Os Zambelli e Jefferson de Flávio Bolsonaro Eleições

Os Zambelli e Jefferson de Flávio Bolsonaro

Tamanho do texto:

Campopiano e Pavanato escancaram nas redes o bolsonarismo sem filtro e empurram para o 13 até antipetistas convictos

Em outubro de 2022, a poucos dias do segundo turno, duas cenas fizeram mais pela campanha de Lula do que muito marqueteiro. Carla Zambelli correu pelas ruas de São Paulo de arma em punho atrás de um homem. Roberto Jefferson recebeu agentes da Polícia Federal a tiros e granadas. Numa eleição decidida por pouco mais de 2 milhões de votos, os dois mostraram ao eleitor indeciso o bolsonarismo sem maquiagem. E uma parte desse eleitor recuou. Em 2026, Flávio Bolsonaro tem os seus Zambelli e Jefferson. Eles se chamam Eduarda Campopiano e Lucas Pavanato.

Os dois saíram das urnas consagrados. Pavanato teve mais de 3 milhões de votos e se tornou o deputado federal mais votado da história de São Paulo. Campopiano, aos 23 anos, foi a deputada estadual mais votada do estado, com quase 2 milhões de votos. Ela se apresenta como a maior inimiga das feministas de São Paulo e encerrou a campanha com um vídeo irônico ao lado de Pavanato que gerou centenas de milhares de interações.

É justamente esse sucesso nas redes que pode custar caro a Flávio no segundo turno. Campopiano e Pavanato dizem em voz alta, para milhões de pessoas, aquilo que o bolsonarismo pensa. E o que ele pensa assusta.

Vale ouvir a própria Campopiano. “Qualquer homem tem que ter o direito de virar pra mim e me mandar voltar pra cozinha se ele quiser.” “Um homem que não sabe ser agressivo quando precisa não é um grande exemplo de homem.” “Feminicídio não existe.” “Sou contra licença-maternidade porque não é um direito, é um privilégio.” “Defendo que não existe igualdade entre homens e mulheres.” “A mulher casada tem que ser submissa a seu marido.”

Pavanato vai na mesma linha. Para ele, hoje o feminismo é inútil.

E eles não estão sozinhos. Pietra Bertolazzi, outra estrela da extrema direita nas redes, foi ainda mais longe. Perguntada sobre o voto feminino, respondeu sem hesitar. “Voto feminino? Contra.” A frase foi tão grave que o Ministério Público Eleitoral pediu a retirada das postagens.

Conversei nos últimos dias com antipetistas fervorosos. Gente que tem críticas sérias ao governo Lula, que se irrita com a arrogância petista, que quer mudança. Mais de um me disse a mesma coisa. Vão apertar o 13. Não por convicção, mas por obrigação.

Há uma única convergência entre quem odeia o PT e quem ama o PT a ponto de fechar os olhos para todos os erros, sobretudo os deste último governo. Ninguém aceita o retrocesso civilizatório.

Não dá para subestimar o perigo de jovens com milhões de seguidores tratando como normal que a mulher volte para a cozinha, seja submissa e, no limite, deixe de votar. Não dá para achar normal uma criança no teto de um carro, em Parnamirim, segurando o que parecia uma arma na festa de apoiadores de Flávio pela vitória no primeiro turno. São barbaridades ditas e encenadas por uma juventude extremista que não está conquistando o eleitor antipetista moderado. Está espantando.

E há um segundo ponto, menos barulhento e talvez mais grave, que vem afastando conservadores nacionalistas. O entreguismo aos Estados Unidos.

Deixar o Itamaraty nas mãos de Marco Rubio é um risco enorme, ainda mais agora. O Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo, a matéria-prima que move a revolução digital, dos celulares aos carros elétricos, das turbinas eólicas aos sistemas de defesa. É essa riqueza que vai separar, nas próximas décadas, quem manda de quem obedece. Um conservador que ama o país não pode assistir calado a uma política externa que trata esse patrimônio como moeda de agradecimento a Washington.

Junte as duas coisas. De um lado, o desprezo por conquistas que a sociedade levou um século para consolidar. De outro, a disposição de entregar o futuro estratégico do país a outra potência. O que sobra é um projeto que não conversa nem com o progressista nem com o conservador de verdade.

A sociedade brasileira já mostrou, há pouco tempo, que sabe reagir. Daniel Vorcaro tinha um plano de poder que ia muito além de um banco. Queria ser o imperador do Brasil, comprando influência em Brasília, no mercado e onde mais pudesse. Foi barrado. O Banco Central agiu, a Polícia Federal agiu, a imprensa fez seu trabalho, e o país percebeu a tempo o tamanho do que estava em jogo.

Ali ficou claro que o Brasil ainda tem instrumentos que funcionam e instituições que deseja preservar. Da mesma forma que se levantou contra o projeto de Vorcaro, a sociedade pode se levantar agora contra o retrocesso. Não por amor ao PT. Mas porque há coisas que nem o antipetismo mais ferrenho está disposto a entregar.

Relacionados