Educação financeira transforma rotina de aldeia indígena no Pará e amplia autonomia de moradores Alunos, professores e membros do CVM em reunião durante missão na aldeia Jaraki. Foto: Reprodução

Educação financeira transforma rotina de aldeia indígena no Pará e amplia autonomia de moradores

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Projeto da CVM na Aldeia Lago da Praia, no Território Cobra Grande, reúne educação financeira, letramento digital e empreendedorismo; moradores relatam mudanças na organização das contas e na geração de renda

Às margens do Rio Arapiuns, na Aldeia Lago da Praia, no Território Cobra Grande, em Santarém (PA), educação financeira ganhou um significado que vai além de aprender a fazer contas ou controlar despesas. Na comunidade indígena, o conhecimento passou a ser aplicado ao planejamento de atividades, ao artesanato, à produção de alimentos, ao cultivo da agrofloresta e à organização de manifestações culturais.

A experiência faz parte de um projeto da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) voltado à educação financeira e ao letramento digital de populações indígenas. A iniciativa, construída em parceria com a comunidade, também incorporou ações de empreendedorismo e geração de renda.

A reportagem acompanhou a missão da CVM à aldeia nos dias 28 e 29 de agosto e conheceu parte das atividades desenvolvidas.

Como começou o projeto de educação financeira da CVM na aldeia

A parceria entre a CVM e a comunidade começou a ser construída em 2019, depois de uma aproximação entre representantes da autarquia, universidades do Pará e lideranças indígenas. Segundo José Alexandre Vasco, Superintendente Seccional de Desenvolvimento e Modernização Institucional da CVM, o contato com a realidade econômica do território mostrou que a educação financeira poderia ter uma função mais ampla. 

O projeto partiu de uma experiência que a CVM já desenvolvia havia décadas na área de educação financeira, mas foi adaptado para a realidade da população indígena.

“A solução para isso passava por fortalecer e tornar essas pessoas protagonistas da sua vida financeira. A educação financeira era o primeiro passo, mas também ficou claro que a gente precisava ajudá-los a ter letramento digital e, também, a gerar renda”, afirmou Vasco.

Segundo ele, a equipe encontrou na região situações de vulnerabilidade econômica e endividamento. Ao mesmo tempo, havia uma preocupação das comunidades em preservar a floresta e manter seu modo de vida.

“A CVM dos brasileiros não é uma CVM apenas do Rio de Janeiro, da Faria Lima, de Brasília, mas ela tem que alcançar os brasileiros aonde eles estiverem”, disse.

O projeto passou, então, a reunir três frentes: educação financeira, letramento digital e empreendedorismo.

Educação financeira é adaptada à realidade indígena

A professora Sandra Maria dos Santos Pereira, que atua no ensino médio da escola da aldeia, participou da construção das atividades. Segundo ela, o trabalho começou a partir de uma pesquisa desenvolvida na Universidade do Estado do Pará (UEPA), que posteriormente ajudou a aproximar a comunidade da CVM.

Embora a parceria tenha começado em 2019, Sandra afirma que a aplicação contínua das atividades ganhou força a partir de 2025, com formações e oficinas de letramento digital, agrofloresta e empreendedorismo.

A proposta também foi adaptar o conteúdo à realidade dos moradores. Em vez de trabalhar apenas com exemplos abstratos de finanças, professores passaram a construir narrativas a partir das experiências e dos saberes tradicionais da própria aldeia.

 

“A educação financeira para nós não visa só o dinheiro, só você fazer cálculo, mas sim ela está presente em todos os aspectos da nossa vida diária”, explica Sandra.

As histórias utilizadas nas atividades foram construídas a partir da rotina da comunidade, com referências a animais da floresta e às diferentes gerações que vivem no território.

“Todos os textos foram usados a partir da nossa realidade”, afirma a professora.

Morador relata mudança na organização da renda

Para Nathanael Silva Santos, padeiro, morador da aldeia que participou da formação, o aprendizado teve efeitos diretamente na maneira como ele passou a administrar o próprio dinheiro.

“Eu consegui controlar a minha fonte de renda, não comprar mais as coisas por impulso e procurar produtos de qualidade e mais baratos. Antes, eu via um produto e já comprava.”

