Arsenal Nuclear
Entre o desespero existencial de Israel e a resiliência histórica do Irã, o mundo volta ao limiar nuclear de 1973
O mundo vive hoje a maior ameaça nuclear desde 1973, na Guerra do Yom Kippur. O programa de mísseis do Irã, amplamente reconhecido por analistas como o mais capaz e avançado do Oriente Médio, colocou Israel em uma encruzilhada estratégica sem precedentes. Com a escalada das tensões e a falha das defesas convencionais em garantir uma vantagem absoluta, o fantasma de um conflito atômico deixa de ser um tabu teórico para se tornar uma possibilidade real sobre a mesa de guerra.
Israel pode lançar mão de sua bomba atômica contra o Irã? “Diria que as chances são grandes, eles estão ficando desesperados”, afirma o comandante Robinson Farinazzo, do canal Arte da Guerra. O professor Salem Nasser concorda com a gravidade do momento e diz: Israel busca uma resposta decisiva. “Israel precisa que essa guerra vá até o seu final. Eles querem esse fim dos tempos. Se perder essa guerra eles desaparecem, os próprios israelenses dizem isso”, explica Nasser numa entrevista exclusiva ao MyNews, veja a íntegra abaixo. Para ambos os especialistas, a percepção de uma ameaça existencial remove os limites éticos do uso de armas de destruição em massa.
Por outro lado, o Irã demonstra que não irá recuar. O alto funcionário iraniano Mohsen Rezaee declarou na rede social X que o fim da guerra só ocorrerá quando os EUA pagarem indenizações pelos danos e se retirarem totalmente do Golfo Pérsico. Farinazzo adverte que a resistência persa é histórica e resiliente: “O Sr. Trump não sabe que as guerras entre persas e russos duraram 170 anos”. O analista sugere que o mercado financeiro e a opinião pública pressionarão por uma retirada americana, visto que o conflito de exaustão é uma especialidade de Teerã que os EUA dificilmente suportarão.
A pressão interna sobre Donald Trump já é visível. David Sacks, conselheiro de IA e cripto da Casa Branca, defendeu abertamente que os EUA devem “declarar vitória e sair”, sinalizando um descontentamento crescente na coalizão MAGA. Sacks aponta que o mercado deseja o fim das hostilidades e alerta para o risco iminente de uma guerra nuclear caso a escalada continue. O senador Bernie Sanders reforçou esse sentimento ao afirmar que Netanyahu liderou Trump para uma guerra “horrível e impopular” sem um plano de saída claro, enquanto os custos humanos e financeiros disparam.
Os dados deste curto conflito de 12 dias são devastadores: mais de 1.200 civis iranianos mortos, 13 soldados americanos mortos, 3,2 milhões de deslocados no Irã e gastos que já somam $16,5 bilhões.
A situação atual espelha o desespero de outubro de 1973, quando a então Primeira-Ministra Golda Meir autorizou a montagem de treze ogivas nucleares de 20 quilotons em mísseis Jericho e aviões F-4 Phantom II. Naquela ocasião, Israel preparava ataques contra alvos no Egito e na Síria para evitar o colapso total do país. O gesto foi um sinal claro de que, para Israel, a destruição mútua é preferível ao desaparecimento do Estado.
Aquela movimentação de 1973, estrategicamente detectável, serviu como um ultimato para os Estados Unidos, forçando Henry Kissinger e Richard Nixon a iniciarem a Operação Nickel Grass para reabastecer Israel e evitar uma escalada atômica sem precedentes. Esse temor, que o autor Seymour Hersh descreveu como o motor da intervenção americana, é o mesmo que hoje assombra os estrategistas em Washington. A história se repete, mas desta vez, com um Irã muito mais armado.