Presidente Donald Trump. Foto: Reuters
Almoço Do MyNews
Em entrevista ao Almoço MyNews desta quarta-feira (4), professor de Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Pesquisa avalia que o resultado eleitoral representa um plebiscito sobre a gestão de Donald Trump e pode ampliar o isolamento político do presidente americano.
A vitória dos democratas nas eleições americanas representa um importante sinal de enfraquecimento do governo de Donald Trump. A avaliação é do professor Robson Valdez, de Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Pesquisa, que participou do Almoço MyNews nesta quarta-feira (4 de novembro). Para o especialista, o resultado abre caminho para uma nova fase de dificuldades políticas para o presidente, que deverá enfrentar maior resistência institucional e social nos Estados Unidos.
Valdez considera que ainda é cedo para decretar o fim do trumpismo. No entanto, acredita que o cenário aponta para o início de uma possível derrocada do movimento. Com o avanço democrata no Congresso e a presença de 28 governadores do partido nos estados americanos, Trump terá menos espaço para conduzir sua agenda.
“É difícil dizer hoje que é o fim, mas está encaminhado, né? Porque tu tem mais dois anos… pode ser o começo do fim, porque o governo do Trump vai enfrentar uma série de restrições domésticas no Congresso, no Senado, na sociedade como um todo”, afirmou.
Na avaliação do professor, a derrota também funciona como uma espécie de plebiscito sobre os dois mandatos de Trump. O resultado demonstra a insatisfação de parte do eleitorado com as promessas que não saíram do papel.
Valdez cita, entre os exemplos, a promessa de encerrar a guerra na Ucrânia em apenas um dia. Além disso, aponta as dificuldades do governo em lidar com o conflito em Gaza. Para o especialista, a distância entre o discurso eleitoral e os resultados concretos contribuiu para o desgaste da administração.
Outro fator importante foi o afastamento de eleitores que apoiaram Trump, mas não necessariamente se identificavam com o movimento MAGA (Make America Great Again). Parte desse grupo votou no republicano por rejeição à chamada agenda woke, mas acabou se distanciando do presidente.
“Entre os eleitores do Trump também tinha uma série de pessoas que não se identificavam fortemente com esse movimento MAGA, mas tinha uma certa contrariedade contra uma agenda que nos Estados Unidos se chama agenda woke. Esse pessoal também se afastou muito do Trump”, explicou.
Com a redução de sua margem de atuação na política doméstica, Trump poderá concentrar esforços nas relações internacionais. Segundo Valdez, a política externa oferece ao presidente maior liberdade de ação, especialmente diante das dificuldades que deverá encontrar no Congresso.
Nesse contexto, o professor avalia que a Casa Branca pode utilizar temas internacionais para recuperar protagonismo e deslocar a atenção pública das derrotas internas.
“Talvez um sopro de esperança para o trumpismo seja justamente a política externa, porque ainda ele tem uma maior liberdade. Desviar o foco para questões internacionais seria uma forma de desviar dessas dificuldades, dessa própria derrota do trumpismo domesticamente”, afirmou.
Valdez também relaciona o resultado americano a um movimento mais amplo de enfraquecimento da extrema-direita em diferentes partes do mundo. Para ele, a derrota de Trump não deve ser analisada isoladamente, mas dentro de um cenário internacional de questionamento a lideranças e movimentos radicais de direita.
O professor cita a vitória de Lula no Brasil, as manifestações estudantis na Sérvia e o enfraquecimento de Viktor Orbán na Hungria como exemplos de um contexto político que desafia o avanço desses grupos.
“Tem todo um contexto que enfraquece essa direita ou extrema-direita mundial que acabou engolindo a direita tradicional, vamos dizer assim, mais civilizada, como estávamos acostumados”, concluiu.
A avaliação de Robson Valdez aponta, portanto, para um momento de inflexão na política internacional. Embora o resultado não represente necessariamente o fim do trumpismo, a perda de apoio e o avanço da oposição podem limitar a capacidade de Trump de implementar sua agenda nos próximos dois anos.