A mudança também se refletiu na possibilidade de empreender. Nathanael passou a produzir pão, pizza e bolo e afirma que começou a guardar parte do que recebe.

“Com essa aula, eu também consegui fazer empreendimento. Hoje eu trabalho com pão, pizza, bolo. […] Veio uma renda muito maior por causa do curso. E eu consegui também guardar um pouco na poupança, todo mês a gente guarda um pouco, que antes eu não conseguia.”

Para ele, uma das mudanças foi entender que empreender exige planejamento e controle dos gastos.

“A gente tem que botar em prática, ter uma lista, um caderno para anotar o que você vai precisar e de que forma você vai utilizar a sua renda no final do mês.”

Projeto ajuda a organizar artesanato, agrofloresta e Carimbó

A professora Sandra também identifica mudanças em diferentes atividades da comunidade. No artesanato, segundo ela, os participantes passaram a trabalhar melhor a organização das peças. Na agrofloresta, o conhecimento foi utilizado para planejar o cultivo e os cuidados com o roçado.

A lógica de planejamento também passou a fazer parte da organização dos eventos realizados pela comunidade.

“Para todos os eventos que têm, a gente faz esse planejamento, a gente faz essa planilha, quanto vai gastar, quanto vai sobrar. Então é muito importante a gente aprender a fazer essas planilhas, essas receitas de despesas, de gastos, de custos”, conta.

O grupo de Carimbó Angawara Iwì, que participa do Festival Cultural do Povo Jaraqui, também passou a utilizar esse conhecimento para organizar suas atividades.

Segundo Sandra, a educação financeira contribuiu para a evolução do grupo tanto na qualidade das apresentações quanto no planejamento, na logística e na organização das indumentárias.

Educação financeira também é vista como autonomia

A nova Superintendente de Orientação aos Investidores e Finanças Sustentáveis da CVM, Maria Lúcia Maceira de Melo, acompanhou a missão à aldeia e destacou que a experiência mudou sua própria percepção sobre o significado da educação financeira.

“Educação financeira, na verdade, é educação para escolhas, para autonomia, para cidadania, principalmente.”

Para ela, iniciativas desse tipo precisam considerar as diferentes realidades existentes no país. Por isso, o conteúdo não deve se limitar a matemática ou à criação de planilhas.

“Não é simplesmente uma educação matemática. […] Na verdade é para você dar autonomia para um povo como esse aqui, você customizar um projeto específico com o que eles fazem aqui.”

Maria Lúcia também afirma que os participantes relatam mudanças na forma como conduzem suas atividades depois das formações, com maior autonomia e compreensão sobre suas próprias decisões.

O letramento digital é outra frente considerada importante pela CVM. A avaliação da autarquia é que o acesso às ferramentas digitais exige que as comunidades também tenham conhecimento para utilizá-las de forma mais autônoma.

Projeto pode ser ampliado para outras aldeias

Depois de anos de trabalho na Lago da Praia, a CVM pretende utilizar a experiência como referência para uma iniciativa mais ampla. De acordo com Vasco, os materiais desenvolvidos por professoras ao longo de dois anos foram adaptados e avaliados para que possam ser utilizados em um novo piloto.

A proposta é testar o conteúdo em outras comunidades e etnias, com apoio da Funai. A ideia é que a própria Aldeia Lago da Praia mantenha as atividades e possa se transformar em um ponto de referência regional.

“A gente precisa testar esse material também, não só aqui, com o povo Jaraqui, mas também com outras etnias brasileira. A aldeia seja um polo, um laboratório, um centro de excelência de educação nessas três áreas para os povos indígenas”, afirmou Vasco.

Maria Lúcia também defende a continuidade do trabalho e avalia que a comunidade pode concentrar conhecimentos que sejam compartilhados com outros povos da região.

“Aqui é um primeiro passo que tem muito a acontecer. Eles já saíram em pouco tempo, com tantos resultados, mas que tem sim muita coisa aí para trabalhar com essa comunidade toda.”

Festival do Povo Jaraqui valoriza cultura e identidade indígena

 

A educação financeira não foi o único aspecto acompanhado durante a visita à Aldeia Lago da Praia. A missão também coincidiu com o Festival do Povo Jaraki, evento organizado para celebrar e apresentar a cultura e as tradições da comunidade.

