Arquivos cultura do assédio - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/cultura-do-assedio/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Wed, 20 Jan 2021 20:02:44 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 Joice Hasselmann: aprendi na prática que existe violência política de gênero no Brasil https://canalmynews.com.br/dialogos/joice-hasselmann-aprendi-na-pratica-que-existe-violencia-politica-de-genero-no-brasil/ Wed, 20 Jan 2021 20:02:44 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/joice-hasselmann-aprendi-na-pratica-que-existe-violencia-politica-de-genero-no-brasil/ Nós enfrentamos batalhas simplesmente porque somos mulheres

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Quando lembro dos ataques sujos que enfrentei — agora — até me dá vontade de rir. Mas, durante mais de um ano de um verdadeiro estupro moral tive mesmo vontade de chorar, reagir, atacar os que atacam sem piedade, revidar. Porca, gorda, traíra, vagabunda e piranha, foram apenas alguns dos ataques que li e ouvi na terra sem lei que virou as redes sociais. As montagens então eram surreais. Muitas chegaram aos telefones de meus filhos. Uma psicose real, num ambiente virtual, criada, coordenada e incentivada por uma milícia digital.

E atenção: essa milícia mata! Ela mata reputações, mata sonhos, mata esperanças, mata desejos, mata inocências…no entanto, mesmo com todo seu poder de fogo, não foi capaz de me matar.

Sim, eu sobrevivi. Passei por tudo, enfrentei sozinha a gangue, enfrentei a máquina mais poderosa do país — o Palácio do Planalto — e uma rede espalhada pelo Brasil composta por gente sem pudor, sem medo da lei, sem respeito a nada. E, para a tristeza e derrota deles, eu segui em frente. Mesmo machucada, com meu útero perdido, com dias de UTI depois da somatização dos ataques no meu corpo, segui em frente. Sigo em frente. E estou aqui, mais forte do que nunca. 

Aprendi na prática que o machismo existe, mas mais do que ele, existe uma violência política de gênero sem precedentes no Brasil. Não importa quem você seja, de onde venha, a violência está aí e quanto mais você conquista, mas intensos são os ataques. Como diria minha avó: “ninguém chuta cachorro morto”, mas os vivos sentem a dor.

Joice Hasselmann (PSL-SP)
A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), durante sessão na Câmara.
(Foto: Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados)

Muitos podem pensar que minha entrada para a política foi glamourosa, afinal fiz uma campanha bonita e barata, entrei para história como a mulher mais votada de todos os tempos da Câmara dos Deputados; ocupei a liderança do Governo no Congresso, já no primeiro ano de mandato e na sequência a liderança do meu partido. Mas, ao contrário do que muitos pensam, cada degrau que eu subia era enfrentando tiroteio de todos os lados, afinal muitos machões de plantão, a começar pelo Presidente da República e seus filhos néscios, se sentiam incomodados simplesmente por uma mulher fazer a diferença com independência, sem subserviência.

A minha história é só mais uma que se repete nas esferas de poder. Do pequeno poder ao macro poder. Mudam-se os personagens, mas o enredo é o mesmo. Nós enfrentamos batalhas simplesmente porque somos MULHERES. Nós enfrentamos agressões pelo peso que temos, pela roupa que usamos, pela cor e tamanho do cabelo, apenas porque somos MULHERES. Chega a ser ridículo. Na verdade é ridículo, mas é real. 

Tanto como deputada, quanto na carreira de jornalista, sempre fui combativa. Eu me fiz ser ouvida, mas para isso tive que falar mais alto e garantir o meu espaço. Mas por que nós, mulheres, precisamos falar alto para sermos ouvidas? Por que eu preciso primeiro “amedrontar” e mostrar mais força para só então ser respeitada? Há muitos porquês para essa realidade, mas nem um deles é minimamente admissível. 

Atualmente, no Brasil, as mulheres ocupam 13% do total das cadeiras do Senado e 15% na Câmara dos Deputados. Nas eleições de 2020, elegemos apenas 12% de prefeitas. Aliás, eleição recheada de ataques. 

