Petrobras anunciou aumento no preço dos combustíveis nesta quinta-feira (10). Foto Engin Akyurt (Pixabay)
O brasileiro médio pode até se perguntar: “O que o conflito entre Israel e Irã tem a ver com a minha vida?”.
A resposta curta é: tudo. A resposta longa envolve uma cadeia de eventos que começa com um navio parado no Estreito de Ormuz e termina com o seu bolso pagando mais caro no supermercado, na conta de luz e até na próxima embalagem de plástico que você comprar.
Não estamos falando de um choque passageiro. A escalada no Oriente Médio mexe com a espinha dorsal da economia global: o petróleo. E para o Brasil, mesmo sendo um dos maiores produtores do mundo, a dependência em derivados e produtos petroquímicos cria uma armadilha perigosa. Prepare-se, porque a conta vai chegar, e ela vem com um aditivo chamado prêmio de risco.
O Estrangulamento de Ormuz e o Efeito Dominó no Seguro
O Estreito de Ormuz é uma garganta estreita por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo do mundo. É a rota de gigantes como Arábia Saudita, Irã e Kuwait. Qualquer ameaça por ali, seja um ataque ou uma ameaça de bloqueio, faz o mercado tremer.
E o primeiro a tremer – e repassar a conta – é o setor de seguros. As seguradoras ao redor do mundo classificaram a região como área de altíssimo risco. A consequência prática? O preço do seguro para qualquer embarcação que se aventure nessas águas disparou. Fontes do setor indicam que os prêmios para riscos de guerra na região subiram até 400% e com apólices sendo renegociados semanalmente, o que indica que esses valores podem subir ainda mais. Esse custo não é absorvido por ninguém. Ele é imediatamente embutido no preço do frete internacional, e o petróleo que chega mais caro nos portos carrega essa despesa.
A Ilusão da Autossuficiência: Por Que o Brasil Não Está Imune?
A primeira reação de muitos é achar que estamos salvos. Afinal, temos o pré-sal. A exposição direta do Brasil ao petróleo do Golfo Pérsico não é muito alta, entretanto, o petróleo é uma commodity com preço global, o famoso Brent. Se o barril dispara lá fora por causa do medo de um bloqueio, ele dispara para todo mundo, incluindo a Petrobras. Além disso, grande parte do diesel e derivados de petróleo é importado. E é aí que a nossa dependência estrutural aparece.
O Brasil pode produzir muito óleo, mas seu parque de refino não é suficiente para abastecer a demanda interna por derivados específicos. Somos particularmente dependentes da importação de dois produtos:
Diesel: O transporte rodoviário responde por cerca de 65% da movimentação de cargas no país. Sem diesel, o agronegócio não escoa a safra, a indústria não recebe insumos e as prateleiras dos mercados ficam vazias. Importamos boa parte do diesel que consumimos. Qualquer alta no preço internacional desse combustível bate direto no frete.
Gasolina: Com peso de quase 5% no IPCA (índice oficial de inflação), segundo a FGV, a gasolina é um vetor direto de inflação. Quando o preço sobe na refinaria, o impacto é imediato no bolso do consumidor.
Mas o petróleo não move só caminhões; ele move a indústria. O petróleo é a matéria-prima básica para uma infinidade de produtos intermediários. Estamos falando dos derivados petroquímicos, que estão em toda parte:
Plásticos: De embalagens de alimentos a garrafas de refrigerante, passando por canos e componentes eletrônicos. Tudo isso deriva do petróleo.
Fertilizantes e Defensivos Agrícolas: O agronegócio, motor da economia brasileira, depende desses insumos para ter produtividade. Eles têm forte correlação com o preço da energia. Petróleo mais caro significa comida mais cara no prato.
Resinas, Fibras Sintéticas e Embalagens: O custo de produção de roupas, calçados e uma gama de bens industriais sobe.
Ou seja, a alta do petróleo não é um problema só do posto de gasolina. Ela se difunde por toda a cadeia produtiva, pressionando custos de forma generalizada.
A Inflação que Volta e os Juros que Não Caem
O cenário que se desenha é o pior pesadelo para o Banco Central. A inflação brasileira vinha dando sinais de trégua, alimentando a esperança de cortes na taxa Selic. É um alerta vermelho: Se o petróleo permanecer em patamares elevados ao longo de 2026, os aumentos de custos tendem a se difundir gradualmente por diferentes cadeias produtivas, pressionando bens industriais, alimentos e serviços.
Essa disseminação torna o choque mais persistente. Não é um “pico” que passa em um mês. É um novo patamar de custos que se incorpora à economia.
E não para por aí. O impacto na conta de luz. Em momentos de estiagem ou pico de consumo, o Brasil aciona usinas termelétricas, muitas movidas a derivados de petróleo. Com o custo de geração mais alto, a conta pode ficar mais salgada com a volta de bandeiras tarifárias mais elevadas.
O Dilema da Política Monetária
Com a inflação resistente e espalhada por múltiplos setores, o espaço para o Banco Central cortar os juros desaparece. A expectativa de início de cortes na taxa de juros depende, em grande medida, da consolidação de um processo consistente de desaceleração inflacionária. Se o petróleo atrapalha essa desaceleração, a Selic vai continuar alta, travando o consumo e o investimento.
O recado final é simples e duro: a guerra no Oriente Médio já está precificando o risco no seguro das embarcações. Esse risco vai virar custo no frete. O custo no frete vai virar aumento no diesel, na gasolina e nos insumos plásticos. E tudo isso vai virar inflação no seu bolso, seja na hora de abastecer o carro, comprar um pacote de arroz ou pagar a conta de luz. Preparem-se, porque o “prêmio de risco” da guerra chegou para ficar.