Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Datafolha
Juros altos, polarização intacta ou falta de coragem? Como a aposta em um modelo econômico esquizofrênico ressuscitou a ameaça que Lula prometeu exorcizar nas urnas de 2022
A maior promessa de Luiz Inácio Lula da Silva para conseguir costurar a frente ampla de 2022, que o levou de volta à rampa do Planalto, foi afastar a ameaça da extrema direita, a sombra fascista, personalizada na figura de Jair Bolsonaro. Vendeu-se ao eleitor, de centro e direita, a ideia de que a vitória nas urnas seria o exorcismo definitivo para pacificar o país. Pois bem, chega-se a 2026 com o bolsonarismo nos calcanhares do governo, como atesta o incômodo Datafolha divulgado neste sábado.
Flávio se consolida, ganha espaço e empata com Lula no 2º turno
Diante da pesquisa, o Palácio se olha no espelho e a realidade cobra a conta. O que deu errado? Por que Lula não conseguiu cumprir sua promessa de unir a nação?
As perguntas se impõem e não aceitam respostas fáceis. Foram os juros que não caíram e, na verdade, subiram? Foi a polarização que permaneceu forte, surda aos discursos institucionais? Ou foi o modelo econômico que se esgotou e o presidente não teve coragem de fazer ajustes nem para um lado, nem para o outro?
A resposta parece morar na paralisia de um governo que passou todo o mandato em crise de identidade. O Planalto se debateu, do primeiro ao último dia, entre o modelo herdado que reverencia o arcabouço fiscal e a velha vontade populista da gastança sem medir consequências.
O capítulo mais recente dessa esquizofrenia foi elevar o teto da isenção do Imposto de Renda. Vendida nas cartilhas oficiais como um alívio para o trabalhador, a medida, na prática, sabota de vez o combalido arcabouço fiscal e passa longe de beneficiar as classes menos favorecidas. É, sem meias palavras, uma cartada eleitoreira focada em fisgar o voto da classe média, à custa de implodir a âncora que segurava as contas públicas. Até agora não mostrou resultados, a julgar pelo último Datafolha.
Faltou combinar com a realidade. O grande drama de Lula foi tentar governar o Brasil de 2023 com a cartilha de 2003. Quando pegou o país neste terceiro mandato, encontrou um cenário interna e externamente muito mais hostil do que aquele que herdou de Fernando Henrique Cardoso. Não pôde contar com os ventos favoráveis do milagre do crescimento chinês, nem encontrou a “casa arrumada” deixada por FHC, com contas fiscais organizadas e estabilidade monetária consolidada.
Foram exatamente aqueles trunfos do passado que permitiram a Lula, lá atrás, surfar na bonança e promover uma inclusão social jamais vista desde a redemocratização. Sem a mágica das commodities e preso na própria covardia de escolher um rumo econômico claro, o milagre não se repetiu.
O Datafolha deste fim de semana não é apenas um retrato do momento; é o atestado de que a frente ampla de 2022 serviu para evitar um abismo, mas o governo esqueceu de construir a ponte. E em política, quando o governante fica parado no meio do caminho, a oposição o atropela.