flavio bolsonaro
Eleições
Ao abandonar o figurino moderado, Flávio Bolsonaro ajudou a reunir em torno de Lula eleitores que não compartilham do petismo, mas reconhecem o risco do radicalismo
Pela segunda vez consecutiva, uma maioria da sociedade brasileira disse nas urnas que rejeita o autoritarismo. A vitória de Lula permite essa leitura: assim como em 2022, o presidente conseguiu reunir votos que ultrapassam as fronteiras do PT e de sua própria popularidade. Há nessa composição gente que não gosta dele, critica seu governo e dispensa qualquer simpatia pelo partido. Uma parcela desse eleitorado encontrou razões para votar em Lula sem precisar abandonar nenhuma dessas críticas.
Nos últimos dias do segundo turno, essa convergência ganhou a forma de uma frente ampla, ainda que sem ata, fotografia oficial ou acordo entre dirigentes. Uma frente construída na decisão individual de quem percebeu que a escolha envolvia também os limites da convivência democrática. O voto veio acompanhado de ressalvas, cobranças e até contrariedade. Democracias dependem dessa capacidade de reconhecer prioridades: ninguém precisa virar petista para votar em Lula, nem oferecer ao presidente um cheque em branco para recusar o projeto de seu adversário.
Flávio Bolsonaro contribuiu para tornar essa escolha mais clara. Saiu do primeiro turno à frente e pareceu confundir vantagem com vitória assegurada. (tse.jus.br) O salto alto foi deixando pelo caminho o figurino de moderado. Conforme avançou a disputa, apareceu com mais nitidez o radicalismo bolsonarista que a embalagem eleitoral tentava suavizar. O sobrenome, afinal, carregava um projeto político — e o candidato passou a dar menos razões para acreditar que pretendia se afastar dele.
A aproximação com Pablo Marçal compôs esse movimento. Ao abrir espaço para o coach e sua política de provocação permanente, Flávio reforçou justamente o ambiente que precisava superar para conquistar eleitores além de sua base. A agressividade pode animar os já convertidos, render cortes e produzir barulho nas redes. Mas uma eleição apertada exige convencer também quem desconfia do espetáculo. Para esse eleitor, a desenvoltura do candidato com o extremismo ajudou a desfazer a promessa de moderação.
Lula terá de compreender a natureza dessa vitória. A frente que o elegeu abriga divergências profundas e continuará a cobrar resultados, responsabilidade e respeito às instituições. Sua força está justamente nessa pluralidade. O autoritarismo segue com apoio expressivo e sua derrota eleitoral exige vigilância, não complacência. Mas o recado das urnas merece ser ouvido: pela segunda vez, brasileiros que discordam sobre quase tudo encontraram uma razão decisiva para votar juntos. Cabe ao presidente governar à altura dessa responsabilidade.