Franklin Martins, que enfrentou a ditadura militar no Brasil, 57 anos depois é retido e deportado do Panamá para o Brasil ! Foto e montagem: MyNews
FRANKLIN MARTINS
Ex-ministro de Lula, Franklin Martins, que participou de sequestro de embaixador dos EUA na ditadura, retido no Panamá anteontem e deportado
O jornalista Franklin Martins tem seu nome vinculado com estreiteza a luta contra a ditadura militar no Brasil e pela volta do regime democrático. Há 57 anos, em setembro de 1969, participou do sequestro do embaixador norte-americano no Brasil, Charles Elbrick, libertado após troca de presos políticos. A ação resultou no seu impedimento, e de outros colegas, de entrarem nos Estados Unidos, até hoje.
Em agosto do ano passado, Franklin concedeu uma entrevista ao MyNews, no turbilhão das medidas de Donald Trump proibindo acesso de ministros do STF aos Estados Unidos. Foi procurado para falar da experiência de conviver sem visto de entrar no “país das oportunidades”. E nos respondeu: “Eu acho que eu e os Estados Unidos sobreviveremos a essa bobagem”. Será?
No último dia 6, anteontem, ele foi parado no aeroporto do Panamá, numa viagem que seguia para um evento na Guatemala, interrogado, fotografado e deportado de volta ao Brasil. Era uma conexão no Panamá. Na Cidade de Guatemala participaria do seminário “Reconstruindo estados de bem-estar social nas Américas”, na Universidade Rafael Landívar.
Quando pousou no Panamá, dois policiais à paisana o abordaram e um deles o pediu que o acompanhasse. E relata Franklin:
“Perguntei-lhe o motivo. Respondeu apenas que precisava fazer uma entrevista comigo. Levou-me até as dependências de uma área fechada, ainda na parte internacional do aeroporto, que não possuía qualquer identificação. Ao chegarmos, pediu que eu me sentasse numa cadeira em frente à mesa e dirigiu-se à sala ao lado. Falou com alguém e voltou em poucos minutos. Os dois ambientes eram separados por uma grande parede de vidro. Através dela, os chefes dos interrogadores e outros policiais, sem serem vistos pelo interrogado, poderiam acompanhar tudo que estava acontecendo e sendo dito na sala ao lado”, contou Franklin no relato que fez ao próprio Itamaraty.
Franklin Martins contou que esse agente pediu-lhe que preenchesse um documento com seus dados (nome, profissão, idade, endereço, motivo da viagem, se já tinha sido preso, motivo da prisão etc).
“Perguntei a razão da entrevista e ele não quis responder. Disse que era um procedimento padrão autorizado pela lei de migração de 2008 e que depois me daria outras informações. E começou a fazer perguntas que, de um modo geral, apenas repetiam o que já estava informado no documento que eu havia preenchido. Pediu-me provas de que eu iria participar de um seminário numa universidade da Guatemala. Mostrei-lhe a programação, que ele fotografou. Tirou fotos minhas também e colheu minhas impressões digitais três vezes”.
O jornalista, ex-ministro de Lula no primeiro governo, da Secom, relata que o policial “deteve-se especialmente no item da minha prisão em 1968, em Ibiúna. Preferi não entrar em detalhes. Respondi apenas que havia sido preso por motivos políticos. O Brasil vivia sob uma ditadura militar e eu havia lutado durante 21 anos contra ela – e isso não era um crime, mas um dever para os democratas. Depois de mais algumas perguntas sem importância, pediu-me que aguardasse. Entrou na sala ao lado, separada da dependência em que estávamos pela grande parede de vidro. E não voltou mais”, contou.
Depois de o reterem ali por algum tempo, o informaram que não poderia seguir para a Guatemala e que seria deportado de volta do Brasil. Franklin perguntou a razão, não a obteve. Recebeu como resposta que, se tivesse cometido crime grave, casos de tráfico de drogas, crimes financeiros, assassinatos, sequestros e outros, não poderia seguir viagem.
“Mais uma vez afirmei que não havia cometido crime algum, mas lutado contra uma ditadura. E me orgulhava disso.
Pedi então que eles entrassem em contato com a Embaixada do Brasil ou me permitissem fazer uma ligação telefônica para nossa representação diplomática. O policial respondeu que não fariam isso. Alegou que se tratava de uma decisão soberana e exclusiva das autoridades panamenhas”.
O jornalista foi levado para uma sala, onde ficou confinado por quatro horas e onde foi fotografado de frente e perfi8l e foi colhida suas digitais. Franklin dá detalhes:
“Permitiram que eu fosse ao banheiro. Autorizaram a compra de um hamburguer na hora do almoço. Ajudaram a recarregar meu celular. E procuraram mostrar simpatia, dando a entender que sabiam que, às vezes, erros eram cometidos com os “retenidos”. Voltaram a falar na Lei de 2008, mas deixaram escapar que sua aplicação havia se tornado mais rígida depois de decretos recentes do governo. Em 2025, os EUA e o Panamá assinaram acordos bastante abrangentes na área da segurança”.
Franklin Martins faz uma observação final, de que não se tratou de uma “operação fortuita”.
“Ela foi planejada, provavelmente a partir do cruzamento de informações das bases de dados panamenhas e/ou norte-americanas – a cooperação entre os órgãos de segurança dos dois países é intensa – com os nomes dos passageiros do voo. Não creio que se tratou de uma perseguição à minha pessoa. Devem estar adotando esse procedimento como um padrão. Talvez seja um sinal dos tempos turbulentos que estamos vivendo.
Será que quem lutou contra a ditadura militar no Brasil e, em algum momento, foi condenado pelos tribunais militares daquela época, não deve ser alertado se for visitar o Panamá ou mesmo fazer uma conexão para outro país? Não seria o caso do governo brasileiro, através de seus representantes diplomáticos, conversar sobre esses abusos com as autoridades panamenhas?”