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Lula terá de preservar o apoio popular para enfrentar os desafios da economia e corresponder à esperança que ajudou a elegê-lo
Lula tem um trabalho enorme pela frente. Precisará preservar o apoio popular que o levou à vitória para enfrentar problemas que não se resolvem com a contagem encerrada dos votos. A eleição passou, mas as famílias continuam endividadas, os juros continuam sufocando o consumo e o investimento, e o país precisa crescer. A mobilização que o elegeu será fundamental para sustentar as mudanças que terá de fazer.
O mundo está fazendo o L. Há uma expectativa que ultrapassa nossas fronteiras, pelo protagonismo que o Brasil conquistou no enfrentamento à extrema direita. Isso aumenta a responsabilidade de Lula. Se o país naufragar, o prejuízo será dos brasileiros, mas atingirá também a esperança de quem viu nessa vitória uma demonstração da força da democracia.
Agora, Lula precisa trabalhar com consciência, pragmatismo e respeito às contas públicas. Tirar as famílias do endividamento predatório, impulsionar o desenvolvimento e enfrentar os mecanismos que mantêm os juros tão altos exige diagnóstico, negociação e medidas concretas. Sem populismo. A confiança necessária para esse trabalho começa pelo respeito ao eleitorado: reconhecer suas dificuldades, explicar as escolhas e apresentar soluções que parem de pé.
Essa é a maior lição desta eleição: o povo precisa ser respeitado. Lula calçou o salto alto no primeiro turno e perdeu. Flávio Bolsonaro repetiu o erro no segundo. Em momentos diferentes, os dois agiram como se faltasse apenas combinar a vitória com o eleitor.
Foi Flávio, porém, quem levou a arrogância para o terreno da humilhação. Nos debates, tentou transformar a idade e as limitações físicas do adversário em motivo de deboche. Na Globo, ao fazer a gracinha dos “nove dedos”, ofereceu a Lula uma oportunidade que nenhuma estratégia de campanha poderia fabricar com a mesma força: voltar a falar como o trabalhador que conhece, no próprio corpo, o preço do trabalho.
Minha impressão é que aquele momento teve um peso importante na vitória. É difícil isolar seu efeito nas urnas, mas seu significado político é evidente. Flávio pretendia diminuir Lula. Acabou engrandecendo sua história. Por alguns instantes, o presidente deixou de ser apenas o governante sobre o qual recaíam cobranças e frustrações. Reapareceu o operário que perdeu um dedo numa fábrica, o brasileiro cuja trajetória foi construída enfrentando portas fechadas e o desprezo dos que se julgavam superiores.
Flávio lhe deu o palanque para essa reconexão. Ao zombar da marca de um acidente de trabalho, encarnou a figura do grã-fino que acha graça na vida dura dos outros. Evidentemente, nem toda pessoa rica age assim. A questão é a atitude: olhar de cima, tratar uma ferida como piada, imaginar que o público vai acompanhar a gargalhada. O Brasil é um país de trabalhadores. Há muita gente que reconhece naquela mão a história do pai, da mãe, do avô, ou a própria história.
Não é preciso gostar de Lula, votar no PT ou aprovar o governo para rejeitar aquela cena. O eleitor pode cobrar duramente um presidente e, ao mesmo tempo, recusar que sua idade e seu corpo sejam usados para humilhá-lo. Flávio confundiu a disposição de criticar Lula com uma autorização para desprezá-lo.
É por isso que o maior risco para Lula, daqui para a frente, será voltar a calçar o salto alto. A vitória não tornou o apoio popular incondicional. Ele precisará continuar ouvindo inclusive quem votou nele com ressalvas, quem se afastou no primeiro turno e quem decidiu apoiá-lo apenas nos últimos dias.
A outra lição veio dos jovens. Uma parcela da juventude que parecia distante da campanha ocupou ruas e redes, conversou com indecisos e mobilizou familiares para votar. Essa participação ajudou a dar energia à virada. Talvez estivéssemos errados ao enxergar apenas apatia: faltava uma causa capaz de transformar inquietação em ação coletiva.
É aí que entra a utopia. A possibilidade de acreditar que o futuro pode ser diferente e que uma ação individual, somada a outras, pode mudar seu rumo. Quando encontra essa perspectiva, a juventude cria linguagem, organiza encontros e disputa conversas. Descobre que a política também lhe pertence.
O PT faria mal em interpretar essa mobilização como adesão automática ao petismo. Até o lulismo deveria resistir à tentação de reivindicar sozinho essa vitória. O protagonismo de André Janones levanta uma questão incômoda para as estruturas tradicionais: quem conseguiu conversar com essas pessoas e fazê-las sentir que sua participação teria consequência? Janones pode ter ocupado um espaço que o partido já não sabia preencher e, nesse sentido, ter engolido parte do petismo e do próprio lulismo na condução da mobilização.
Lula venceu, mas a energia que ajudou a elegê-lo não é propriedade sua. Os jovens que foram às ruas encontraram uma causa, descobriram sua força e vão cobrar resultados. Quando recupera a utopia, a juventude pode promover revoluções, inclusive nas organizações que imaginam representá-la.
Cabe a Lula transformar essa esperança em perspectiva concreta de vida: renda que alcance o fim do mês, dívidas que possam ser pagas, trabalho e oportunidades. Preservar o apoio popular exigirá um governo que saiba fazer escolhas, explique seus limites e cuide do dinheiro público. O respeito que o eleitor exigiu na campanha precisa aparecer agora na maneira de governar.