Opinião: um recado à dita “direita” e “esquerda” brasileiras Foto: reprodução É Sobre Isso

Opinião: um recado à dita “direita” e “esquerda” brasileiras

Quem votou em Lula deveria ser ainda mais rigoroso na fiscalização de Lula. E quem pertence à direita deveria finalmente compreender que derrotar o PT exige muito mais do que colocar outro Bolsonaro na urna

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  • Lula (PT) venceu a eleição presidencial com 51,79 % dos votos válidos, derrotando Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21 %.
  • O pleito reforça a polarização brasileira, marcando a terceira disputa consecutiva entre PT e bolsonarismo.
  • O autor alerta a direita que o clã Bolsonaro não é inevitável e convoca a esquerda a fiscalizar o governo de Lula após a vitória.
  • Avalia o terceiro mandato de Bolsonaro como o pior, citando ausência de programa claro, deterioração fiscal e atraso em reformas estruturais.

Esse é um recado para a “direita” brasileira: que estas eleições sirvam de lição aos bolsonaristas — e, principalmente, a quem ainda considera o clã Bolsonaro a representação inevitável da direita nacional. Uma direita submetida à égide de alguém com o sobrenome Bolsonaro mostrou, mais uma vez, seus limites eleitorais, o fracasso inevitável e como a arrogância precede a queda. Enquanto esse campo político não conseguir construir uma alternativa que sobreviva para além de uma família, continuará oferecendo ao PT exatamente o adversário de que ele precisa.

Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu a proeza de ser eleito presidente da República pela quarta vez. Fez isso depois de um terceiro mandato que considero o pior de sua trajetória no Palácio do Planalto. Sem um programa suficientemente claro para o País, com deterioração da discussão fiscal, pouca disposição para enfrentar reformas estruturais e dificuldades para compreender um mundo que se transforma em velocidade cada vez maior, aumentando sua complexidade social. Não por uma vitória esmagadora, mas com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Eis que mais uma vez, a Presidência foi decidida não apenas pela adesão a um candidato, mas pela rejeição ao outro.

Em três eleições presidenciais consecutivas, considerando também a presença de Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro em 2018, o eleitor brasileiro terminou conduzido à mesma zona de guerra política, com o PT de um lado e bolsonarismo do outro. Sem amalgamar às raízes da disputa de 2018 e 2022, esperávamos que em 2026 a direita teria aprendido alguma lição, mas aparentemente a disputa polarizada pelo personalismo é um círculo conveniente para ambos.

O PT precisa do bolsonarismo para mobilizar o eleitorado contra aquilo que apresenta como “ameaça à democracia”. O bolsonarismo, por sua vez, precisa do PT para alimentar o antipetismo que mantém sua própria base mobilizada. Torna-se vazio o espaço para uma direita institucional, economicamente responsável, reformista e capaz de disputar a Presidência sem depender do capital político de uma família, restando a lição que, quando a candidatura de alguém é definida pelo seu oponente, este nunca é superado.

E aqui, um recado à “esquerda” àqueles que comemoraram ontem nas ruas, cantaram “Lula lá” e novamente transformaram a Avenida Paulista em palco de celebração eleitoral: a mobilização política não pode terminar após o fechamentos das urnas, e se houve disposição para ocupar as ruas para eleger Lula, deve haver disposição equivalente para fiscalizá-lo — mas particularmente sigo pouco otimista sobre isso. Na eleição anterior, em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro prometendo liderar uma frente ampla em defesa da democracia, mas, já no governo, pouco restou daquela amplitude. A administração retomou uma identidade essencialmente petista e relegou a segundo plano parte dos setores não petistas que haviam apoiado Lula circunstancialmente para derrotar Bolsonaro.

Eis aqui o que precisa ser cobrado. Primeiramente, Lula defendeu durante a campanha uma mudança no modelo de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, inclusive com a participação de um colegiado e a possibilidade de mandatos para integrantes da Corte. No modelo constitucional atual, entretanto, o presidente continuará com um poder extraordinário sobre a composição do tribunal.

A cadeira deixada por Luís Roberto Barroso continua aberta. Durante o próximo mandato, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes também alcançarão a idade da aposentadoria compulsória. Isso significa que Lula poderá realizar quatro indicações ao Supremo até o fim de 2030, salvo alguma mudança constitucional ou saída antecipada de outros ministros. É uma concentração institucional relevante demais para ser tratada como mera consequência administrativa de um mandato presidencial, especialmente diante de uma Corte cuja credibilidade segue sendo indagada pela sociedade.

