Imagem: Divulgação El Conde
DITADURA NO CHILE
Não é tarefa fácil fazer um filme cômico com uma das figuras mais nefastas do planeta no século 20, que de fato deixou um rastro de sangue no Chile
Na sátira política “O Conde”, de Pablo Larraín, o ex-ditador chileno Augusto Pinochet não morreu. Afinal, ele se trata de um vampiro, nascido na França pré-revolucionária com o nome de Claude Pinoche e, hoje, cansado de tomar sangue e não morrer jamais, vive num isolado casarão num ponto indefinido da Patagônia.
Não é tarefa fácil fazer um filme cômico com uma das figuras mais nefastas do planeta no século 20, que de fato deixou um rastro de sangue no Chile. Mas o habilidoso Larraín diretor de “Spencer” (sobre a princesa Diana) e de “No” (sobre o plebiscito que marcou o fim da ditadura chilena) consegue driblar o que poderia ser de mau gosto e acerta em não humanizar o ditador, ao contrário, deixa que as próprias situações pelas quais passa o façam.
Depois de mostrar brevemente sua vida na França, quando viola até mesmo o túmulo de Maria Antonieta e rouba sua cabeça, o jovem Claude Pinoche vai parar no Chile. Segundo a ficção, ele teria fingido sua própria morte, em 2006, indignado por estar sendo julgado por corrupção e não elogiado por ter “matado tantos comunistas”.
Durante a noite, mesmo já velho, o ditador ainda caminha pela casa patagônica usando seus velhos uniformes. Em sua cozinha, há centenas de corações congelados. Quando sente fome fora de hora, desce e prepara um “shake” para se revigorar”. E voa, vai até a Santiago de hoje e a sobrevoa até encontrar uma outra vítima de quem rouba o sangue e o coração.
Numa das cenas mais escalofriantes, o filme, que é todo em branco e preto, mostra Pinochet com sua capa militar no pátio interno do Palácio de La Moneda. Ele vai olhando a fila de bustos de presidentes e sente falta do seu, por isso se coloca entre os de Salvador Allende, o que presidente que ele derrubou, e o de Patricio Aylwin, o primeiro mandatário eleito pós-redemocratização do país.
Pinochet também recebe a visita dos filhos, ávidos por uma herança que ao parecer nunca virá, uma vez que o pai nunca morrerá. Ele vive acompanhado da mulher Lucía Hiriart, uma voz forte da ditadura, que atuava com frequência ao lado de Manuel Contreras, o temido chefe da DINA, a polícia secreta do Chile. No filme, Pinochet também morde Hiriart e a transforma em vampiro, ou seja, ela também nunca morrerá, para o terror dos filhos, que estão quebrados financeiramente.
Quem aparece de visita é “Maggie”, ou Margaret Thatcher, para lembrar os tempos em que Pinochet a ajudou a vencer a Guerra das Malvinas. Ah, Thatcher também é um vampiro e chega voando desde Londres.
Perguntado pelo jornal The Guardian sobre como fazer uma sátira de uma história que ainda é uma ferida aberta para os chilenos, Larraín diz que “qualquer forma de narrativa precisa de uma crise, seja Shakespeare ou seja uma comédia grega. A história recente do Chile é uma crise. Eu não saí dessas fronteiras”, conta.
Num cinema de Santiago, o filme foi visto às gargalhadas do público nas cenas mais cômicas. É de se esperar que os cerca de 30% da população que ainda tem simpatias pelo general sequer pense ir assistir um filme que o pinta de modo ridículo.
“Tivemos de trabalhar muito para saber como abordar Pinochet. Um retrato dele no cinema ou na TV nunca foi feito. A combinação de comédia e sátira, minha opção, talvez seja a única possível”, afirma o diretor. O personagem é encarnado pelo ator veterano Jaime Vadell. “Se evitarmos a sátira, podemos rapidamente cair em um tipo de empatia que não é aceitável”, acrescentou o diretor. O filme já foi exibido em festivais estrangeiros e desembarca amanhã (15) por aqui, numa produção da própria Netflix.