Foto: © Vladimir Platonow/Agência Brasil
Autoridades cariocas afirmam que atualmente as drogas são somente 11% do lucro de criminosos, mas apreensões aumentam em meio mudança de discurso
No Rio de Janeiro, as últimas entrevistas dos secretários de Segurança e de pessoas que atuam na área chamam a atenção para uma mesma fala recorrente: “o tráfico de drogas hoje representa apenas 11% da renda dos criminosos no estado”. A declaração soa como se a luta contra esse tipo de crime estivesse em baixa ou até deixada de lado, embora a bandidagem e os grupos milicianos tenham ampliado seus focos de atuação, como postos de gasolina, venda de internet clandestina, gato de luz, televisão a cabo ilegal, entre outros.
Nitidamente, as drogas ainda seguem como prioridade das facções e nunca deixarão de ocupar espaço. Afinal, sempre que uma facção assume o controle de uma comunidade antes pertencente a uma rival, a primeira medida costuma ser a instalação de uma boca de fumo, muitas vezes mais de uma. Em geral, esses pontos contam com segurança armada e pessoas fortemente armadas para proteger o território.
Os próprios dados do estado mostram que, nos últimos anos, as apreensões de drogas aumentaram. As estatísticas se dividem em quatro categorias: apreensão de drogas, apreensão de drogas sem autor, tráfico de drogas e porte de drogas. Destas, apenas o porte de drogas apresentou queda entre 2024 e 2025.
Acumulado em 2025: 25.831
Acumulado em 2024: 23.930
Diferença acumulada: 1.901 (8%)
Acumulado em 2025: 4.846
Acumulado em 2024: 2.967
Diferença acumulada: 1.879 (63%)
Acumulado em 2025: 12.032
Acumulado em 2024: 10.752
Diferença acumulada: 1.280 (12%)
Acumulado em 2025: 9.276
Acumulado em 2024: 10.557
Diferença acumulada: -1.281 (-12%)
Como a droga chega ao Rio de Janeiro? Essa é uma pergunta recorrente desde meados da década de 1980, já que o estado não produz entorpecentes. A maioria vem da Colômbia e do Peru, por meio das fronteiras, e também, principalmente, pelos portos fluminenses. Em 2024, o RJTV 2, da TV Globo, mostrou na série Rotas que traficantes escondem drogas em veículos, armas e até brinquedos para burlar a fiscalização. E seja no Rio, ou nas cidades que são feitas as drogas e por onde passam, empresas de fachadas são utilizadas para enganar as autoridades.
O Rio de Janeiro conta com os seguintes portos: Porto do Rio de Janeiro, Porto de Itaguaí, Porto de Niterói e Porto de Angra dos Reis. Itaguaí chama mais atenção, afinal, aparece entre as 20 cidades mais violentas do país, segundo dados do Ipea divulgados há dois anos. Grande parte das drogas chega pelo porto da cidade. Em 2024, ocorreu ali a maior apreensão da história: uma tonelada de droga escondida em sacos de argamassa, que seguiria para Serra Leoa, na África. Na ocasião, o valor estimado girou em torno de R$ 300 milhões.
Niterói, por sua vez, cidade vizinha ao município do Rio, registrou aumento da criminalidade e da disputa por territórios nos últimos anos, já que concentra pontos estratégicos de saída para o mar. Já a chamada Zona Sudoeste também vive conflito: a maior facção do estado, o Comando Vermelho, assumiu o controle das principais regiões, restando apenas Rio das Pedras. São áreas que também chamam atenção pela possibilidade de transporte de drogas pelas vias aquáticas.
E quais são as drogas mais utilizadas e seus valores? Entre as principais estão a cocaína e a maconha, vendidas a preços que variam entre R$ 10 e R$ 50. O secretário de Segurança pode até ter razão ao afirmar que a população consome mais internet, água, gás e outros serviços do que drogas, mas permanece o questionamento sobre o motivo dessa aparente redução no discurso e no enfrentamento direto ao tráfico.
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