Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (à esquerda), e presidente do Brasil, Lula da Silva (à direita) | Foto: Daniel Torok/Casa Branca e Ricardo Stuckert/PR
Jornal Do MyNews
Em entrevista ao Jornal do MyNews, Alexandre Coelho analisou os interesses estratégicos dos Estados Unidos, a relação entre Donald Trump e Lula e os possíveis impactos da política externa americana para o Brasil.
O anúncio de Donald Trump sobre o possível fim da ajuda militar dos Estados Unidos a Israel também tem um objetivo eleitoral. Essa é a avaliação de Alexandre Coelho, professor de Relações Internacionais da FAAP e doutor em Relações Internacionais pela USP.
Em entrevista ao Jornal do MyNews nesta terça-feira (3), o especialista relacionou a declaração às eleições de meio de mandato. Segundo ele, Trump tenta conter a perda de apoio entre os eleitores americanos. Parte da população questiona os gastos do país com conflitos internacionais.
Trump afirmou que pretende encerrar, em 2027, o repasse anual de aproximadamente US$ 4 bilhões em ajuda a Israel. Entretanto, os Estados Unidos devem continuar vendendo armamentos ao país. Para Coelho, a declaração reflete as pressões da política interna americana.
Segundo o professor, parte dos eleitores acredita que os recursos destinados às guerras no Oriente Médio e na Ucrânia deveriam atender às necessidades internas dos Estados Unidos. Nesse cenário, Trump busca reduzir o desgaste provocado pelos gastos militares. Além disso, tenta responder às críticas de setores do eleitorado, inclusive de sua própria base política.
Apesar do anúncio, Coelho não acredita que Trump interrompa a ajuda militar nos termos apresentados. Isso porque o apoio a Israel atende a interesses estratégicos americanos que vão além das eleições.
Outro ponto da entrevista foi a relação entre Donald Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na avaliação de Coelho, os dois líderes mantêm uma boa relação pessoal. Entretanto, essa proximidade não elimina as divergências políticas e comerciais entre os países.
O professor ressalta que Trump também precisa prestar contas à sua base eleitoral, especialmente aos apoiadores do movimento MAGA. Por isso, mesmo com uma relação diplomática próxima de Lula, o presidente americano precisa manter um discurso alinhado às expectativas desse grupo.
Lula, por sua vez, busca preservar uma relação estável com Washington. Nesse sentido, o desafio brasileiro é manter os canais de negociação abertos e defender os interesses nacionais.
Coelho também analisou os possíveis efeitos das eleições de meio de mandato sobre a política externa americana. Para ele, uma eventual mudança no controle da Câmara dos Representantes ou do Senado não deve alterar significativamente os interesses estratégicos dos Estados Unidos no curto e no médio prazo.
Na relação com o Brasil, isso significa que uma mudança na composição do Congresso não garante alterações na política comercial americana. Também não representa uma solução imediata para as tarifas impostas aos produtos brasileiros.
Além disso, o especialista destaca que os interesses econômicos e estratégicos de Washington ultrapassam a disputa entre democratas e republicanos. Portanto, o Brasil não deve esperar uma mudança automática na relação comercial após as eleições.
Ao analisar os próximos passos da diplomacia americana, Coelho destacou o papel do secretário de Estado, Marco Rubio. Para o professor, é importante acompanhar a atuação do secretário nas negociações com o Brasil e nas decisões internacionais do governo Trump.
Nesse contexto, a relação entre Washington e Brasília não depende apenas do contato pessoal entre Lula e Trump. Também envolve os integrantes da equipe americana que conduzem a diplomacia e executam as diretrizes do presidente.
Por fim, acompanhar a atuação do Departamento de Estado será fundamental para entender os próximos movimentos americanos. Entre os temas de atenção estão o comércio, a segurança, as relações com a América Latina e as disputas geopolíticas.