EUA de Trump: quando a oligarquia se casa com o autoritarismo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinando ordens executivas no salão oval da Casa Branca | Foto: Abe McNatt/Casa Branca

EUA de Trump: quando a oligarquia se casa com o autoritarismo

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Autoritarismo não começa com tanques nas ruas, mas com o abuso sistemático do poder em benefício de poucos; na oligarquia, os ricos controlam

Há um ponto de consenso frequentemente esquecido no debate político contemporâneo: independentemente de filiação partidária ou posição ideológica, a maioria das pessoas não deseja viver sob regimes autoritários. Nos Estados Unidos, país que construiu sua autoimagem sobre liberdades civis e prosperidade, essa recusa é ainda mais evidente.

A ideia de que, na nação mais rica da história, apenas uma pequena elite de bilionários deva prosperar enquanto a maioria permanece à margem soa não apenas injusta, mas corrosiva do próprio pacto social. É desse descompasso entre riqueza extrema e democracia formal que emerge um fenômeno perigoso, muitas vezes naturalizado: a fusão entre oligarquia e autoritarismo.

Autoritarismo, em sua essência, não começa com tanques nas ruas, mas com o abuso sistemático do poder em benefício de poucos. Ele se instala quando regras são flexibilizadas para os fortes e endurecidas para os fracos; quando instituições passam a servir interesses privados; quando o Estado deixa de ser árbitro e se torna instrumento.

A oligarquia, por sua vez, descreve uma realidade em que um número diminuto de indivíduos extremamente ricos controla os fluxos centrais da vida social: a economia, o sistema político e os meios de comunicação. Não se trata apenas de acumulação de capital, mas de concentração de poder econômico, simbólico e institucional.

Os dados recentes sobre desigualdade nos Estados Unidos são eloquentes. Nunca houve tamanha concentração de riqueza: o,1% mais rico possui mais riqueza do que os 93% da base da população, e um único homem, Elon Musk, possui mais riqueza do que os 52% mais pobres das famílias americanas. Essa assimetria não é um acidente do sistema, mas o resultado de escolhas políticas que favorecem os de cima.

Temos um sistema político corrupto, tornado ainda mais corrupto como resultado da desastrosa decisão da Suprema Corte conhecida como “Citizens United”, que permite que bilionários, Musk, gastem 270 milhões de dólares para eleger candidatos. Quando essa elite passa a financiar diretamente campanhas eleitorais com somas milionárias, como autorizado por decisões judiciais que equiparam dinheiro a liberdade de expressão, o voto do cidadão comum torna-se, na prática, um sussurro diante do megafone dos bilionários.

A captura do sistema político seria incompleta sem o controle da informação. Musk é dono do X, Zuckerberg é dono do Facebook e do Instagram, e a família Redstone é proprietária da Paramount e da CBS.  A crescente concentração dos meios de comunicação tradicionais e das grandes plataformas digitais nas mãos de poucos magnatas cria um ambiente em que a agenda pública pode ser moldada conforme interesses privados.

Não se trata, somente, de censura explícita, mas de enquadramento: quais temas ganham visibilidade, quais vozes são amplificadas, quais conflitos são minimizados. Nesse cenário, a pluralidade democrática sofre erosão silenciosa, substituída por narrativas que normalizam privilégios e deslegitimam qualquer tentativa de regulação ou redistribuição.

É nesse ponto que a oligarquia flerta abertamente com o autoritarismo. Para os ultrarricos, a democracia passa a ser vista como um entrave: ela exige impostos, impõe limites, escuta maiorias. Não surpreende que muitos desses atores defendam, explícita ou implicitamente, regimes fortes, personalistas e refratários à participação popular. Trump lhes deu um trilhão de dólares em cortes de impostos.

Cortes massivos de impostos para os mais ricos, desprezo pelos impactos sociais da automação, indiferença diante da crise climática: tudo isso compõe uma lógica em que a política serve para blindar fortunas, não para promover o bem comum.

O resultado é um paradoxo inquietante: em nome da eficiência e da liberdade econômica, admiram-se regimes autoritários profundamente desiguais, onde riqueza e poder caminham juntos sem constrangimentos democráticos. Quem Trump recebeu de braços abertos na Casa Branca? Mohammed bin Salman, o ditador da Arábia Saudita que assassinou um jornalista americano.

Quando líderes políticos exaltam governantes que concentram poder absoluto, o sinal é claro. A oligarquia, ao se casar com o autoritarismo, projeta um futuro no qual a democracia deixa de ser valor e passa a ser obstáculo. Reconhecer esse movimento não é alarmismo; é um imperativo histórico para quem ainda acredita que sociedades livres não podem sobreviver quando poucos decidem tudo para muitos.

 

*Daniel Carvalho de Paula é doutor em História pela USP e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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