O Instituto AzMina, em parceria com o centro de pesquisa em direito e tecnologia InternetLab e com o Instituto Update, realizou um levantamento para avaliar o fenômeno da violência e do discurso de ódio contra as mulheres no âmbito da disputa política. Foram cerca de 11 mil tuítes ofensivos. Eu ocupei a primeira posição do ranking, fui a mais atacada do país inteiro e por quê?? Simplesmente porque sou uma mulher que enfrentou as estruturas de poder e não se dobrou. 

Apesar do baixo número de mulheres nos cargos públicos, acredito que não é a intervenção do Estado, por meio de determinadas políticas, que resolverá o problema. A questão é muito mais profunda. Precisamos de uma mudança radical em nossa cultura e de mentalidade. Sozinhas, as políticas de estado não resolvem o problema no todo, e vemos isso em nosso dia a dia. As campanhas de difamação e ataques nas redes sociais são exemplos cristalinos. O buraco é muito mais embaixo.

Ao longo dos anos, os partidos e movimentos de esquerda se apropriaram das pautas relacionadas às mulheres. No entanto, quase 15 anos depois, as mulheres continuaram sofrendo com o machismo estúpido que está enraizado na nossa sociedade. Precisamos fazer mais. Precisamos nos unir. Precisamos deixar a ideologia de lado. Não é a esquerda ou a direita que tem que sequestrar a pauta feminina. Por entender que o excesso de ideologias só atrapalha, decidi criar com mulheres que ocupam espaços de poder em todo país, o “Movimento Feminino Brasileiro” onde todas são bem vindas, independente de suas ideologias. Aqui a pauta é a MULHER. 

Muitas podem me perguntar: mas por que a criação de um movimento de mulheres que reúne mulheres que já ocupam espaços de poder na área pública e privada? A resposta é muito simples. Nós que conseguimos ultrapassar tantas barreiras e chegar nesses espaços enfrentando caminhos pedregosos temos a obrigação de aplainar o caminho para aquelas que querem vir, que querem ocupar seus espaços e que não precisam passar por tudo o que passamos. O maior compromisso que temos é pavimentar os caminhos para as que chegarão. Eu dedicarei minha vida a isso. Venham, mulheres!


Quem é Joice Hasselmann

Joice Hasselmann, 42, é deputada federal pelo PSL-SP. Ex-líder do governo federal na Câmara, atualmente é Secretária de Comunicação da Câmara dos Deputados

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Isa Penna: os direitos das mulheres não têm ideologia, são universais https://canalmynews.com.br/dialogos/isa-penna-os-direitos-das-mulheres-nao-tem-ideologia-sao-universais/ Wed, 20 Jan 2021 19:59:50 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/isa-penna-os-direitos-das-mulheres-nao-tem-ideologia-sao-universais/ Um caso televisionado e explícito como o que sofri faz parte da cultura machista e de violação dos direitos das mulheres no país todo

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Meu nome é Isa Penna, sou advogada, e desde 2019 atuo como deputada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Antes disso já servi à população como assessora parlamentar e vereadora na cidade de São Paulo, quando fui alvo de assédio moral e sexual em meio ao exercício das minhas atividades, mas nada comparável a violência que viria sofrer em dezembro do ano passado. 

Ao final de todo ano as deputadas e deputados da Alesp se reúnem para votar o orçamento do Estado em sessões que muitas vezes se estendem por longas horas e até mesmo avançam a madrugada. Esse foi o caso da 65a Sessão Plenária Extraordinária que ocorreu no dia 16 de dezembro de 2020, em que ficamos no plenário até depois da meia-noite. Em meio à votação, eu estava debruçada na mesa diretora perguntando ao presidente da Câmara, Cauê Macris, sobre o cronograma de votação de outros projetos de lei quando senti que outro deputado começou a apalpar meu corpo por trás na altura dos meus seios.

