Com a gracinha dos nove dedos, Flávio pode ter perdido votos no debate Foto: Globo Eleições

Com a gracinha dos nove dedos, Flávio pode ter perdido votos no debate

O senador tenta sair da quinta série, mas a quinta série não sai dele. Ao zombar de Lula, devolveu força à história do adversário, num episódio cujo custo eleitoral ainda é difícil dimensionar

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  • Flávio Bolsonaro provocou Lula sobre seus nove dedos durante o debate televisivo.
  • Lula respondeu com uma narrativa pessoal, reforçando sua imagem de operário.
  • Analistas indicam que a troca pode ter custado votos a Flávio Bolsonaro.
  • O debate foi transmitido pela Bande, em São Paulo, Brasil.

Ao tentar diminuir Lula, Flávio Bolsonaro devolveu ao adversário a força de uma história que nenhum treinamento de debate consegue fabricar.

Quando ouvi Flávio Bolsonaro fazer a provocação sobre os nove dedos de Lula, pensei: o sujeito treina com Tarcísio, um político que junto com Haddad deu um show de maturidade política no debate da Bande para governador, tenta incorporar aquele jeito controlado, mas chega a hora e a quinta série fala mais alto. O personagem escorrega. A tentativa de parecer espirituoso revela uma dificuldade bem mais séria: compreender o país que pretende governar.

Foi, para mim, o ponto alto de Lula no debate. Flávio ofereceu ao adversário uma oportunidade que marqueteiro nenhum conseguiria produzir com a mesma força. Ao responder à piada sobre o dedo perdido no trabalho, Lula tinha uma história para contar. Não precisava decorar uma frase, consultar uma estatística, lembrar a orientação do preparador. Aquilo era dele. Era ele.

Naquele momento, o presidente tantas vezes preso à defesa do próprio governo reencontrou o operário. O homem do sindicato, capaz de transformar uma experiência pessoal numa conversa com milhões. Quantos brasileiros se enxergaram ali? Quantos conhecem no próprio corpo o preço do trabalho? Quando Lula chamou o adversário de grã-fino, deu endereço àquela humilhação: alguém numa posição confortável acha graça na marca que o trabalho deixou no corpo do outro.

O cientista político Rudá Ricci ajuda a entender como uma cena dessas pode repercutir entre os indecisos. Na sua análise, a indecisão também pode ser sinal de reflexão: são eleitores que ainda pesam suas escolhas. Um episódio com tamanha carga emocional pode fortalecer uma posição aos poucos, nas conversas e nas sucessivas lembranças da cena. Uma onda não se forma imediatamente, nem permite contar, na mesma hora, quantos votos arrastará.

Ricci chama atenção também para a religiosidade da população brasileira e para a identificação com o sofrimento no trabalho. Nesse universo, a satisfação em ridicularizar uma dor alheia, que ele classifica como sadismo, pode provocar uma rejeição profunda. A piada chega a quem sofreu um acidente, a quem viu um familiar voltar machucado para casa, a quem conhece a humilhação de ser tratado como inferior. O conteúdo emocional é fortíssimo. Sua tradução eleitoral permanece uma incógnita.

Neste sábado, com a Paulista congestionada, ouvi pessoas dizerem: “É o Lula”. “Olha, é o Lula de perto.” Havia uma emoção naquela descoberta que ajuda a entender a força da resposta no debate. Existe um vínculo ali, construído ao longo de décadas, que pode perder intensidade sem desaparecer. Flávio tocou justamente no ponto capaz de reativá-lo. Isso será suficiente para mudar o resultado? Não sabemos. Mas campanhas gastam fortunas para recuperar uma conexão dessas, e ele ofereceu ao adversário uma ocasião preciosa diante do país inteiro.

Talvez Flávio ainda não tenha percebido o tamanho do favor. Foi provocar o presidente e trouxe de volta o sindicalista. Quis fazer uma piada sobre o que falta na mão de Lula e acabou lembrando ao Brasil o que existe na história dele. Quem pretende governar o país precisa entender por que tanta gente pode ter sentido aquela ofensa na própria pele.

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