Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o debate na Band (Foto: Renato Pizzutto/Band)
Eleições 2026
Primeiro confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro expôs uma eleição em que a mobilização pelo medo do adversário parece ocupar espaço maior do que a disputa por um projeto de país
Se um debate presidencial é capaz de virar voto, quem saiu ganhando foram os “candidatos” branco/nulo e abstenção, diante do primeiro confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
O encontro promovido pela Band neste domingo (18), o primeiro entre os dois candidatos no segundo turno, foi marcado por interrupções, acusações pessoais, provocações e momentos de tensão. A própria plateia precisou ser contida em diferentes momentos. Houve discussão sobre economia, segurança pública, saúde e relações internacionais, mas boa parte das propostas acabou soterrada pelo confronto político entre os candidatos.
O embate entre os candidatos refletiu uma série de acontecimentos recentes, vivenciados também pelos manifestantes de cada campanha. No ambiente digital, provocações, ataques e uma mobilização massiva tentaram emplacar suposições e narrativas para conquistar votos. Presencialmente, manifestantes se enfrentaram em espaços públicos e protagonizaram provocações e até brigas, contra os adversários políticos.
Esse cenário ficou ainda mais evidente quando nossa reportagem acompanhou as primeiras manifestações em frente à emissora Band. Enquanto apoiadores de Lula cantavam, os da oposição tentavam ganhar no grito. Em questão de minutos, as provocações passaram a ditar o tom do que seria a disputa entre os manifestantes durante a noite do debate — e, claro, parte do eleitorado deixou de ser apenas espectador para vestir o uniforme de uma tropa ou de um exército, principalmente nesta reta final marcada pela polarização.
Uma questão pareceu mais relevante do que descobrir quem havia conseguido a melhor resposta ou produzido o corte mais eficiente para as redes sociais: o que exatamente a política brasileira está oferecendo ao eleitor, ou melhor, o que o eleitor espera da política brasileira?
Não seria correto colocar no mesmo plano a Monarquia, a República oligárquica, o Estado Novo, a ditadura militar e a democracia inaugurada pela Constituição de 1988. São experiências políticas profundamente distintas, inclusive em relação às liberdades individuais, à competição eleitoral e à participação popular. Há, entretanto, um paralelo entre essas experiências brasileiras que parecem se repetir. São os sucessivos arranjos políticos que chegam acompanhados de estabilidade temporária, modernização ou solução de crises e, com o tempo, enfrentam seus próprios processos de desgaste e contestação.
A Nova República também nasceu cercada de enorme expectativa. As Diretas Já, a Constituição de 1988, a ampliação das garantias individuais, o pluralismo partidário e a retomada da eleição direta para presidente construíram algumas das bases mais importantes da democracia brasileira contemporânea. Quase quatro décadas depois da Constituição, a pergunta talvez não seja se a democracia brasileira “fracassou” — precisamos aguardar outros resultados institucionais para afirmar tal premissa — mas vale questionar também, “em que momento a representação política passou a depender tanto da rejeição ao adversário, ou de quem oferece a melhor proposta populista?”
O debate, espetacularizado, se tornou um grande evento de entretenimento para o público. O embate entre Flávio e Lula, que deveria servir para apresentar propostas e conquistar os indecisos, acabou se transformando em um confronto de questionamentos.
Em certo momento, parecia que veríamos uma discussão interessante sobre pautas voltadas às mulheres, que compõem 53% do eleitorado brasileiro. Entretanto, bastou uma citação a Roberta Luchsinger, por parte de Flávio Bolsonaro, para que a pauta simplesmente deixasse de avançar e ficasse em segundo plano. O mesmo se repetiu com outras propostas interessantes, que acabaram sendo usadas como objeto de ataque, em vez de serem desenvolvidas, em temas como segurança pública, economia, saúde e educação.
De um lado, Lula voltou a defender políticas de distribuição de renda, programas públicos e atuação estatal. De outro, Flávio Bolsonaro falou em prosperidade, renegociação de dívidas, redução do endividamento e mobilidade social. O que chama atenção, entretanto, é que ambos precisam apresentar o Estado como agente capaz de entregar diretamente alguma forma de proteção, benefício ou ascensão econômica ao cidadão, um Estado paternal.
Na direita e esquerda discute-se muito se o país deveria ter mais ou menos Estado, mas raramente se discute com a mesma intensidade qual Estado, financiado de que maneira, submetido a quais prioridades e com quais custos de oportunidade, isto é o programatismo. É relativamente fácil prometer prosperidade, crédito, benefícios, subsídios ou ampliação de serviços, mas complexo ao explicar quem paga, quais despesas perdem espaço e que reformas permitem sustentar essas políticas no longo prazo.
É evidentemente uma disputa distributiva e populista transformada em linguagem eleitoral, com os rótulos ideológicos de “direita” ou “esquerda”. Não basta dizer que o microempreendedor receberá determinado benefício ou que o trabalhador alcançará a prosperidade — e para as militâncias provavelmente isso pouco importa.
O chamado “Exército do Lula” e a tropa digital bolsonarista encontraram material suficiente para produzir seus respectivos vencedores, com cortes e memes. Cada interrupção, expressão facial ou resposta mais agressiva pode ser transformada em vídeo de alguns segundos demonstrando que o oponente teria deixado o adversário “gag” — expressão que, por coincidência quase satírica, apareceu justamente na primeira fase do vestibular da Unicamp realizada no mesmo domingo. Para quem já chegou ao domingo vestindo uma camisa vermelha ou verde e amarela, provavelmente seu candidato venceu.
Para esse segundo turno, “votem em Lula para impedir Flávio”; “votem em Flávio para impedir Lula.” Notem: a campanha dos dois adversários, desde o primeiro turno, passou a depender da existência do outro. Não há um Bolsonaro sem Lula para combater, e não há um Lula sem uma família Bolsonaro para se ancorar.
Lula mobiliza parte de seu eleitorado pela rejeição ao bolsonarismo. Flávio Bolsonaro mobiliza parte do seu pela rejeição ao lulismo; logo, quanto mais ameaçador o adversário parece, mais urgente se torna fechar fileiras no próprio campo.
Isso ajuda a explicar por que tantos debates políticos contemporâneos parecem destinados menos ao eleitor indeciso e mais à reafirmação das próprias identidades. A repercussão negativa em torno dos dois candidatos trouxe, em boa parte, questionamentos que podem ser úteis para o próximo debate. A falta de checagem de fatos e, principalmente, o formato de confronto direto por mais de 20 minutos estiveram entre os fatores que contribuíram para que os candidatos perdessem de vista a necessidade de argumentar e se dirigir ao seu público-alvo: o eleitorado indeciso.
O formato em si não favoreceu nenhum dos candidatos, mas sim, quem comanda as redes. Por meio de cortes e edições, de certa forma, algum material vai servir para as campanhas dos presidenciáveis. Lula procurou em vários momentos formular perguntas dentro dos temas propostos, mas também caiu em provocações e protagonizou trocas ásperas. Flávio Bolsonaro mostrou desenvoltura retórica e investiu intensamente no confronto, inclusive com gestos e expressões enquanto Lula falava, comportamento que chegou a provocar intervenção dos mediadores.
Uma democracia saudável não pode depender apenas da capacidade de cada campo de convencer seus próprios seguidores de que o adversário representa uma ameaça existencial. Tampouco deveria obrigar milhões de eleitores a reduzir uma eleição presidencial à pergunta sobre “qual é o menos pior?” E talvez essa seja uma crise mais profunda do que qualquer bate-boca televisionado consegue mostrar.