Na hora minha reação foi repeli-lo imediatamente e avisar Macris, que presenciou a cena, que tal comportamento é inadmissível. Pouco tempo depois confirmei a gravidade do que havia ocorrido ao assistir a gravação da sessão disponível publicamente no YouTube. Fernando Cury, um deputado do Cidadania que eu desconhecia completamente, havia apalpado meu seio em meio à sessão plenária na frente do presidente da Câmara, e, ao que parece, o fez de forma intencional, dado que outro colega, momentos antes, tentou impedi-lo de se aproximar de mim.

A deputada estadual Isa Penna (PSOL-SP)
A deputada estadual Isa Penna (PSOL-SP), durante discurso na Alesp.
(Foto: Carol Jacob/Alesp)

No dia seguinte, ainda em choque por conta da situação, ingressei com uma representação no Conselho de Ética da Alesp e registrei um Boletim de Ocorrência eletrônico por ‘importunação sexual’, e na sexta-feira, 18, minhas advogadas de defesa, Mariana Serrano e Danyelle Galvão foram ao Ministério Público para que eu fosse ouvida.

Por conta de sua gravidade, o caso logo alcançou repercussão nacional e para que que pudesse ser julgado o quanto antes o Conselho de Ética da Alesp, prontamente obteve quórum para realizar sua abertura excepcionalmente no início de janeiro, período de recesso parlamentar. Três dos nove membros do Conselho requisitaram a abertura dos trabalhos em caráter urgente dos trabalhos: os deputados Emídio de Souza, Prof. Carlos Giannazi e Campos Machado, sendo que Giannazi cedeu seu lugar para a deputada Érica Malunguinho, dado que havia apenas uma mulher no Conselho, a deputada Maria Lúcia Amary, que também o preside.

Contudo, no dia 28 de dezembro, a Procuradoria da Alesp emitiu um parecer informando que o Conselho de Ética não poderia se reunir em janeiro para julgar meu caso. Isso só poderá ocorrer se a maioria absoluta dos deputados e deputadas da Casa, bem como seu atual presidente, Cauê Macris, compreendam que o julgamento da violência sexual que sofri no plenário é urgente e de interesse público, e, com base nesse entendimento, decidam convocar uma sessão da Assembleia, que se encontra de recesso até dia 1o de fevereiro, e, apenas assim o Conselho poderá se reunir.

Atualmente 115 mil pessoas demandam a cassação imediata de Fernando Cury em um abaixo-assinado organizado pelo meu mandato, e, para se defender, o deputado já contratou Milton Abrucio Junior, diretor geral da CDN Comunicação e especialista em gestão de crises, que trabalhou como como gerente de crises da Odebrecht.

Apesar disso, até agora nem o presidente da Assembleia, Cauê Macris, e nem o governador João Doria, se expressaram publicamente a respeito do caso ou entraram em contato comigo para prestar solidariedade, como já o fizeram outras deputadas e deputados, bem como dezenas de lideranças políticas, entidades e organizações da sociedade civil.

Porém, eu realmente espero que Macris se comprometa em apoiar a convocação extraordinária da Alesp, dado que isso é um dever cívico e moral da maior casa legislativa do Brasil. A Assembleia Legislativa de São Paulo não deve medir esforços para tanto e dar o exemplo de como devem ser conduzidos os casos de violência de gênero no país.

Um caso televisionado e explícito como o que sofri faz parte da cultura machista e de violação dos direitos das mulheres no país todo, e deve ser combatido com seriedade e urgência em respeito a todas as brasileiras. Por esse motivo, acredito que contarei com o apoio dos colegas e das colegas da casa, afinal os direitos das mulheres não possuem viés ideológico, são universais.


Quem é Isa Penna

Isa Penna, 29, é advogada formada pela PUC-SP e deputada estadual pelo PSOL-SP

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Mulheres na política conquistam espaços e desafiam violência de gênero e racismo https://canalmynews.com.br/politica/mulheres-na-politica-conquistam-espacos-e-desafiam-violencia-de-genero-e-racismo/ Mon, 18 Jan 2021 15:41:34 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/mulheres-na-politica-conquistam-espacos-e-desafiam-violencia-de-genero-e-racismo/ Chegada das mulheres aos espaços de poder na política é marcada por uma série de desafios

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mulheres na política
Da esq. para a dir.: Elizabeth Schmidt, Olivia Santana, Joice Hasselmann e Renata Souza.
(Foto: Montagem/Divulgação)

Nos últimos anos a participação de mulheres na política brasileira ganhou força com a conquista de cargos inéditos – da Presidência da República à Prefeitura de grandes municípios – e o avanço de representantes eleitas nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. A chegada delas aos espaços de poder, no entanto, ainda é marcada por muitos desafios.

