Economizar na fiscalização do mercado é o clássico barato que sai muito caro Escândalos financeiros

Economizar na fiscalização do mercado é o clássico barato que sai muito caro

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Felipe Salto avisa que enfraquecer a CVM e o BC enquanto se protegem emendas parlamentares deixa o investidor indefeso contra a próxima “pegadinha” bancária

Ajustar as contas é vital? Sem dúvida. Ninguém discute a matemática. Porém, economizar tirando a gasolina da viatura de polícia é, no mínimo, temerário. O economista Felipe Salto avisa: o necessário corte de gastos não pode virar um “desmonte do Estado”. Historicamente, adoramos apertar o cinto dos servidores essenciais e sufocar a estrutura da CVM e do Banco Central. Enquanto isso, as emendas parlamentares e os benefícios fiscais ineficientes, os verdadeiros ralos de dinheiro, continuam jorrando livres, leves e soltos. O ajuste fiscal virou sinônimo de asfixiar o Estado, e não de fechar a torneira do desperdício real. Nesta conversa com o MyNews Entrevista, o economista Felipe Salto, uma referência em contas públicas, analisa o mais recente escândalo financeiro, suas origens e futuro, veja no vídeo abaixo.

O cenário piora quando olhamos para a velocidade do mercado. O sistema financeiro corre de Fórmula 1, mas o fiscalizador, muitas vezes, ainda anda de carroça. A oferta de produtos “exóticos” explodiu. O motivo? O velho modelo de comissão: vende-se o que paga mais ao assessor, não o que serve ao cliente. E o Estado? Segue em sua “letargia” habitual. Essa lentidão permite que aberrações financeiras prosperem. Lembra dos COEs ou daqueles CDBs de bancos duvidosos? Pois é. Sem um regulador ágil, a criatividade do mercado para inventar “pegadinhas” e destruir patrimônio não encontra limites.

Quer um exemplo prático da tensão? Olhe para o caso do Banco Master. Em agosto de 2023, a gestora Warren analisou os números e avisou aos clientes: “Fujam”. Tiraram os produtos da prateleira. Receberam notificação extrajudicial para tentar calar os analistas. Salto relatou o episódio como prova da pressão que existe no setor. Ou seja, a casa de análise viu a fumaça muito antes do incêndio se tornar público. A falta de recursos e de gente nos órgãos de controle cria esse vácuo perigoso. Quem paga a conta, no fim, é sempre o investidor desavisado.

Portanto, a solução não é mágica; é orçamentária. Queremos um mercado sério que não espante o capital estrangeiro? Precisamos de concurso público, dinheiro e autonomia técnica para a CVM e o BC. O Brasil até possui leis robustas, mas falha miseravelmente na execução (o famoso enforcement). Falta braço para punir. Logo, economizar na fiscalização é o clássico “barato que sai caro”. O verdadeiro ajuste fiscal deve garantir que o Estado tenha força para punir abusos e implementar políticas públicas eficientes. Caso contrário, continuaremos assistindo a reprises de filmes de terror financeiro.

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