Flávio ou Lula?
Um fantasma hipotético assombra parte das bolhas da esquerda brasileira, e ele se chama Flávio Bolsonaro (ou seria Lula?)
Um espectro assombra o Brasil. O espectro do bolsonarismo sob Flávio Bolsonaro, ou talvez do petismo sob Lula. Eis ele, o medo instintivo, que volta para moldar o comportamento político brasileiro. Sabemos disso há bastante tempo, embora a cada eleição pareçamos redescobrir o fenômeno como se fosse alguma idiossincrasia exclusivamente nossa. Lembro-me quando em 2022, quem declarava voto branco, nulo ou recusava aderir integralmente a Jair Bolsonaro era chamado, por setores da direita, de “isentão”; alguém que, por omissão, entregaria o Brasil à esquerda e ajudaria a transformar o país em uma Venezuela.
A “venezuelação” não veio pelas mãos do Executivo petista na forma apocalíptica que parte da direita anunciava. O episódio institucional que mais se aproximou, no imaginário de seus críticos, de uma discussão sobre os limites da liberdade de expressão foi protagonizado pelo próprio Judiciário, quando Alexandre de Moraes determinou, em agosto de 2024, a suspensão do X em todo o território nacional. A medida posteriormente foi referendada por unanimidade pela Primeira Turma do STF. É possível discutir juridicamente suas razões e sua proporcionalidade; o fato é que, apesar de endossada, ela não partiu do governo Lula.
De fato, a direita bolsonarista e esquerda petista aprenderam a espetacularizar o medo — e particularmente não sou o maior adepto desse ensaio dramático e trágico. De um lado, construiu-se durante anos a imagem de uma esquerda interessada em destruir famílias, fechar igrejas ou promover alguma ameaça revolucionária. Do outro, agora se constrói um Flávio Bolsonaro imaginário que, uma vez eleito, necessariamente entregaria o Brasil aos interesses de Donald Trump, desmontaria instituições e reproduziria automaticamente o governo do pai.
Não é necessário simpatizar com nenhum desses discursos para perceber o mecanismo onde se muda o inimigo, mas a engenharia social permanece praticamente intacta. E talvez seja exatamente aí que parte da esquerda esteja interpretando de maneira equivocada o resultado das urnas.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. A diferença foi pequena, de 1,87 ponto percentual, mas suficiente para produzir uma pergunta: “o que levou tantos eleitores a escolherem um Bolsonaro depois de quatro anos de um governo petista?” O Brasil tornou-se fascista? Machista? Reacionário, ignorante ou extremista?
O desempenho de Flávio não demonstra que dezenas de milhões de brasileiros tenham subitamente aderido a um projeto neofascista, assim como uma vitória de Lula não provaria que dezenas de milhões de pessoas desejam transformar o Brasil em uma república socialista. Eleições são fenômenos muito mais prosaicos. Misturam identidade, rejeição, renda, expectativas, religião, memória, avaliação de governo, voto útil, às vezes irracionalidade, percepção econômica e, evidentemente, medo.
As primeiras análises do primeiro turno apontam, inclusive, para fatores como abstenção e voto útil, além da migração de eleitores para Flávio Bolsonaro na reta final. A abstenção chegou a 21,08%, com cerca de 33,4 milhões de eleitores ausentes. É tentador transformar uma eleição em julgamento moral da população, embora seja intelectualmente preguiçoso.
O problema eleitoral de Lula tampouco pode ser reduzido à ideia de que sua administração não apresentou qualquer melhora econômica. Os dados contradizem essa formulação. O rendimento médio mensal real domiciliar per capita cresceu em 2025 e atingiu o maior valor da série histórica da PNAD Contínua. Então, por que indicadores positivos não se converteram necessariamente em sensação de prosperidade para parte do eleitorado?
Uma estatística pode melhorar enquanto o supermercado continua parecendo caro. O salário pode apresentar ganho real enquanto o trabalhador continua incapaz de comprar a casa que deseja. O desemprego pode cair sem que o emprego conquistado ofereça perspectiva de ascensão. A renda média pode avançar sem que isso produza segurança subjetiva sobre o futuro.