Representantes de diferentes níveis de governo contaram ao Canal My News que enfrentam assédio, machismo, racismo e recebem pouco de apoio dos partidos.

Em dezembro de 2020, a deputada estadual Isa Penna (PSOL-SP) foi assediada sexualmente pelo parlamentar Fernando Cury (Cidadania), durante sessão na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O partido afastou Cury, mas o episódio não é um caso isolado. 

Na mesma semana, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) passou por situação semelhante durante uma confraternização com colegas, após o plenário. “Senti uma mão no meu braço, ele veio por trás encostou o corpo no meu e deu um beijo no meu pescoço”, conta. “Não sabia quem era. Virei a mão no rosto dele e, como estava com anéis altos que sempre uso, o rosto dele começou a sangrar. Ele saiu envergonhado.” Ela recebeu apoio de homens e mulheres no momento, mas não quis denunciar o deputado e nem revelar sua identidade.

Dentro da política brasileira, as mulheres enfrentam violência política de gênero, seja durante a campanha eleitoral ou no exercício de seus mandatos. Elas sofrem discriminação, ataques, desigualdade nas oportunidades e até falta de apoio dos partidos. 

“É uma construção social que ignora a possibilidade de mulheres nesses espaços e tenta inviabilizar a nossa participação a partir de ameaças, opressão e intimidação, seja nas redes sociais ou no próprio plenário”, afirma Renata Souza (PSOL), deputada estadual no Rio de Janeiro. 

A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ)
A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ).
(Foto: Divulgação)

A falta de equidade de gênero da política é um problema histórico, explica Olivia Santana (PC do B), deputada estadual na Bahia. “Existe a ideia da sociedade patriarcal de que a política é para os homens. Hoje vemos muitos avanços, mas muitas ideias ainda estão no campo do simbolismo.” 

Mulheres negras e racismo

Olivia se elegeu em 2018 como a primeira deputada estadual negra na Bahia. Apesar da conquista, ela chama atenção para a falta representatividade. 

“É um absurdo eu ser a única mulher negra na Assembleia Legislativa de um dos estados mais negros do Brasil” De acordo com o IBGE, a Bahia é o segundo estado com o maior número de autodeclarados pretos ou pardos (76,3%).

O machismo e o racismo ficam evidentes no dia a dia dela na Assembleia Legislativa. “Tenho que falar mais forte e mais alto para ser escutada e acatarem o que digo. Acontece também de os homens se reunirem e decidirem sobre assuntos que me envolvem sem me consultar, e tenho que brigar para rever [a decisão]”, conta a deputada estadual. “É cansativo, muito cansativo, mas não abro mão. Fui eleita para estar ali.”

Mulheres na política: Olívia Santana, deputada estadual pelo PC do B na Bahia
Olívia Santana, deputada estadual pelo PC do B na Bahia.
(Foto: Amanda Oliveira/Divulgação)

No Rio de Janeiro, Renata Souza também é alvo por causa de gênero e cor. “Temos uma política machista, racista e classista”, diz ela. Eleita em 2018, Renata decidiu ser candidata após o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), em março daquele ano, sua amiga pessoal e de quem trabalhou como chefe de gabinete. 

“O assassinato da Marielle mudou o ambiente político. As mulheres pretas e de favelas viram a necessidade de ocupar os espaços de poder, mas a violência política contra esse grupo aumento”, explica Renata. 

Pela proximidade com Marielle e por estar à frente da Comissão de Direitos Humanos no Rio, Renata é alvo de ameaças. No mês passado, a deputada do PSOL registrou queixa na delegacia após receber ameaças de morte pelas redes sociais. Ela afirmou também que já teve dados pessoais, como seu endereço residencial, expostos na internet. 

