Mariana e Eduardo Coutinho / Foto: arquivo pessoal de Mariana
Ao site do MyNews, Mariana Simões conta como foi encontrar e entrevistar um dos principais cineastas do Brasil
Eduardo Coutinho partiu há 12 anos, mas suas obras e seu legado para o jornalismo brasileiro, especialmente para o documentário e o audiovisual, seguem vivos até hoje no imaginário e no gosto de muita gente. Entre eles estão: Cabra Marcado para Morrer, Edifício Master, Jogo de Cena, Babilônia 2000, e outros.
Em 2011, a então estudante de Comunicação Social e hoje jornalista Mariana Simões o entrevistou. Agora, ela relembra como foi o encontro com Coutinho, em entrevista exclusiva ao MyNews.
Mariana: Eu estava escrevendo a minha tese sobre o Eduardo Coutinho na faculdade. Na época, eu morava em Nova York e cursava Comunicação Social. Decidi escrever sobre ele e queria muito fazer uma entrevista. Fui para o Brasil, passei cerca de dois meses lá, trabalhando na tese e aproveitando as férias da faculdade.
Comprei uma passagem para o Rio mesmo sem eles terem confirmado que a entrevista iria acontecer. Liguei para o escritório e fiquei insistindo. Falei que era estudante, que admirava muito o trabalho dele, que estava escrevendo uma tese. Ainda mais para um estudante, era difícil, porque ele não estava falando com a imprensa nem com ninguém, então não tinha muita chance de eles me darem atenção. Mesmo assim, eu disse: “Olha, já comprei uma passagem, estou indo para o Rio de Janeiro”.
Mariana: Vou até o encontro do Eduardo Coutinho e começo a fazer perguntas para ele sobre jornalismo, documentário, cinema, sobre tudo isso. E ele desmontou tudo aquilo em segundos. Ele me disse: “Não é assim. O que faço é contra o jornalismo”. Falou claramente que tudo o que ele fazia era contra o jornalismo. Aquilo me deixou chocada, eu não esperava ouvir isso.
Depois, quando voltei e comecei a aprofundar a pesquisa para a tese, passei a perceber que o que ele fazia realmente não era jornalismo, nunca foi. Hoje, olhando para trás, entendo que eu deveria ter aprofundado ainda mais esse estudo. Acho que até parei no meio do caminho. Só anos depois fui compreender, de fato, o que o Eduardo Coutinho fazia. Na minha opinião, o trabalho dele é uma mistura de cinema com história oral. A história oral é um conceito que existe no mundo todo.
Muitos dos documentários de Eduardo Coutinho passam por dar voz a pessoas anônimas, gente do nosso dia a dia. Aqui, Mariana fala um pouco sobre como o cineasta gostava de fazer algo diferente dos demais. E detalha também quando ele fez o Jogo de Cena, entrevistando diversos atores e atrizes, entre elas, Fernanda Torres.
Mariana: Ele tinha essa ideia de pegar pequenos universos e, dentro deles, entrevistar várias pessoas que pertenciam àquele mundo, ouvindo relatos em torno de um tema. Achei isso superinteressante. Quando eu estava na faculdade, eu pensava: “Cara, naquela época eu achava que queria fazer cinema”.
Então, ele fez o Jogo de Cena, no teatro, falando sobre teatro, com pessoas que estavam encenando e fazendo parte da cena. É uma forma de refletir sobre a própria encenação no mundo. Para ele, o legado não era passar adiante para alguém continuar o seu trabalho. O legado estava em deixar o questionamento: fazer a gente refletir sobre como estamos entrando em cena na nossa própria vida e na sociedade.
Em 2025, o Brasil venceu o Oscar pela primeira vez com Ainda Estou Aqui. Agora, o país concorre em quatro categorias com O Agente Secreto. Mariana mora em Massachusetts, nos Estados Unidos, e comenta a repercussão dos longas no país. A jornalista atualmente trabalha como repórter e cobre mais a área de educação.
Mariana: Nos Estados Unidos estou vendo que, pela primeira vez, as pessoas estão falando de cinema brasileiro. E esta é uma região onde há muitos brasileiros. Existe uma população brasileira imensa aqui, aliás, acho que, se não me engano, é a terceira maior população de imigrantes. Pela primeira vez, notei colegas da redação comentando: “Pô, O Agente Secreto, quero assistir”. Teve um cara que até passou perto de onde sento e falou: “Estou indo ver, está passando em um desses cinemas independentes, locais, aqui perto de onde eu moro”. Achei isso muito legal e pensei: “Pô, realmente está começando”.
Aí perguntei se eles já tinham assistido a Ainda Estou Aqui. Algumas pessoas disseram que sim, e então expliquei o significado do filme para o Brasil, as questões da ditadura. As pessoas estão interessadas. Acho que a gente está vivendo um momento político aqui nos Estados Unidos em que essas questões de autoritarismo estão voltando à tona, e as pessoas estão refletindo sobre isso. E o cinema brasileiro, principalmente Ainda Estou Aqui, traz uma mensagem muito universal.
Para encerrar, Mariana explica, a partir da sua visão, por que Eduardo Coutinho afirmou, na entrevista, a famosa frase: “Tudo o que eu faço é contra o jornalismo”. O texto está publicado no site da Agência Pública.
Mariana: O que o Eduardo Coutinho, de fato, fazia era história oral. É isso que eu digo. E ele afirmava ser contra o jornalismo porque a estrutura do jornalismo, em si, não é voltada para a prática da história oral. A história oral exige horas de entrevistas, de coleta da memória viva das pessoas. É um exercício que não cabe no jornalismo. Digo que o que ele fazia não era jornalismo mesmo. Era algo muito mais próximo da história oral e muito mais ligado à reflexão sobre o que estamos fazendo quando realizamos uma intervenção em algum lugar, falando com alguém. A gente não está capturando uma verdade; está capturando um momento influenciado por nós. Influenciado porque, ao chegar com uma câmera, a pessoa vai agir de um jeito diferente do que agiria se não estivesse sendo filmada.
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