Ataques ao nordeste aumentam após o 1º turno nas redes sociais, mostra levantamento Foto: SISMUC Discurso de ódio

Ataques ao nordeste aumentam após o 1º turno nas redes sociais, mostra levantamento

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Levantamento da Ativaweb DataLab analisou publicações feitas nas 72 horas seguintes à votação e identificou discursos que associavam eleitores nordestinos à pobreza, dependência de programas sociais e inferioridade intelectual

Um levantamento da Ativaweb DataLab identificou 32,8 milhões de menções, links e compartilhamentos relacionados ao Nordeste e ao resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 nas 72 horas seguintes à votação. Segundo a classificação feita pelo próprio instituto, 82,2% das manifestações analisadas apresentavam conteúdo crítico ao comportamento eleitoral da região, proporção que corresponde a aproximadamente 27 milhões de interações.

A análise sustenta que, após a divulgação dos resultados eleitorais, parte da discussão nas redes sociais passou a responsabilizar os eleitores nordestinos pelo desempenho dos candidatos e incorporou referências à pobreza, programas de transferência de renda, fome e suposta inferioridade intelectual. A coleta contemplou publicações públicas no Facebook, Instagram, TikTok, X, YouTube e Kwai, obtidas, conforme a Ativaweb, por integração via API.

Além do levantamento quantitativo, a DataLab selecionou uma amostra de 535 comentários publicados em conteúdos de alto engajamento para uma análise qualitativa. Nesse recorte, a categoria denominada pela empresa como “adesão e aplauso ao ataque” respondeu por 68,2% dos comentários.

O contradiscurso em defesa da região representou 14% da amostra.

  • Na sequência aparecem conteúdos classificados como desumanização e insulto, com 4,9%;
  • dependência e manipulação, com 4,1%;
  • autodepreciação regional, com 3,9%;
  • críticas acompanhadas de pedidos de moderação, com 3%;
  • manifestações relacionadas à segregação territorial, com 1,9%.

O estudo também separou as expressões consideradas ofensivas de acordo com o tipo de discurso identificado.

  • A categoria relacionada à vergonha e autodepreciação concentrou 26,9% das ocorrências;
  • o estigma associado à pobreza e à dependência, 22,1%;
  • referências à inferioridade intelectual, 18,3%.

Juntos, esses três grupos corresponderam a 67,3% do vocabulário ofensivo catalogado. Outros 12,5% foram enquadrados como desumanização, 12,5% como segregação territorial e 7,7% como insultos ou expressões de baixo calão. O levantamento aponta ainda a presença de comentários feitos por usuários que se apresentam como nordestinos e reproduzem manifestações de vergonha ou rejeição à própria origem.

Durante o programa MyNews Eleições, o cientista de dados e dirigente da Ativaweb DataLab, Alek Maracajá, afirmou que a disputa eleitoral funciona como mais um elemento dentro de conflitos sociais que já circulam nas plataformas digitais. Para ele, a dimensão alcançada pelas manifestações depois do primeiro turno demonstra o nível de acirramento do ambiente virtual.

“Quando falamos de 27 milhões de críticas em apenas três dias, isso é uma fábrica de ódio”, afirmou. Maracajá citou, entre os termos encontrados pelo levantamento, referências a “nordestino”, “vergonha”, “analfabetos”, “fome”, “miséria” e “burro”.

Segundo o cientista de dados, a polarização política ganhou maior intensidade depois da votação. “A polarização entrou em um modo ‘hard’ no domingo”, declarou.

Desumanização no debate político

A professora de Direito Administrativo e Eleitoral do IDP e coordenadora da Transparência Eleitoral Brasil, Marilda de Paula Silveira, avaliou, durante o mesmo programa, que o fenômeno está inserido em um processo mais amplo de dessensibilização provocado também pela dinâmica das redes sociais.

“A gente olha para a morte dos outros, mas, ao mesmo tempo, sobe o feed e passa uma propaganda. Isso faz com que nós estejamos em um universo que nos dessensibiliza para o outro”, afirmou.

Segundo Marilda, a competição política pode acentuar a percepção do adversário como alguém situado fora do campo legítimo de convivência. “Dentro desse ambiente de desânimo, faz com que tudo seja competido. Isso acontece no processo eleitoral. Se o outro está no outro candidato, o primeiro impulso é tratar o outro como não humano”, disse. Para a professora, a resposta ao problema não está restrita às normas do processo eleitoral e envolve fatores culturais e sociais. Ela defende a reconstrução do diálogo e da capacidade de reconhecer a dimensão humana do interlocutor, ainda que existam divergências políticas.

“Uma solução é como colocar as pessoas para conversarem novamente, partindo do pressuposto de que o nosso diálogo não é 100% racional, para que os argumentos dialoguem entre si. E a outra é re-humanizar as pessoas”, afirmou. “A solução para resolver não está no processo eleitoral. É muito complexa. Também é cultural, mas não é uma coisa só.”

O jornalista Fábio Brandt, fundador e CEO da Novo Selo Comunicação, afirmou que manifestações hostis contra eleitores de determinadas regiões não são inéditas no processo eleitoral brasileiro e reaparecem em diferentes disputas.

“Esse movimento xenofóbico e racista contra os eleitores vem se repetindo há várias eleições. Não é novidade, mas uma infeliz repetição”, afirmou. Segundo Brandt, esse comportamento compromete o debate público e não se restringe a apenas um campo político. “Inclusive eleitores da esquerda também têm essa mesma postura com eleitores da direita.”

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