“De fato impacta meu trabalho. É um nível de gasto de energia e de impacto psicológico, eu me cuido para que isso não inviabilize a minha saúde mental. Como deputada tive que abrir mão da minha liberdade, tive que tomar diversas precauções em termos de segurança, diante da elevada política que sofro”, explica ela. 

Desafios desde a campanha eleitoral

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foram eleitas 651 prefeitas, o que representa 12,1% de todos os eleitos à prefeitura do país. Nas câmaras municipais, 9.196 mulheres foram eleitas vereadoras, ocupando 16% das cadeiras. 

Pela primeira vez, Ponta Grossa (PR) elegeu uma mulher como prefeita. A Professora Elizabeth Schmidt (PSD) levou 52,38% dos votos no segundo turno, vencendo a adversária Mabel Canto (PSC). A cidade, aliás, foi a única do país a ter duas mulheres disputando o segundo turno.

Professora Elizabeth Schmidt (PSD)
Professora Elizabeth Schmidt (PSD), atual prefeita de Ponta Grossa (PR).
(Foto: Divulgação)

Agora prefeita, Schmidt tem duas décadas de carreira pública. Já foi secretária de Cultura e Turismo; comandou a pasta de Administração e Recursos Humanos; e em 2016 foi eleita a primeira vice-prefeita de Ponta Grossa, na chapa de Marcelo Rangel (PSDB). 

“Sofri muitos preconceitos por ser mulher, ser professora e por uma pessoa de mais idade. Tenho 69 anos e isso foi usado pejorativamente por adversários que me chamavam de ‘vovó’ durante a campanha”, conta. Apesar dos ataques, ela aderiu ao termo e utilizou em para se aproximar do eleitorado mais velho. “Fui eleita para mostrar que o gênero e a idade não interessam, o que interessa é a competência.”

Em 2020, pela primeira vez o número de candidatos negros, superou o de concorrentes brancos. As mulheres negras, no entanto, representaram 13% das candidaturas pretas e pardas a prefeituras e 34% das que disputaram vagas nas câmaras municipais, de acordo com o TSE. 

Em Salvador, no entanto, Olivia Santana não teve o mesmo sucesso em sua campanha à prefeitura. Em sua primeira disputa, teve apenas com 4,49% dos votos. De acordo com ela, a disputa para as mulheres, sobretudo negras, tem mais obstáculos. 

“Sempre colocam a mulher negra na figura de eleitora e pobre. “Muitas vezes as pessoas vão se identificar com você, mas não te dão o voto porque não acreditam que uma mulher negra vá conseguir. As pessoas acham que ser prefeita é demais para uma mulher negra. É muito doloroso”, diz ela. 

De assédio moral a gordofobia

Durante a campanha à prefeitura, Joice Hasselmann foi a candidata mais atacada nas redes sociais, de acordo com o levantamento MonitorA, projeto da Revista AzMina junto ao InternetLab. O projeto identificou 612 tweets com conteúdo sobre aparência física da candidata, assédio moral, sexual e intelectual, gordofobia, entre outros. 

Ela aponta grupos bolsonaristas como responsáveis pelos ataques virtuais, que começaram há mais de um ano. “Quando deixei de ser líder do governo, sabia que seria alvo do Bolsonaro, dos filhos e dessa gangue… O maior número de ataques que sofri veio de pessoas de direita, sendo que sou de direita. Não é um ataque ideológico, é por eu ser mulher”.

Joice Hasselmann, deputada federal pelo PSL-SP
Joice Hasselmann, deputada federal pelo PSL-SP.
(Foto: Divulgação)

“Sempre fui muito forte e reagia a cada ataque, mas sou um ser humano. Somatizei tanto que o meu corpo deu sinal de falência e fui para o hospital. Isso atinge a gente, seja o seu emocional ou o físico”, afirma Joice. Em fevereiro de 2020, ela passou por duas cirurgias. 

