Sustentabilidade
Projetos de recuperação ambiental aceleram crescimento de espécies e reforçam a resiliência da floresta onde vivem 72% dos brasileiros
Uma iniciativa de restauração da Mata Atlântica na Bahia mostrou que é possível acelerar a recuperação do bioma e torná-lo mais resistente às mudanças climáticas. O projeto reduziu em até 50% o tempo de crescimento das espécies por meio do mapeamento genético de árvores nativas.
O trabalho, desenvolvido pela empresa brasileira Symbiosis, começou em 2014 com a coleta e análise genética para identificar indivíduos mais adaptados às condições ambientais. A estratégia já permitiu recuperar cerca de mil hectares com o plantio de 45 espécies nativas, como jacarandá, jequitibá, ipês e angicos.
Segundo a supervisora de pesquisa e desenvolvimento da empresa, Laura Guimarães, a seleção genética ajuda a formar florestas mais resistentes e capazes de enfrentar eventos climáticos extremos. Muitas das árvores utilizadas descendem de matrizes centenárias que sobreviveram ao histórico processo de exploração do bioma.
Além da escolha das espécies, o projeto priorizou a diversidade genética, considerada essencial para garantir estabilidade ecológica e reduzir riscos ambientais.
A Mata Atlântica já ocupou cerca de 130 milhões de hectares do território brasileiro. Hoje, restam aproximadamente 24% da cobertura original, sendo apenas 12,4% de florestas maduras e bem preservadas, distribuídas em fragmentos em 17 estados.
Para o gerente de Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica, Rafael Bitante Fernandes, a fragmentação reduz a diversidade genética das espécies e enfraquece serviços ambientais essenciais, como disponibilidade de água, qualidade do ar e equilíbrio climático.
Segundo ele, a perda de biodiversidade contribui para o aumento de eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes e escassez hídrica.
O avanço da degradação ambiental tem levado empresas privadas a tratar a restauração florestal como estratégia econômica. Modelos de manejo sustentável permitem gerar renda com produtos madeireiros e não madeireiros sem realizar o corte total da floresta, mantendo o sequestro de carbono e a conservação ambiental.
Projetos também vêm sendo adotados por empresas do setor energético para proteger mananciais que abastecem hidrelétricas, reduzindo riscos operacionais em períodos de seca ou chuvas intensas.
O movimento conjunto entre empresas, governos e organizações sociais deu origem ao Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, criado em 2009 com a meta de recuperar 15 milhões de hectares até 2050.
Entre 1993 e 2022, cerca de 4,9 milhões de hectares entraram em regeneração natural, segundo estudo da Fundação SOS Mata Atlântica. Apesar dos avanços, especialistas defendem ampliação de políticas públicas e incentivos econômicos, já que cerca de 90% do bioma está em áreas privadas.
A restauração também pode gerar impacto social relevante: estima-se a criação de um emprego a cada dois campos de futebol recuperados, associando conservação ambiental, desenvolvimento sustentável e geração de renda.