Da censura à crítica: escolas de samba no Rio enfrentaram a ditadura, sendo perseguidas e vigiadas Império Serrano 1969 – Foto: Arquivo Império Serrano carnaval

Da censura à crítica: escolas de samba no Rio enfrentaram a ditadura, sendo perseguidas e vigiadas

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No período do Regime Militar, o Carnaval não ficou ausente da repressão e também foi observado de perto e MyNews conta como foram desfiles da época

O Brasil, entre os dias 31 de março e 1º de abril, relembra o golpe militar que colocou o país sob um regime por 21 anos, entre 1964 e 1985, ano em que os militares deixaram o poder. Muitas pessoas foram perseguidas, e suas dores são relembradas até os dias atuais. Com o povo que faz o Carnaval não foi diferente: houve perseguição durante todo o período, com impacto em escolas de samba, principalmente Salgueiro, Caprichosos de Pilares, Unidos da Tijuca e Império Serrano.

E quem conta com exclusividade como o regime militar atacou o samba do Rio de Janeiro é o jornalista e mestrando em História da UFRRJ, especialista em estudos de ditadura e escolas de samba, Bruno Guedes. Ele escreveu um artigo sobre o tema intitulado “Olha a crítica: as escolas de samba e os carnavais como protestos por direitos durante a redemocratização”.

Bruno: A relação das escolas de samba com a ditadura é muito complexa, muito ambígua, como a própria história das escolas de samba com o poder público. Até para se legitimar dentro de um cenário cultural, as escolas de samba sempre tiveram movimentos, ora de oposição, ora de alinhamento, mas sempre buscando se legitimar, e na ditadura ocorreu isso. Nós temos poucas pesquisas sobre a história das escolas de samba durante esse período, e há um senso comum, fora pelo menos do corpo acadêmico, de que as escolas de samba tiveram um alinhamento automático.

Não é verdade. Algumas escolas, de fato, que são famosas pelo seu alinhamento também já foram, por causa dos enredos claramente ufanistas, claramente tentando se alinhar à ditadura, mas porque estavam tentando se legitimar. Algumas tinham acabado de subir do grupo de acesso, como em 1973, 1974 e 1975. Outras escolas também, apesar de serem famosas, como a Mangueira, em 1971, fizeram enredos mais alinhados, ainda que nenhuma dessas escolas tenha conseguido algum tipo de proveito próprio. A ditadura não as auxiliou dentro do carnaval. Pelo contrário, a maioria das escolas de samba sempre foi muito monitorada, principalmente a partir de 1965, que foi o primeiro carnaval sob a ditadura. Muitas escolas acabaram tendo agentes infiltrados, como ocorreu com Salgueiro, Vila Isabel, Império Serrano e Portela.

O caso do Salgueiro se explica muito porque era muito próximo aos meios universitários. Fernando Pamplona, que assumiu o carnaval da escola em 1960, era ligado à UNE, era um homem de esquerda e muito ligado à Universidade do Brasil, atual UFRJ. Muitos universitários entraram na escola, então ela acabou sendo bastante monitorada, com diversos infiltrados acompanhando suas atividades. Em 1969, o Império Serrano teve o samba censurado de maneira indireta, com “Herói da Liberdade”, em que a palavra “revolução” foi substituída por “evolução”. Enfim, são muitos casos de monitoramento e censura, e há diversos documentos que mostram escolas de samba sendo vigiadas no Rio de Janeiro. Em São Paulo, a repressão foi ainda mais violenta.

O SNI monitorando viagem do Salgueiro à Europa em 1975

Em 1974, a Unidos do Peruche teve a quadra invadida por policiais militares, que chegaram a metralhar o espaço e instrumentos, além de agredir integrantes, inclusive gestantes. Um mestre de bateria do Vai-Vai, conhecido como Pato Nágua, também acabou morto pela ditadura. Há vários casos de sambistas presos e torturados nesse período.

No estudo realizado por Bruno, fica evidente que escolas como Caprichosos de Pilares, Unidos da Tijuca e Império Serrano foram algumas das que mais produziram sambas com críticas ao regime. Ele explica como essas agremiações se comportaram na avenida.

Bruno: O Império Serrano, em 1969, com “Herói da Liberdade”, não falava diretamente da ditadura, mas tratava da luta. E, segundo relatos orais, a escola sofreu problemas no dia do desfile, com aviões dando rasantes para atrapalhar a apresentação e soldados intimidando componentes. Outros carnavalescos passaram a criar enredos mais fantasiosos, mais lúdicos, para despistar a ditadura e não sofrer repressão direta.