Após os ataques e os aprendizados dentro da política, a deputada trabalha pela criação do Movimento Feminino Brasileiro. Ela afirma que se trata de um grupo não partidário e sem ideologia, que pretende reunir mulheres de diferentes posicionamentos políticos para debater sobre o espaço delas na política. O lançamento deve ocorrer a partir de fevereiro, mas ainda não há uma data específica.

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16 facadas https://canalmynews.com.br/sem-categoria/16-facadas/ Tue, 29 Dec 2020 20:14:18 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/16-facadas/ Fico com aquela sensação de desalento: isso pode acontecer com todas as outras mulheres que sofrem violência e que não vão ter acesso rápido a proteção

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16 facadas. 

No rosto e na cabeça, no pescoço e nas costas.

Na frente das 3 filhas. 

No meio da rua.

A juíza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi de 45 anos foi brutalmente assassinada pelo ex-marido. Por ser mulher, por dizer não, por covardia dele, por desumanidade. 

O assassino, Paulo José Arronenzi,  já tinha um passado de violência. Agrediu uma ex-namorada em 2007. Tinha inclusive ameaçado a própria Viviane em setembro. Ela se protegeu e depois confiou. Dispensou a escolta armada em novembro. O assassino, pelo jeito, estava só esperando. 

Além da Viviane, outras 5 mulheres, até agora enquanto escrevo, foram assassinadas no Brasil neste fim de ano de pandemia. Tenho a impressão que os últimos fins de ano têm sido sempre assim. O que assusta no caso da Viviane é que ela era juíza, teve acesso rápido a uma escolta, e mesmo assim o crime aconteceu. Paulo José não se intimidou diante do aparato do Estado. Fico com aquela sensação de desalento: isso pode acontecer com todas as outras mulheres que sofrem violência e que não vão ter acesso rápido a proteção. 

Cultura do estupro e do assédio contra mulheres é uma situação cotidiana
Machismo e cultura de violência contra a mulher é uma situação cotidiana no Brasil.
(Foto: Pixabay)

O Brasil ocupa o quinto lugar em um ranking de 83 nações que mais matam mulheres, segundo a ONU. A cada um minuto, duas mulheres são espancadas, a cada oito, uma mulher é estuprada.  Mas no Brasil machista tem juiz, colega de profissão da Viviane, que desdenha da lei Maria da Penha, criada para ajudar mulheres em situação de violência doméstica. Numa audiência de pensão alimentícia em São Paulo, o juiz Rodrigo de Azevedo Costa disse: “Se tem lei Maria da Penha contra a mãe, eu não tô nem aí. Uma coisa eu aprendi na vida de juiz: ninguém agride ninguém de graça.” O vídeo foi divulgado pelo portal Papo de Mãe. Imaginem a situação de mulheres que sofrem violência doméstica, conseguem dar um grande passo que é se separar do agressor, enfrentam constrangimento em delegacia, justiça e depois têm que ouvir de um juiz que a culpa foi delas. 

Em 2020, com as audiências virtuais, outro vídeo que escancarou o machismo no sistema judicial brasileiro foi o do caso da influencer Mariana Ferrer. O vídeo foi publicado pelo site The Intercept Brasil. Mariana acusava o empresário, André de Camargo Aranha, de estupro. Na audiência, Mariana foi submetida a humilhações proferidas pelo advogado de defesa do empresário, Cláudio Gastão da Costa Filho. Depois das agressões, o juiz Rudson Marcos pergunta se ela quer tomar uma água para se acalmar e pede um “bom nível ao advogado”. Só isso.

O machismo está tão entranhado na nossa cultura que não nos choca mais. Tem sempre alguém que repete a frase do juiz de São Paulo “ninguém agride ninguém de graça”.  E aí, as cenas que não param de se repetir. Passa Natal, passa Ano Novo e a violência continua. 

16 facadas, no rosto e na cabeça, no pescoço e na barriga. 

As filhas pedindo para parar. A morte.

