Cena do filme "Kasa Branca". Foto: Agência Brasil/Divulgação
DEMOCRATIZAÇÃO DA CULTURA
Pesquisa mostra que 42% dos brasileiros colocam o acesso gratuito a shows, peças e cinema no topo das demandas públicas
A expansão do acesso gratuito a eventos artísticos e equipamentos culturais virou a principal cobrança da população brasileira para os próximos anos. Segundo dados da 7ª edição da Pesquisa Hábitos Culturais, divulgada nesta quarta-feira (14), 42% dos entrevistados colocam a oferta gratuita de shows, filmes e exposições como prioridade máxima para os novos gestores.
O Observatório Fundação Itaú realizou o estudo em parceria técnica com o Datafolha. As instituições ouviram 2.448 pessoas em 137 municípios. O levantamento expõe um abismo socioeconômico no acesso a um direito garantido pela Constituição Federal.
A maioria dos brasileiros (68%) sabe que o acesso à cultura é um direito constitucional. No entanto, a renda familiar ainda determina quem consegue frequentar esses espaços.
Nas classes A e B, 97% das pessoas participaram de ao menos um evento presencial nos últimos 12 meses. Nas classes D e E, essa taxa cai para 82%. A diferença fica ainda mais evidente no cinema. Enquanto 63% dos mais ricos foram às salas de exibição no último ano, apenas 18% dos mais pobres tiveram essa mesma oportunidade. Além disso, 33% da população relata a ausência total de espaços culturais no bairro onde mora.
O fator financeiro lidera as reclamações. O custo elevado do ingresso somado ao valor do transporte desmotiva 35% dos brasileiros. Em segundo lugar aparece a insegurança, citada por 30% dos entrevistados. A rotina apertada e a incompatibilidade de horários afastam 23% das pessoas. Já o cansaço atinge 21%, enquanto a distância física dos locais de evento prejudica 19% dos cidadãos.
Quem frequenta atividades presenciais sente o peso no orçamento. Quase metade da população (46%) gasta até R$ 100 por mês com lazer cultural. Outros 15% desembolsam entre R$ 151 e R$ 200, e 8% investem mais de R$ 400 mensais.
O medo do crime reforça esse isolamento. O receio de assaltos no entorno dos eventos assusta 47% dos entrevistados. Além disso, 43% reclamam da falta de policiamento na região. A preocupação com o assédio e a violência de gênero atinge 38% das mulheres, contra 21% registrados no levantamento anterior.
Além de exigir gratuidade, a população apontou outras medidas urgentes para a gestão pública. A construção de novos museus, cinemas e teatros é a prioridade para 32% dos brasileiros, enquanto 28% cobram reformas e ampliações nos prédios já existentes. No campo do fomento, 26% defendem incentivos diretos para a produção independente, e 22% exigem recursos voltados para projetos culturais em favelas, periferias e comunidades tradicionais.
“O que a pesquisa mostra é que existem barreiras que vão além da subjetividade individual ou do gosto pessoal que interferem diretamente nesse acesso”, apontou Ana Maria Cardoso, coordenadora do Observatório da Fundação Itaú.