Diálogos – assédio e machismo na política

Joice Hasselmann: aprendi na prática que existe violência política de gênero no Brasil

Nós enfrentamos batalhas simplesmente porque somos mulheres
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10 de janeiro de 2021

Quando lembro dos ataques sujos que enfrentei — agora — até me dá vontade de rir. Mas, durante mais de um ano de um verdadeiro estupro moral tive mesmo vontade de chorar, reagir, atacar os que atacam sem piedade, revidar. Porca, gorda, traíra, vagabunda e piranha, foram apenas alguns dos ataques que li e ouvi na terra sem lei que virou as redes sociais. As montagens então eram surreais. Muitas chegaram aos telefones de meus filhos. Uma psicose real, num ambiente virtual, criada, coordenada e incentivada por uma milícia digital.

E atenção: essa milícia mata! Ela mata reputações, mata sonhos, mata esperanças, mata desejos, mata inocências…no entanto, mesmo com todo seu poder de fogo, não foi capaz de me matar.

Sim, eu sobrevivi. Passei por tudo, enfrentei sozinha a gangue, enfrentei a máquina mais poderosa do país — o Palácio do Planalto — e uma rede espalhada pelo Brasil composta por gente sem pudor, sem medo da lei, sem respeito a nada. E, para a tristeza e derrota deles, eu segui em frente. Mesmo machucada, com meu útero perdido, com dias de UTI depois da somatização dos ataques no meu corpo, segui em frente. Sigo em frente. E estou aqui, mais forte do que nunca. 

Aprendi na prática que o machismo existe, mas mais do que ele, existe uma violência política de gênero sem precedentes no Brasil. Não importa quem você seja, de onde venha, a violência está aí e quanto mais você conquista, mas intensos são os ataques. Como diria minha avó: “ninguém chuta cachorro morto”, mas os vivos sentem a dor.

Joice Hasselmann (PSL-SP)
A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), durante sessão na Câmara.
(Foto: Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados)

Muitos podem pensar que minha entrada para a política foi glamourosa, afinal fiz uma campanha bonita e barata, entrei para história como a mulher mais votada de todos os tempos da Câmara dos Deputados; ocupei a liderança do Governo no Congresso, já no primeiro ano de mandato e na sequência a liderança do meu partido. Mas, ao contrário do que muitos pensam, cada degrau que eu subia era enfrentando tiroteio de todos os lados, afinal muitos machões de plantão, a começar pelo Presidente da República e seus filhos néscios, se sentiam incomodados simplesmente por uma mulher fazer a diferença com independência, sem subserviência.

A minha história é só mais uma que se repete nas esferas de poder. Do pequeno poder ao macro poder. Mudam-se os personagens, mas o enredo é o mesmo. Nós enfrentamos batalhas simplesmente porque somos MULHERES. Nós enfrentamos agressões pelo peso que temos, pela roupa que usamos, pela cor e tamanho do cabelo, apenas porque somos MULHERES. Chega a ser ridículo. Na verdade é ridículo, mas é real. 

Tanto como deputada, quanto na carreira de jornalista, sempre fui combativa. Eu me fiz ser ouvida, mas para isso tive que falar mais alto e garantir o meu espaço. Mas por que nós, mulheres, precisamos falar alto para sermos ouvidas? Por que eu preciso primeiro “amedrontar” e mostrar mais força para só então ser respeitada? Há muitos porquês para essa realidade, mas nem um deles é minimamente admissível. 

Atualmente, no Brasil, as mulheres ocupam 13% do total das cadeiras do Senado e 15% na Câmara dos Deputados. Nas eleições de 2020, elegemos apenas 12% de prefeitas. Aliás, eleição recheada de ataques. 

O Instituto AzMina, em parceria com o centro de pesquisa em direito e tecnologia InternetLab e com o Instituto Update, realizou um levantamento para avaliar o fenômeno da violência e do discurso de ódio contra as mulheres no âmbito da disputa política. Foram cerca de 11 mil tuítes ofensivos. Eu ocupei a primeira posição do ranking, fui a mais atacada do país inteiro e por quê?? Simplesmente porque sou uma mulher que enfrentou as estruturas de poder e não se dobrou. 

Apesar do baixo número de mulheres nos cargos públicos, acredito que não é a intervenção do Estado, por meio de determinadas políticas, que resolverá o problema. A questão é muito mais profunda. Precisamos de uma mudança radical em nossa cultura e de mentalidade. Sozinhas, as políticas de estado não resolvem o problema no todo, e vemos isso em nosso dia a dia. As campanhas de difamação e ataques nas redes sociais são exemplos cristalinos. O buraco é muito mais embaixo.

Ao longo dos anos, os partidos e movimentos de esquerda se apropriaram das pautas relacionadas às mulheres. No entanto, quase 15 anos depois, as mulheres continuaram sofrendo com o machismo estúpido que está enraizado na nossa sociedade. Precisamos fazer mais. Precisamos nos unir. Precisamos deixar a ideologia de lado. Não é a esquerda ou a direita que tem que sequestrar a pauta feminina. Por entender que o excesso de ideologias só atrapalha, decidi criar com mulheres que ocupam espaços de poder em todo país, o “Movimento Feminino Brasileiro” onde todas são bem vindas, independente de suas ideologias. Aqui a pauta é a MULHER. 

Muitas podem me perguntar: mas por que a criação de um movimento de mulheres que reúne mulheres que já ocupam espaços de poder na área pública e privada? A resposta é muito simples. Nós que conseguimos ultrapassar tantas barreiras e chegar nesses espaços enfrentando caminhos pedregosos temos a obrigação de aplainar o caminho para aquelas que querem vir, que querem ocupar seus espaços e que não precisam passar por tudo o que passamos. O maior compromisso que temos é pavimentar os caminhos para as que chegarão. Eu dedicarei minha vida a isso. Venham, mulheres!


Quem é Joice Hasselmann

Joice Hasselmann, 42, é deputada federal pelo PSL-SP. Ex-líder do governo federal na Câmara, atualmente é Secretária de Comunicação da Câmara dos Deputados

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