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Cultura do assédio e do estupro andam juntas, diz Márcia Tiburi sobre caso Klein https://canalmynews.com.br/mais/cultura-do-assedio-e-do-estupro-andam-juntas-diz-marcia-tiburi-sobre-caso-klein/ Mon, 28 Dec 2020 21:58:48 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/cultura-do-assedio-e-do-estupro-andam-juntas-diz-marcia-tiburi-sobre-caso-klein/ Para a filósofa, é preciso fomentar um novo ambiente social contra esse tipo de cultura

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O escândalo envolvendo Saul Klein, filho do fundador das Casas Bahia, denunciado pelo Ministério Público por estupro e aliciamento, é algo mais comum do que parece e é sintomático da situação social vivida pelo Brasil.

A observação é da filósofa Márcia Tiburi, que comentou o caso na edição desta segunda-feira (28) do Almoço do MyNews.

“Infelizmente não surpreende porque nossa moral, nossa ética, nossas condições políticas hoje no Brasil são as piores possíveis. Que apareçam coisas tão bizarras e vergonhosas, que mostram tanto abuso de poder psicológico e financeiro, infelizmente estão fazendo parte do nosso cotidiano”.

Tiburi situa o caso Klein junto a casos recentes de feminicídio e de outros homens que que utilizaram-se de seu poder e influência para abusar de mulheres, como o médico Roger Abdelmassih.

“Há tantos casos de homens poderosos, que abusam das mais diversas formas, mas estão protegidos por aquilo que chamamos de cultura do assédio, que é a mesma cultura do estupro. As duas andam juntas, são parte fundamental da cultural patriarcal, que também é racista, faz exploração da classe social e por aí vai”.

A filósofa, que tem parte de sua obra dedicada ao feminismo e a críticas à extrema-direita, deixou o Brasil em 2018 por receber ameaças de morte e atualmente vive na França. Segundo ela, não basta buscar a saída apenas pela lei, mas é preciso fomentar um novo ambiente social, a partir de ações culturais, educacionais. “Nós deveríamos mesmo criar uma cultura engajada na construção de uma outra sociedade”.

Cultura do estupro e do assédio contra mulheres é uma situação cotidiana
Cultura do estupro e do assédio contra mulheres é, infelizmente, uma situação cotidiana.
(Foto: Pixabay)

Entenda o caso Klein

Saul Klein, 66, filho do fundador das Casas Bahia, é acusado de abuso sexual e de estupro por mulheres que contam ter sido aliciadas para festas e eventos na casa do empresário, em Alphaville, na Grande São Paulo. O caso foi revelado pela coluna da jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo, no último dia 22.

Em entrevista ao programa Fantástico (Globo), no domingo (27), uma ex-funcionária de Klein afirmou que, em um ano, 230 mulheres passaram pela casa do empresário. Elas eram submetidas a controle de peso, pressionadas a passar por procedimentos estéticos e a manter relações sexuais sem uso de preservativos. Algumas das mulheres aliciadas por Klein, ainda de acordo com a ex-funcionária, eram menores de 18 anos.

O MyNews tentou contato com o advogado André Boiani, que representa Klein, mas não obteve resposta até o momento.

Em nota enviada a veículos de comunicação, no entanto, o defensor de Klein disse que ele era cliente de uma agência que agenciava mulheres e que passou a ser chantageado depois que rompeu o contrato com a empresa. E que, eventualmente, estabelecia com as mulheres uma relação de “Sugar Daddy” – prática na qual mulheres são bancadas por homens ricos em troca de relacionamento.

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Assediadores não podem passar https://canalmynews.com.br/sem-categoria/assediadores-nao-podem-passar/ Tue, 15 Dec 2020 19:00:21 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/assediadores-nao-podem-passar/ Enfrentar assédio moral numa empresa é mais do que criar uma área de compliance. A mudança tem que vir de cima

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Eu já sofri assédio moral. Foi duro, doloroso e levou um tempo para recuperar minha autoestima. Aconteceu há alguns anos. E posso dizer: o assédio moral te mina, aos poucos. É uma construção. O assediador, de repente, toma conta da narrativa do profissional que você é e constrói um caminho que te fragiliza, te desmoraliza. Por um tempo, você aceita aquela situação. Até você não aguentar mais.

