ao Bolsa Família e a valorização do salário-mínimo, além de prometer ampliar a Política Nacional de Cuidados e o Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio.

Flávio Bolsonaro propõe um programa batizado de Brasil por Elas, com doze compromissos: a Central da Mulher, com unidades móveis em caminhões e barcos, um aplicativo com a assistente de inteligência artificial, “ClarIA”, para registro de ocorrências e pedidos de medida protetiva, monitoramento por tornozeleira de agressores e um sistema de pontuação financeira, o “Ganha, Ganha”, operado pela Caixa, pelo Banco da Amazônia e pelo Banco do Nordeste.

Reforma institucional e STF

Já o eixo institucional tem tratamento mais extenso no plano de Flávio Bolsonaro, ao passo de propor extinguir competências criminais originárias do Supremo Tribunal Federal, limitar decisões monocráticas, impor quarentena de um ano para indicação de ministros de Estado ao Supremo e acabar com a reeleição presidencial — esta última bandeira associada a uma PEC que o plano atribui, textualmente, ao “senador e futuro presidente do Brasil, Flávio Bolsonaro”. 

O programa de Lula não aborda reforma do Judiciário nem fim da reeleição; sua dimensão institucional aparece voltada à política externa, com defesa de reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e fortalecimento do Mercosul e do BRICS.

“Continuaremos engajados na reforma das Nações Unidas, especialmente do Conselho de Segurança, para torná-lo mais democrático e representativo, com maior participação dos países em desenvolvimento entre os membros permanentes”, descreveu o plano.