Há também o Congresso. Lula já sinalizou logo no seu discurso da vitória que pretende reconstruir sua relação política com deputados e senadores, e isso pode significar sentar-se com Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e que tem se consolidado como uma articulador político de ponta. Valdemar, vale lembrar, foi condenado no processo do Mensalão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, cumpriu pena e posteriormente teve sua punibilidade extinta por indulto previsto em decreto presidencial de 2015, durante o governo Dilma Rousseff.

Há ainda um problema menos institucional e mais humano. Lula entrará no próximo mandato como o primeiro brasileiro eleito quatro vezes presidente da República pelo voto direto. Quando deixar o cargo, caso conclua os quatro anos, terá governado o País durante 16 anos. Lula, que nunca cultivou exatamente a modéstia como característica política, poderá interpretar a quarta vitória como uma espécie de consagração definitiva. Ainda ontem (25), durante o seu discurso da vitória, afirmou que “tem o dedo de Deus” em sua cabeça. Assim como vale recordar de Vargas ao longo de seus 18 anos de governança entre 1930 à 1945 e depois 1951 à 1954, quanto maior o personagem histórico, maior a tentação de confundir legitimidade eleitoral com licença para governar sem contestação. Por isso, nenhum resultado eleitoral transforma um presidente em instituição nacional acima da crítica.

A situação econômica também deveria eliminar qualquer euforia. O Brasil continua diante de um problema fiscal estrutural, onde as despesas obrigatórias comprimem progressivamente a capacidade do Estado de decidir onde gastar seu dinheiro, e é por isso que o próximo governo deveria enfrentar reformas que o Brasil insiste em adiar, como reforma administrativa, revisão das estruturas de gasto, discussão previdenciária permanente diante da transformação demográfica, simplificação tributária efetiva,  modernização das relações de trabalho, avaliação de políticas públicas ou controle de despesas obrigatórias.

Mas afinal, nada disso rende palavras de ordem particularmente emocionantes, ao passo de lotar a Avenida Paulista. Somos extraordinariamente dispostos a nos posicionar e assustadoramente pouco dispostos a estudar aquilo sobre o que nos posicionamos.

Simplificamos problemas complexos para caberem em publicações de redes sociais. Reclamamos do Estado, mas raramente discutimos seu tamanho. Exigimos serviços públicos, mas evitamos conversar sobre como financiá-los. Defendemos “direitos” sem discutir seus custos e os deveres. Criticamos impostos sem acompanhar o Orçamento. Temos uma Lei de Acesso à Informação e pouco hábito de utilizá-la. Temos portais de transparência e pouco interesse em consultá-los. Temos uma geração inteira conectada a uma quantidade de informação que seria inimaginável algumas décadas atrás e, paradoxalmente, um debate público cada vez mais superficial — e confesso que já esperei mais da minha própria geração.

Imaginei que jovens brasileiros desenvolveriam uma relação mais crítica com a política, semelhante à capacidade de mobilização vista em diferentes momentos recentes em países como França ou Nepal. Parte dessa esperança desaparece quando encontro pessoas dispostas a marchar contra conceitos políticos que não conseguem explicar, mas incapazes de dizer o que foram o Mensalão e o Petrolão, como funciona a Previdência ou por que o equilíbrio fiscal importa. É muito mais fácil lutar contra um fascismo abstrato ou contra um comunismo hipotético.

A democracia representativa brasileira funciona. Elegemos presidentes. Alternamos governos. Derrubamos candidatos. Reelegemos outros. Temos oposição, Congresso, Judiciário, imprensa e instituições de controle, e, apesar disso, por três eleições consecutivas, o sistema político terminou aprisionado essencialmente na mesma disputa.

Talvez o Brasil simplesmente não queira reformas.

Talvez não queira realmente fiscalizar seus governantes.

Talvez prefira reclamar do preço da máquina pública enquanto exige dela cada vez mais benefícios.

Talvez não queira conhecer política; queira apenas pertencer a um lado.

Queremos ser cuidados, mas preferimos não discutir quanto custa esse cuidado.

Queremos transparência, mas não procuramos a informação disponível.

Queremos mudança, desde que ela não retire nenhum benefício que já recebemos.

E queremos responsabilidade fiscal desde que o ajuste seja pago por outra pessoa.

O novo governo Lula terá de enfrentar um quadro fiscal difícil, reconstruir pontes com o Congresso e lidar com uma crise de confiança que atingiu também instituições como o Supremo Tribunal Federal. Nada disso será resolvido com uma nova comemoração na Paulista, e quem esteve ontem nas ruas comemorando a vitória deveria estar disposto a voltar a elas caso o governo fracasse em suas responsabilidades.

Quem votou em Lula deveria ser ainda mais rigoroso na fiscalização de Lula. E quem pertence à direita deveria finalmente compreender que derrotar o PT exige muito mais do que colocar outro Bolsonaro na urna.

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