É justamente aí que o petismo enfrenta seu problema mais pertinente. Parte importante da classe trabalhadora não parece enxergar no partido a mesma promessa de transformação que enxergava décadas atrás. Mesmo no ABC Paulista, berço político do lulismo e do novo sindicalismo que projetou Lula nacionalmente, a votação mostra um cenário muito menos confortável do que sua história sugeriria. Lula ainda venceu em São Bernardo do Campo, com 46,77% contra 41,83% de Flávio, além de manter vantagem em municípios como Diadema e Mauá. Mas a competitividade bolsonarista em uma região tão simbolicamente associada ao petismo deveria ser objeto de investigação, mas não de condenação moral do eleitor.
Existe também uma questão geracional. Para uma parcela da juventude, Lula já não parece representar a ruptura, e sim o establishment. É presidente pela quarta vez, participou diretamente da política nacional durante quase meio século e governa um país cujos problemas estruturais continuam reconhecíveis — e a vias de curiosidade, Lula assumiu a presidência no ano em que esse que vos fala nasceu.
Flávio por sua vez carrega o sobrenome Bolsonaro, mas procura construir uma persona pública menos errática que a do pai. Isso não significa que seja moderado, tampouco que suas posições devam ser ignoradas. Significa apenas que tratá-lo como uma reprodução perfeita de Jair Bolsonaro pode impedir seus adversários de compreender o candidato que efetivamente está diante deles.
Talvez o medo substitua essa compreensão. A direita bolsonarista fez isso durante anos ao transformar qualquer política progressista em evidência de uma conspiração comunista. Parte da esquerda incorre agora no mesmo vício ao transformar qualquer voto em Flávio numa autorização tácita para o fascismo. Nos dois casos, desaparece o eleitor real e surge um personagem moralmente conveniente.
Um lado votaria para “salvar o Brasil” dos interesses dos Estados Unidos. O outro, para “salvar o Brasil” dos interesses da China. Um teme o imperialismo americano. Outro teme o comunismo chinês ou um banheiro trans hipotético. Um acredita defender a democracia do autoritarismo bolsonarista. Outro acredita defender a liberdade do autoritarismo judicial.
Repare como a estrutura permanece a mesma. “Nós” somos a resistência. “Eles” são a ameaça.
A lógica do nós contra eles é especialmente eficiente porque dispensa nuances e complexidades sociais. Quem gosta de grandes problemas e exercícios mentais afinal? Quando a política é transformada em confronto entre o bem e o mal, negociar passa a parecer traição, ouvir o adversário torna-se fraqueza e admitir algum mérito do outro campo equivale a desertar. Assim não existe síntese possível quando cada grupo acredita deter monopólio moral sobre a democracia, do bom ou do ruim. E muito menos quando dezenas de milhões de eleitores deixam de ser compreendidos como cidadãos com motivações distintas e passam a ser tratados como cúmplices de algum projeto de extermínio imaginário.
Não são dezenas de milhões de fascistas de um lado nem dezenas de milhões de comunistas do outro.
Há radicais. Há autoritários. Há pessoas cruéis. Há também trabalhadores preocupados com salário, empresários preocupados com impostos, jovens preocupados com moradia, mães preocupadas com segurança, religiosos preocupados com valores e milhões de pessoas que provavelmente dedicam muito menos tempo à política do que os profissionais, militantes e comentaristas que tentam interpretá-las. Talvez seja essa a abstração mais difícil para quem vive intensamente a política: aceitar que a maioria das pessoas não vive intensamente a política.
O resultado é uma sociedade permanentemente convocada para uma guerra sem fim. Enquanto a política brasileira estiver organizada essencialmente pela lógica do “nós contra eles”, teremos a falsa sensação de participação enquanto repetimos os mesmos artifícios grosseiros de ambos os campos. Vendemos atos simbólicos como revolução, indignação como resistência e pertencimento político como exercício pleno de cidadania, e aquilo que deveria ser transformação frequentemente termina em administração ordinária do mesmo país.
Foi assim sob Jair Bolsonaro. Também houve muito disso sob Lula. O fantasma, portanto, talvez não seja Flávio Bolsonaro ou Lula. O verdadeiro fantasma é imaginar que a próxima eleição finalmente destruirá o inimigo responsável por todos os nossos problemas — e que, depois dele, o Brasil estará salvo.
Bem, há, apesar disso, algum espaço para otimismo. Persiste uma demanda, ainda que minoritária e frequentemente soterrada pelas redes sociais, por debate sem demonização prévia do outro, e espero que boas influências passem a se constituir nesse campo. Viva o debate.