O casamento do Master com a política Escândalos financeiros

O casamento do Master com a política

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As investigações ainda precisam responder não apenas o que Vorcaro fez. Mas também o que Lima sabia, o que negociou e com quem ainda fala

Há um episódio que a história brasileira gravou como símbolo do fim de uma era: o Baile da Ilha Fiscal, novembro de 1889, dias antes da Proclamação da República. Uma festa esplêndida, com o Império ainda de pé. A frivolidade e o poder dançando juntos enquanto o chão tremia. Na Ilha dos Frades, cento e trinta e cinco anos depois, havia também uma ilha, havia poder e havia festa, mas a diferença era crucial: o esquema que financiou tanta exuberância demorou quase dois anos para cair. Celebrava-se o auge. Os negócios iam de vento em popa, navegando pelas folhas salariais e pelos fundos de previdência de servidores públicos espalhados pelo país. 

Era 20 de janeiro de 2024, a festa de casamento de Augusto Lima e Flavia Peres.  A celebração de uma aliança que ia muito além do amor. Porque aquele casamento era, em muitos sentidos, uma fusão de ativos. Augusto Lima era o arquiteto político do esquema que daria sustentação ao Banco Master, o homem das conexões, das portas abertas, do trânsito suave entre PT e PP, entre Bahia e Brasília. Flávia o complementava com precisão: ex-ministra de Bolsonaro, ex-deputada federal, com muitas conexões em Brasília.

Convite para o casamento de Augusto Lima e Flavia Peres em 2024

Convite para o casamento de Augusto Lima e Flavia Peres em 2024

 

Dois catamarãs cortavam as águas da Baía de Todos os Santos com centenas de convidados selecionados. Os celulares foram recolhidos e lacrados na chegada. Na lista estavam Jaques Wagner, líder do governo no Senado, e nomes que iam de Rui Costa, então ministro da Casa Civil de Lula, a ACM Neto, de Gilberto Kassab a João Roma, ex-ministro de Jair Bolsonaro, um leque que atravessava qualquer fronteira ideológica. Saulo, Léo Santana e Xande de Pilares comandaram os shows, champanhe corria solto, e o ministro João Roma pegou o saxofone para tocar ao lado de Bell Marques, do Chiclete com Banana.

Dois anos depois, o noivo está com tornozeleira. Enquanto Daniel Vorcaro ocupa o centro do noticiário, um nome permanece surpreendentemente nas sombras: Augusto Ferreira Lima, o “Guga”. Preso por apenas 11 dias na primeira fase da Operação Compliance Zero e libertado pelo TRF-1, Lima assiste ao desdobramento do caso sem holofotes, sem delação premiada anunciada e, ao que tudo indica, com uma estratégia deliberada de apagamento. Seria um erro grave confundir invisibilidade com irrelevância.

A história do Master não começa em São Paulo, com Vorcaro e seu estilo exibicionista de novo rico. Ela começa na Bahia, com Lima. Foi durante o governo de Rui Costa que Lima estruturou o CredCesta, cartão de crédito consignado voltado a servidores públicos estaduais, transformando um simples benefício alimentar numa poderosa plataforma de captura política e financeira. Decretos estaduais restringiram a portabilidade dos contratos, garantindo exclusividade ao grupo na prática. Servidores foram ao Judiciário. O Ministério Público questionou a concentração. Vorcaro com seu Banco Master foi peça central na engrenagem. O negócio prosperou. 

Foi Lima quem abriu as portas para Vorcaro. O advogado Daniel Monteiro já assessorava Lima quando levou a Vorcaro a proposta de compra do CredCesta, em 2018. Vorcaro pagou R$ 22 milhões por 50% da PKL One, empresa de Lima. O advogado e Lima já tinham bom trânsito no círculo de poder baiano, e foram eles que abriram esse círculo para Vorcaro. 

Quando comprou o Banco Máxima, que já estava enrolado com créditos consignados e prestes a ser liquidado pelo Banco Central, Vorcaro já farejava um esquema que poderia lhe render lucros generosos. Lima ampliou o alcance. 

Monteiro tornou-se advogado de confiança de Lima desde o começo, cuidou do jurídico do CredCesta e passou a estruturar fundos, empresas e operações para Vorcaro. Era o elo entre os dois sócios, o cimento da estrutura. Foi preso em abril de 2026. Enquanto Vorcaro aparece como o banqueiro flamboyant que festejava e colecionava conexões de Brasília ao Nordeste, Lima operava em silêncio. De perfil mais comedido, busca se distanciar da gestão do ex-sócio. Mas o silêncio não apaga o rastro: as apurações apontam repasses ilegais com malas de dinheiro e empresas de sócios ocultos.

Há um detalhe que revela muito sobre as ambições de Lima: ele não ficou. Saiu do Master antes da implosão, levou consigo o CredCesta e o Banco Voiter e deu origem ao Banco Pleno. O Banco Central autorizou Lima a assumir o controle do Pleno em apenas 45 dias, quando o grupo já enfrentava denúncias de fraudes em carteiras de crédito vendidas a outros bancos. Quem obtém aprovação regulatória expressa em meio a uma investigação criminal não é personagem secundário.

No teatro do escândalo, os holofotes seguem o mais barulhento. Vorcaro é exibido, ostensivo, fácil de construir como vilão. E definitivamente não é inocente. Lima é discreto, estratégico, difícil de enquadrar. Mas é justamente nas sombras que se montam os esquemas mais duradouros. Quem construiu o tabuleiro nem sempre é quem move as peças em público.

A pergunta que as investigações ainda precisam responder não é apenas o que Vorcaro fez. É o que Lima sabia, o que Lima negociou e, sobretudo, com quem Lima ainda fala.