Mais de 40% das mortes por câncer no Brasil poderiam ser evitadas Healthtechs unem tecnologia e saúde em prol do consumidor. Foto: Reprodução (PixaBay) Alerta à saúde

Mais de 40% das mortes por câncer no Brasil poderiam ser evitadas

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Pesquisa internacional indica que prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento têm potencial para reduzir significativamente a mortalidade pela doença

Um levantamento internacional publicado na revista científica The Lancet aponta que quatro em cada dez mortes por câncer no Brasil poderiam ser evitadas. O estudo indica que políticas eficazes de prevenção, identificação precoce da doença e ampliação do acesso ao tratamento seriam capazes de diminuir de forma expressiva o número de óbitos.

De acordo com os pesquisadores, entre os casos de câncer diagnosticados no país em 2022, cerca de 253,2 mil pessoas devem morrer em até cinco anos após a confirmação da doença. Desse total, aproximadamente 109,4 mil mortes não precisariam acontecer.

O artigo integra a edição de março da publicação médica e foi desenvolvido por um grupo de 12 cientistas, sendo a maioria vinculada à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS) sediado na França.

Onde estão as mortes evitáveis

O estudo separa as mortes consideradas evitáveis em duas categorias.

Uma parte está relacionada à prevenção, quando a doença poderia ter sido impedida antes mesmo de surgir, cenário que representa 65,2 mil casos no Brasil.

A outra parcela envolve situações em que o câncer já foi desenvolvido, mas o diagnóstico tardio ou a falta de tratamento adequado reduziram as chances de sobrevivência, totalizando 44,2 mil mortes potencialmente evitáveis.

Cenário global

A análise reuniu dados sobre 35 tipos diferentes de câncer em 185 países, permitindo comparar realidades sanitárias ao redor do mundo.

Globalmente, o estudo estima que 47,6% das mortes por câncer poderiam ser evitadas. Em números absolutos, isso representa quase 4,5 milhões de vidas, dentro de um total de 9,4 milhões de mortes registradas pela doença.

Segundo os autores, cerca de um terço dos óbitos está associado a fatores preveníveis, enquanto outra parcela significativa poderia ser reduzida com diagnóstico mais rápido e tratamento eficaz.

Entre os principais fatores de risco identificados estão:

  • uso de tabaco;
  • consumo frequente de álcool;
  • obesidade e excesso de peso;
  • exposição intensa à radiação ultravioleta;
  • infecções ligadas ao desenvolvimento de câncer, como HPV, hepatites virais e a bactéria Helicobacter pylori.

Desigualdades entre regiões

Os dados revelam diferenças importantes entre países e níveis de desenvolvimento.

Na região norte da Europa, por exemplo, menos de um terço das mortes por câncer é considerada evitável. A Suécia apresenta o melhor desempenho, seguida por Noruega e Finlândia.

No extremo oposto estão países africanos, onde a ausência de políticas de prevenção e o acesso limitado à saúde elevam drasticamente os índices. Em Serra Leoa, mais de 70% das mortes poderiam ser evitadas.

Os menores percentuais aparecem em:

  • Austrália e Nova Zelândia (35,5%);
  • Norte da Europa (37,4%);
  • América do Norte (38,2%).

Já os maiores índices concentram-se em regiões da África, com taxas superiores a 60%.

Na América do Sul, o percentual médio de mortes evitáveis chega a 43,8%, praticamente o mesmo observado no Brasil.

Impacto do desenvolvimento humano

Quando analisados segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), os resultados reforçam a influência das condições sociais e econômicas sobre a mortalidade por câncer.

Países com baixo IDH apresentam 60,8% de mortes evitáveis, número que diminui progressivamente conforme aumentam os indicadores de renda, educação e acesso à saúde. O Brasil está classificado no grupo de países com IDH alto.

Um exemplo claro dessa desigualdade aparece no câncer de colo do útero. Em países menos desenvolvidos, ele lidera o ranking de mortes evitáveis, enquanto nas nações de IDH alto e muito alto já não figura entre os principais tipos da doença.

A diferença também aparece nas taxas de mortalidade: países com IDH muito alto registram cerca de 3,3 mortes a cada 100 mil mulheres, enquanto nos de baixo IDH o índice ultrapassa 16 mortes por 100 mil.

Tipos de câncer mais associados aos óbitos evitáveis

O estudo aponta que quase 60% das mortes evitáveis estão concentradas em cinco tipos de câncer:

  • pulmão;
  • fígado;
  • estômago;
  • colorretal;
  • colo do útero.

O câncer de pulmão lidera entre os casos preveníveis, com 1,1 milhão de mortes, reflexo principalmente do impacto do tabagismo.

Já o câncer de mama aparece como o principal exemplo de mortes potencialmente evitáveis por meio de diagnóstico precoce e tratamento adequado, somando cerca de 200 mil casos em que a sobrevivência seria possível.

Estratégias para reduzir a mortalidade

Entre as medidas recomendadas pelos pesquisadores estão políticas públicas voltadas à redução do tabagismo e do consumo de álcool, além de ações para combater o excesso de peso, considerado um desafio crescente para a saúde global.

O estudo também defende:

  • controle da publicidade e rotulagem de alimentos não saudáveis;
  • aumento de impostos sobre produtos prejudiciais à saúde;
  • ampliação da vacinação contra o HPV;
  • fortalecimento de programas de rastreamento e diagnóstico precoce.

No caso do câncer de mama, os especialistas reforçam metas estabelecidas pela OMS, como diagnosticar ao menos 60% dos casos em estágios iniciais e garantir que mais de 80% dos pacientes recebam confirmação diagnóstica em até 60 dias após a primeira consulta médica.

Os autores concluem que a redução das mortes por câncer depende de esforços globais para diminuir desigualdades no acesso à prevenção e ao tratamento, especialmente em países com menor desenvolvimento.

No Brasil, campanhas de conscientização e programas de diagnóstico precoce são promovidos regularmente pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca).

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