Falta de informação e preconceito são as maiores dificuldades de quem vive com HIV/AIDS; campanha quer discutir estigma Em pé: Cassio Filho e André Vidigal Sentados: Lekka Glam, Victor Bebiano e Lara Domingues. Foto: Lara Domingues/Divulgação Campanha

Falta de informação e preconceito são as maiores dificuldades de quem vive com HIV/AIDS; campanha quer discutir estigma

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Brasileiros que convivem com o vírus HIV relatam as adversidades que enfrentam no seu cotidiano por pura falta de informação alheia

“Do jeito que as pessoas vinham falar comigo, eu me sentia com uma semana de vida.” Este foi o primeiro contato do jovem Victor Bebiano com a falta de informação e o preconceito sobre HIV/AIDS, depois de revelar à família o contágio. Convivendo com o vírus há sete anos, ele conta que a discriminação aparece muito por meio de gestos, “sempre muito ligada à ignorância das pessoas sobre o assunto”.

A experiência de Victor não é a exceção: dados confirmam que o estigma do contágio com HIV ainda é forte entre os brasileiros. O mais recente Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/AIDS BRASIL, divulgado em 2019, apontou que 46,3% dos entrevistados sabiam que outras pessoas estavam fazendo comentários discriminatórios ou especulativos, associados ao fato de ser alguém vivendo com HIV/AIDS. Além disso, são comuns as situações de assédio verbal (25,3%), agressão física (6%) e até mesmo perda de emprego (19%).

“Fazendo seu tratamento, você não apresenta risco a você mesmo ou a outras pessoas. E não é algo de que se deve ter vergonha”, argumenta Victor, desmistificando a ideia ultrapassada de que o HIV é uma “sentença de morte”. “Mesmo depois de esclarecer minha família a respeito dos avanços no tratamento, demorou bastante para que relaxassem. Durante um bom período, minha mãe viveu muito preocupada com minha saúde.”

Para trazer o tema de volta à discussão pública, o Fórum da ONG/Aids do Estado de São Paulo (FOAESP), em parceria com os diretores de criação Cassio Filho e André Vidigal, a diretora Lekka Glam, a produtora audiovisual Veludo e o estúdio criativo @faccion.cc, desenvolveram uma campanha que aborda o dia a dia de quem sofre discriminação por conta da soropositividade. Não à toa, o conceito escolhido foi “A cura da AIDS começa em um mundo sem preconceito”.

HIV

Em pé: Cassio Filho e André Vidigal. Sentados: Lekka Glam, Victor Bebiano e Lara Domingues. Foto: Lara Domingues/Divulgação

Os diretores contam que foram registradas histórias de quatro pessoas que convivem com HIV. Diferentes idades, raças e orientações sexuais marcam a escolha dos entrevistados, como forma de confirmar que não há grupos mais suscetíveis. “Nossa preocupação foi criar no set um ambiente de acolhimento e intimidade, o que deixou as pessoas à vontade para contar suas histórias”, relata Vidigal. Para Bebiano, que já participou de outras iniciativas sobre HIV/AIDS, não foi apenas o acolhimento que fez a diferença. “É visível que houve uma preparação para as entrevistas, um cuidado em acertar os termos e entender as situações, e em fazer perguntas pertinentes e bem construídas. Nem sempre é assim, infelizmente.”

A opção estética do uso de luz e sombras, aliada ao resultado do ambiente acolhedor, entrega vídeos emocionantes, contrastando o relato cru com visual poético e permitindo ao espectador entender a profundidade de cada fala. “Queríamos nos afastar da estética dos filmes sobre o assunto, que é a mesma desde os anos 1980 e tem um teor mais agressivo. Viver com HIV/AIDS não precisa ser assustador”, ressaltam os diretores. A partir disso, a diretora de fotografia, Lara Domingues optou por metaforizar sentimentos, com a escuridão representando a ignorância, o preconceito e estigma enquanto a iluminação entra como uma representação da quebra desse paradigma.

Segundo os diretores de criação Cassio Filho e André Vidigal, a expectativa da campanha é provocar o debate sobre o estigma que a sociedade ainda impõe sobre a doença, e comprovar quão prejudicial ele é. Suas falas são corroboradas pela infectologista Denize Lotufo, que atua no atendimento de pessoas com HIV há mais de 30 anos. “Hoje, esta é considerada uma infecção crônica que, com tratamento correto, fica totalmente estabilizada. Quem toma os medicamentos corretamente pode e deve fazer planos de vida.”

Para ela, o estigma é o fator que mais atrapalha não apenas o tratamento, como também a qualidade de vida de seus pacientes. “Tem gente que ainda precisa tomar os remédios escondido no trabalho, ou dizer que são vitaminas. Isso é lamentável. O preconceito também afasta as pessoas da informação: muitos não sabem, por exemplo, que não transmitem o vírus com ele indetectável no organismo.” O presidente do FOAESP, Rodrigo Pinheiro, concorda com a infectologista, lembrando que o enfrentamento do preconceito também auxilia no trabalho de prevenção. “Em mais de 40 anos de epidemia de HIV/AIDS, o maior desafio é o combate ao estigma e ao preconceito das pessoas com quem vive com o vírus. Pensando nisso, o FOAESP, junto com a GSK, lançou este projeto para conscientizar a população em geral. Esta luta se faz necessária para a garantia dos Direitos Humanos.”

A campanha do FOAESP, colegiado que reúne organizações com atuação no campo da Aids, direitos humanos e saúde pública, tem apoio da farmacêutica GSK. O lançamento para convidados ocorreu nesta segunda (27), às 10h, no auditório do Centro Formador de Pessoal para Saúde – CEFOR, em São Paulo.

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