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AGRO
Na homenagem a Guilherme Piai e Maurílio Biagi Filho, duas cenas muito diferentes expuseram não apenas dois estilos de liderança, mas também o abismo entre o país que fomos capazes de construir e o país que estamos deixando se perder
Há momentos em que a gente percebe que não está apenas assistindo a uma cerimônia, mas a um retrato do país. Ontem foi assim na Assembleia Legislativa de São Paulo, a Alesp. Em mais de duas horas, numa homenagem a dois personagens do agro brasileiro, vi condensadas duas maneiras completamente diferentes de olhar o Brasil.
O evento reunia lideranças do setor para homenagear Guilherme Piai, ex-secretário de Agricultura do governo Tarcísio, e Maurilio Biagi Filho, presidente do grupo Maubisa, protagonista de uma das trajetórias mais profundas e estruturantes do agro brasileiro, marcada pela participação decisiva em momentos como a modernização do setor sucroenergético e a construção do Proálcool.
Até aí, tudo poderia ser apenas mais uma solenidade protocolar, dessas em que discursos se sucedem sem deixar marca. Não foi.
O contraste entre as duas partes da cerimônia acabou revelando algo maior do que as biografias celebradas. Revelou o tipo de liderança que estamos formando hoje e o tipo de liderança que já fomos capazes de produzir no passado.
Na primeira homenagem, o tom era conhecido: referências a Deus, à família, à luta contra a esquerda, à necessidade de resistência. Um discurso que fala para dentro da própria bolha, que reafirma identidades, que conforta os iguais e faz campanha política para o campo bolsonarista. Não chega a ser exatamente político é mais tribal. E, como todo discurso tribal, tem pouca utilidade para quem precisa governar um país complexo.
Foi na segunda parte, dedicada a Maurilio Biagi Filho, que o ambiente mudou completamente de densidade.
Ali, o que se viu não foi apenas uma homenagem. Foi uma aula de história.
Os quatro convidados chamados a falar, cada um com apenas três minutos, fizeram algo raro: usaram o pouco tempo com uma produtividade impressionante. Não desperdiçaram palavras. Localizaram o homenageado na história. Deram contexto, substância, densidade. E, sobretudo, se complementaram.
Ao reconstruir passagens como a Revolta de Guariba e a relevância do Proálcool, mostraram que não estavam apenas falando de um homem ou de um setor, mas de momentos decisivos da formação brasileira recente. Falaram de trabalho, de conflito social, de modernização, de energia, de desenvolvimento. Falaram do país concreto.
Dani Rogatis, amiga de Maurílio que tem o ajudado na escrita de seu livro, abre o ciclo de 4 discursos dando o contorno da personalidade conciliadora e inovadora de Maurílio, cita Guariba e o foco em energia renovável numa época em que não se falava no tema. O filho Marcelo destacou o compromisso do pai com o etanol como fonte de energia renovável. Ele deu régua e compasso para as falas seguintes de Rubens Ometto, controlador do grupo Cosan, e Plinio Mário Nastari, presidente do grupo Datagro. Eles então focaram no desafio energético passado, atual e futuro. OBrasil já enfrentou crises energéticas graves e foi capaz de responder com visão estratégica. Num momento em que o mundo volta a discutir segurança energética por causa do fechamento do Estreito de Ormuz, ouvir ali referências ao Proálcool não soou nostálgico. Soou atual. Soou urgente. O Brasil já soube transformar vulnerabilidade em projeto nacional. Já teve capacidade de planejar. A pergunta que ficou no ar foi inevitável: ainda temos?
Mas nada foi tão marcante quanto a fala do próprio Maurilio.
Quando chegou sua vez, ele rompeu a estética previsível desses eventos protocolares. Em vez de começar com agradecimentos formais, abriu com um vídeo curto, provavelmente retirado do TikTok, em que um anônimo fazia um discurso de ódio contra o governo de alta octanagem. Era o retrato bruto do tempo em que vivemos, um tempo em que a agressão virou linguagem corrente, em que a brutalidade ganhou naturalidade, em que o ressentimento circula com a banalidade de um vídeo qualquer no celular.
Na sequência, Maurilio fez um gesto simples e profundo.
Chamou Roberto Rodrigues, que estava na plateia, liderança histórica do agro brasileiro, ex-ministro da Agricultura no governo Lula, e pediu que ele se levantasse. Depois chamou Maria Zeferina, cortadora de cana, campeã da São Silvestre, símbolo de uma trajetória construída pelo trabalho duro. Pediu que os dois caminhassem um em direção ao outro e se abraçassem.
Foram aplaudidos de pé.
A cena deixou um rastro de emoção no auditório. E não porque fosse ensaiada para comover, mas justamente porque não havia truque algum ali. Era política no melhor sentido da palavra. Era a encenação de uma ideia de país. Um país em que trajetórias diferentes não se anulam; se encontram. Um país em que origem social, liderança, trabalho e poder não precisam se odiar para existir. Um país em que conciliação não é fraqueza, mas inteligência histórica.
Saí dali com a sensação de que Maurilio tinha entendido tudo.
Entendido que um dos grandes problemas do Brasil hoje é o ódio político que nos separa e nos embrutece. Entendido também que o outro grande problema, cada vez mais presente, é o energético e que nenhum deles será resolvido com grito, fanatismo ou palavras de ordem, mas com memória, diálogo e capacidade de construir.
Que os deuses da política permitam que aquela cena não se perca como tantas outras se perdem. Que o abraço entre Roberto Rodrigues e Maria Zeferina não fique apenas na memória dos que estavam ali, mas se enraíze como ensinamento para os muitos jovens políticos e empresários que assistiram àquela noite. O Brasil precisa que esses gestos se multipliquem, que circulem, que sejam compartilhados com a mesma velocidade com que hoje se espalha o ódio. Que, em vez de alimentar trincheiras, ajudem a reconstruir pontes. Porque nenhum país se sustenta por muito tempo quando desaprende a conversar consigo mesmo.