Lendo na revista piauí o inexplicável percurso da comediante Dani Calabresa para denunciar o assédio sexual que sofreu na Globo, eu lembrei muito da minha jornada. Claro que não dá pra comparar os dois tipos de assédio e na minha época não tinha um departamento de compliance para reclamar. Mas tem alguns pontos parecidos. Os colegas que acobertam, os chefes que não fazem nada e a paralisia da empresa que não toma uma atitude. É a cultura do assédio impregnada em milhares de empresas pelo mundo. Se as empresas não conseguem resolver assédio moral, quem dirá assédio sexual.

Na minha experiência, o assediador era uma mulher. Lembro que entrei para a nova equipe e os colegas me avisaram: “Olha, ela é meio difícil. Grita e trata mal, mas depois de uns meses melhora”. Os assediadores sabem como manipular. Passam uma imagem de eficiência e superioridade. São articulados e, quando em perigo ou ameaçados, atacam. 

Era uma equipe super profissional e super oprimida. Na hora do trabalho ninguém conversava com ninguém. E a voz da assediadora reinava absoluta. Lembro de falar para meus colegas que aquilo não era normal, mas eles pareciam anestesiados.

Assédio moral é um problema mais comum do que se imagina em empresas
Assédio moral é um problema mais comum do que se imagina em empresas.
(Foto: Pixabay)

Depois de vários ataques, um dia a assediadora passou dos limites. Ela achou que eu tinha cometido um erro grave, tinha errado uma conta. Me chamou, me trancou numa sala com o supervisor e gritou barbaridades. Não me ouvia. Disse que sabia, desde o início, que eu ia errar, que era questão de tempo. Me questionou como profissional. Urrava a frase “quem você pensa que é?”. Questionou minha carreira inteira. Na época, tinha mais de 15 anos de jornalismo. E enquanto a gritaria rolava, o supervisor refazia a conta e confirmava que eu estava errada. Não me conformei. Saí da reunião e procurei alguns colegas que refizeram a conta e provaram que eu estava certa. Foram necessárias 4 pessoas diferentes na sala de reunião até que a assediadora aceitasse que quem estava errada era ela.

Fiquei muito mal. No dia seguinte o supervisor me procurou, constrangido. Começou a conversa pedindo desculpas. Confessou que tinha feito a conta errada para agradar a assediadora. Ou seja: ele fez a conta dar o número que ela queria. Ele traiu a lógica, a matemática, o correto, tudo para satisfazer a assediadora. Imagina o risco que uma empresa corre com situações como essa? Ele queria meu perdão.

Levei uns dias para me recuperar e depois tive a coragem de  procurar a chefe da assediadora. Contei o que tinha acontecido. A chefe disse que aquilo era inadmissível. Foi gentil. Me colocou em outra equipe e disse “ vou pensar se vou falar com a assediadora. Tenho medo que ela comece a te perseguir”. Nunca mais tive notícias. Pelo que sei, ambas – a chefe e a assediadora -, continuam na empresa, liderando. 

Enfrentar assédio numa empresa é mais do que só criar uma área de compliance. A mudança, na minha opinião, tem que vir de cima. Não adianta o chefe dizer que não aceita certos comportamentos e quando a denúncia vem, não fazer nada. Os líderes de hoje têm que pesar na avaliação não só o resultado, mas a postura. O estrago que os assediadores causam na equipe também tem que ser medido. E sempre perguntar: vale a pena continuar com alguém que entrega resultados na base da humilhação? Na minha experiência, não. Vi um supervisor trair a lógica e a matemática para agradar uma assediadora.

Enquanto o discurso for “ah, mas é um ótimo profissional” as empresas não avançam. Uma denúncia de assédio moral tem que ser investigada e o assediador precisa ser punido, receber treinamento, se ajustar. Já a denúncia de assédio sexual, na minha opinião,  deveria ser tratada como um caso de Covid, com isolamento do denunciado. Depois, uma investigação séria, rápida e eficiente. Se comprovado o assédio só há uma saída para a empresa: punição exemplar. Assediadores não podem passar. 

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