Foi o caso de Joãozinho Trinta, na Beija-Flor, que era contra a ditadura e fazia parte do grupo de Fernando Pamplona. Ele desenvolveu enredos voltados à cultura negra, que abordavam resistência de forma indireta, sem confronto explícito com o regime. Já nos anos 1980, após a anistia, surgiram enredos mais críticos. Em 1980, Martinho da Vila, que já havia sido censurado em 1974 e 1978, compôs o samba “O sonho de um sonho”, que abordava prisão e tortura, sendo um dos primeiros a tratar diretamente do tema.

A partir de então, principalmente com Caprichosos de Pilares e São Clemente, cresceram as críticas ao legado da ditadura. Nos anos 1980, os enredos passaram a abordar questões sociais e econômicas, como inflação e desigualdade. A Caprichosos, em 1985, alcançou o quinto lugar, sua melhor colocação, e venceu o Estandarte de Ouro ao levar para a avenida o tema das Diretas Já, mesmo após a derrota da emenda Dante de Oliveira. Já a São Clemente apresentou enredos críticos sobre temas como trânsito, moradia, saúde e menores abandonados, consolidando-se como uma das escolas mais politizadas do período.

 

SNI com relatório sobre o desfile da Unidos da Tijuca de 1981 com suposta infiltração comunista no enredo sobre críticas às multinacionais

Com o fim do regime militar e a Constituição de 1988, as escolas de samba seguiram abordando temas sociais relevantes. Bruno analisa esse contexto.

Bruno: Havia uma demanda social muito forte, principalmente em torno da Constituição de 1988. As escolas continuaram engajadas nessas pautas. Existe uma frase da Maria Augusta Carneiro da Cunha que diz que a cultura absorve muito do que está acontecendo na sociedade, e era exatamente isso que ocorria. As escolas sofreram muito durante a ditadura, não apenas com a censura, mas também com a inflação, que elevou os custos das fantasias, da produção dos desfiles e até dos discos das escolas de samba.

Houve um aumento muito grande nos custos, e muitas escolas sobreviveram graças ao apoio de patronos ligados ao jogo do bicho. Por isso, nos anos 1980 e 1990, as escolas mais vitoriosas eram, em geral, aquelas com esse tipo de financiamento.

Em 2026, a Acadêmicos de Niterói, recém-promovida ao Grupo Especial, apresentou um desfile sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concorre à reeleição. Bruno analisa esse movimento.

Bruno: O novo movimento mais politizado das escolas surge principalmente a partir de 2016, com o avanço de um cenário mais conservador no Rio de Janeiro. Isso influenciou diretamente os artistas do carnaval, que são, em grande parte, herdeiros da geração dos anos 1980 e 1990. São profissionais com forte ligação com universidades e espaços de debate, o que se reflete nos enredos.

Isso pode ser visto em desfiles como o da Mangueira, em 2019, e o do Paraíso do Tuiuti, em 2018, que abordou questões políticas contemporâneas. As escolas perceberam que esse tipo de abordagem atende a uma demanda social.

Por fim, Bruno comenta o cenário atual do Rio de Janeiro, com a mudança na prefeitura e a possível ampliação do número de escolas no Grupo Especial, além de explicar a origem de sua pesquisa.

Bruno: O meu interesse surgiu a partir da falta de estudos mais específicos sobre o tema. Ainda existem poucos trabalhos, e eles não dão conta da quantidade de casos existentes.

Junto com meu orientador, o professor Pedro Henrique Pedreira Campos, que ganhou o Prêmio Jabuti em 2014 com o livro “Estranhas Catedrais”, percebemos que havia um campo importante a ser explorado. A partir disso, avancei na pesquisa e identifiquei diversas histórias ainda pouco conhecidas.

Sobre a possibilidade de aumento para 15 escolas no Grupo Especial, acredito que isso deve acontecer, mas não por convite, e sim pelo acesso das escolas melhor colocadas. Há uma demanda do público por mais desfiles, e a ampliação pode gerar mais recursos, mais patrocínio e maior impacto no turismo.

 

Estudo de Bruno: https://periodicos.ufes.br/agora/article/view/47503/34470

Bruno dando aula – Foto: Arquivo pessoal

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