Foto: João Moura e Amanda Aguiar
Em entrevista exclusiva ao site do MyNews, a atriz conta sua trajetória até chegar as telonas e nos filmes mais importantes e premiados no Brasil dos últimos anos
A atriz Isadora Ruppert é daqueles casos que podemos citar como alguém que está sempre no lugar certo, na hora exata. Ela faz parte do elenco de Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, e também participa de O Agente Secreto, no papel da personagem Daniela. O longa venceu, em janeiro deste ano, o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme em Língua Não Inglesa. Ao MyNews, falou com exclusividade sobre sua trajetória até chegar às telonas.
Isadora: Comecei a fazer teatro muito cedo, mas foi à adolescência que decidi que queria seguir a carreira de atriz profissionalmente. A minha carreira começou no Teatro O Tablado, onde participei de diversas montagens teatrais e, a partir daí, oportunidades começaram a aparecer. O “Ainda Estou Aqui” rolou por conta de uma chamada aberta que eles fizeram lá no Tablado, e eu mandei o meu material. Já “O Agente Secreto” descobri que estava rolando uma chamada de casting no início de 2024, quando eu estava em Recife para aproveitar o carnaval. Quando retornei para o Rio, eu decidi mandar um e-mail para a produção expressando o meu desejo de fazer parte do filme, e eles me responderam perguntando se eu queria fazer um teste. Mandei o teste e fui aprovada. Foi um momento muito feliz e importante, porque foi sobre acreditar em mim e acreditar no sonho.
Com a vitória no Globo de Ouro, O Agente Secreto aumentou as expectativas e projeções na disputa do Oscar, que acontece em março. Além da vitória na categoria de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, o ator Wagner Moura levou o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama. Isadora acredita em mais conquistas.
Isadora: Acho que agora não tem como negar que as expectativas são grandes, o que está acontecendo é histórico. Sinto que vamos chegar até o Oscar e arrematar mais uma estatueta.
Em O Agente Secreto, Isadora interpreta Daniela, uma personagem que estuda temas importantes e relevantes do Brasil, mas exerce uma profissão ainda pouco comentada e valorizada no país. Ela detalha a importância do papel e a mensagem que o filme transmite sobre preservação da memória ou ausência dela. E revelou que enquanto estava nas filmagens visitava o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.
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Isadora: O filme levanta questões fundamentais e extremamente relevantes para a nossa sociedade, sobretudo quando pensamos nos processos de construção social e política de um país. Cada espectador sai da experiência com uma leitura própria, singular. Sinto que a ideia de uma “mensagem” não é nada fechado ou imposto pelo filme, ela vai se construir de forma íntima e pessoal em quem assiste. Cada pessoa será atravessada pela experiência do filme de um modo diferente. Não é uma obra que pretende oferecer respostas diretas, mas um filme que provoca reflexões profundas ao tocar em temas centrais e urgentes.
E sim, um país que não compreende o que aconteceu no seu passado, que não reconhece seus traumas e suas feridas abertas, não consegue elucidar e perceber os erros cometidos. E, inevitavelmente, tende a repeti-los no presente e no futuro. Infelizmente, vimos isso acontecer muito recentemente.
Esse trabalho de estudar o passado, de ser uma espécie de guardião da memória, como podemos chamar historiadores, arquivistas e todas as pessoas que se dedicam a preservar a história é uma profissão de importância fundamental.
Houve uma coincidência muito interessante: na época em que recebi o teste, eu estava indo ao Arquivo Nacional, aqui no Rio de Janeiro, quase todos os dias, porque estava fazendo uma pesquisa profunda sobre a vinda da minha família da Polônia para o Brasil. Acabei usando muito dessa vivência com os arquivistas e com os próprios arquivos para realizar o teste e construir a minha personagem.

Isadora no Festival de Cannes — Foto: João Moura e Amanda Aguiar
Sobre a troca com Kleber Mendonça Filho, diretor de O Agente Secreto, e com Laura Lufési, atriz com quem mais contracena, Isadora destaca a parceria.
Isadora: Trabalhar com Kleber foi uma experiência indescritível, um sonho mesmo. Ele é uma pessoa muito afetuosa, generosa e querida. Ele te escuta, ouve suas propostas e te conduz de maneira atenciosa. Laura também é uma atriz incrível de se contracenar.
O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui, que conta a história da família de Rubens Paiva e da luta de Eunice Paiva, são filmes ambientados no período da Ditadura Militar no Brasil. Ambos chegaram aos cinemas em um momento em que o país julgava e prendia militares envolvidos na tentativa de golpe de Estado. Isadora fala sobre a importância desse tipo de conteúdo atualmente e acompanha a opinião de Wagner Moura, que afirmou no Globo de Ouro que a tendência é vermos mais filmes com essa temática.
Isadora: Acredito ser fundamental falar sobre temas que ainda não cicatrizaram e cujos machucados seguem visíveis na nossa sociedade até hoje. Ao mesmo tempo, sinto que estamos vivendo um momento muito especial do cinema brasileiro. Vimos O Último Azul ser premiado em Berlim também. Enfim, atravessamos um período de grande efervescência criativa.
Viemos de um período de pandemia e de um governo que não apoiava a nossa cultura e, de certa forma, o nosso cinema também está ressurgindo. É um momento muito importante. E justamente por isso, é essencial falar daquilo que ainda dói, daquilo que ainda não cicatrizou. Muitas vezes evitamos tocar na ferida porque machuca, mas é preciso permitir que ela cicatrize, para a gente poder ver a cicatriz, lembrar do que aconteceu e, assim, não se machucar de novo.
A ditadura é um acontecimento de um passado muito recente. Existem, sim, obras que abordam esse período, mas acredito que ainda é fundamental continuar falando sobre o tema, para podermos letrar e educar a nossa sociedade. É essencial que as futuras gerações saibam o que aconteceu, para que essa memória não se perca e para que os erros não se repitam.
Isadora: Coisas ótimas estão por vir, eu tenho certeza. Atualmente, estou em cartaz no Teatro Laura Alvim, com a minha companhia, com o espetáculo Dia de Jogo. Também participei da série BR70, que estreia ainda este ano. Estou muito feliz e com muita esperança no que vem pela frente. Espero que muitos trabalhos ainda aconteçam e que eu possa continuar em movimento, criando e trabalhando, porque é isso que me move. Amo o que eu faço.
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