Para o cacique Gilvan Tapajós Jaraki, o festival é uma forma de afirmar a identidade do povo Jaraqui e mostrar sua existência no Baixo Tapajós.

“A importância desse nosso festival é levar a nossa cultura, mostrar a nossa identidade, mostrar para o mundo que nós existimos aqui, que nós temos cultura, que nós temos tradições, que nós temos nossas histórias.”

Durante o evento, a comunidade apresenta manifestações culturais como dança, culinária, artesanato e grafismos. A programação também resgata histórias e personagens tradicionais, como o pajé Merandolino, representado durante as apresentações pelo filho do cacique.

“É um povo que é resistente, um povo que luta, um povo que está aí para mostrar para o mundo que nós temos aqui uma cultura através da dança, através da culinária, através de manifestações culturais, através do artesanato.”

Segundo Gilvan, o festival também tem o papel de tornar visível uma cultura que, muitas vezes, permanece desconhecida fora da região.

“O foco dele é mostrar a nossa realidade, mostrar que nós existimos, mostrar nossa cultura. Então é uma cultura que muitas das vezes ela está escondida.”

E resume o objetivo do evento em uma mensagem dirigida a quem visita a comunidade:

“Levo isso para o mundo. Digam lá fora que nós temos um povo aqui no Baixo Tapajós, na região do Pará, que tem essa tradição, tem esse festival e quer mostrar, quer divulgar, quer dizer que nós existimos.”

Cacique Gilvan Tapajós Jaraki

Território Cobra Grande aguarda avanço na demarcação

Além da preservação cultural, a comunidade enfrenta o processo de demarcação do Território Cobra Grande. Segundo o cacique Gilvan Tapajós Barbosa, o processo começou em 2008 e atualmente está em uma etapa avançada, aguardando a demarcação física e o plaqueamento dos limites do território.

De acordo com o cacique, a previsão é de que os trabalhos de demarcação física ocorram entre novembro de 2026 e fevereiro de 2027. A liderança afirma que a comunidade já solicitou a presença dos órgãos públicos durante o período, diante da preocupação com possíveis ameaças.

“A gente já vai receber ameaça porque a gente vai ser cortado o pico para fazer o plaqueamento, colocar as placas nos pontos estratégicos. Então isso daí nós já solicitamos para os órgãos também que eles possam, nesse período, estar presentes.”

Gilvan afirma que a realização do trabalho pode aumentar a exposição das lideranças e restringir a circulação dos moradores.

“Porque a gente vai ter muitas ameaças, vai sofrer muitas ameaças. A gente vai ser muito impactado com as pessoas, a gente não vai poder sair. A gente vai ficar muito restrito.”

Segurança de lideranças preocupa comunidade

A preocupação com a segurança também aparece entre os desafios relatados pelas lideranças do território. Procurado pela reportagem sobre a situação, o Ministério Público Federal (MPF) informou que tomou conhecimento dos fatos por meio do Ofício Circular nº 01/2026, encaminhado pelo Conselho Indígena da Terra Cobra Grande (COINTECOG).

Segundo o MPF, a presença e a permanência de famílias não indígenas na Terra Indígena Cobra Grande já são acompanhadas pelo Procedimento Administrativo nº 1.23.002.000398/2019-22, instaurado para acompanhar o processo demarcatório e questões relacionadas à proteção territorial.

O órgão informou, porém, que, após analisar o documento encaminhado pelo conselho indígena, o procurador responsável indeferiu a instauração de uma nova apuração, por entender que os fatos relacionados à presença de não indígenas já são objeto de acompanhamento no procedimento administrativo existente.

Em relação à Ação Penal nº 0822486-83.2024.8.14.0051, que envolve o cacique Gilvan Tapajós Barbosa e outros indígenas, o MPF esclareceu que o processo tramita na 2ª Vara Criminal de Santarém, na Justiça Estadual do Pará. Por isso, segundo o órgão, não cabe ao MPF intervir no processo criminal, por ausência de atribuição legal.

O MPF também informou que não possui medida de proteção em andamento formulada pelo órgão especificamente em relação aos fatos relatados.

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