Marco Antonio Rocha. Foto: Instituto de Economia/Unicamp/Reprodução
MYNEWS ENTREVISTA
Marco Rocha fala sobre a crise de legitimidade da economia e defende a oferta de serviços públicos de qualidade como política de cuidado
A iniciativa de elaborar o documento “10 Propostas para um Novo Ciclo de Desenvolvimento no Brasil”, lançado pela coalizão Vida em Conta, parte da constatação de um descontentamento profundo com o modelo econômico vigente. Em entrevista ao Canal MyNews para detalhar as propostas, Marco Antonio Rocha, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explicou que vigora globalmente a promessa de que é possível melhorar de vida pelo próprio esforço; no entanto, isso não se concretiza na prática. Esse descompasso entre a expectativa da população e a realidade concreta gera uma crise de legitimidade em relação ao sistema econômico que, por sua vez, deságua em crise política.
Diante desse cenário, o economista enfatiza que uma das respostas centrais do documento está no fortalecimento da infraestrutura social, exemplificada pela Política Nacional de Cuidados. Rocha defende que garantir acesso universal a creches, centros-dia e redes de apoio protege a renda e a qualidade de vida pela oferta de serviços públicos gratuitos. Ao transferir para o Estado o custeio e a execução de serviços básicos essenciais, alivia-se o orçamento das famílias — sobretudo das mulheres —, garantindo um patamar de bem-estar que o mercado de trabalho isoladamente não tem conseguido entregar.
“Não existe contradição entre responsabilidade fiscal e bem-estar. A questão é quem paga e para onde vai o dinheiro”, reforça Rocha. “Hoje, quem ganha menos compromete mais da renda com impostos, transporte e juros. Corrigir isso, cobrando mais de quem está no topo e revendo subsídios ineficientes, é o que abre espaço para crescer com mais justiça.”
Ao final de cada mês, a conta não fecha para grande parte da população brasileira: falta salário e sobram dias. É a partir desse diagnóstico do cotidiano das famílias que a coalizão, com 140 economistas e 70 organizações da sociedade civil, direciona seu pacote de medidas aos candidatos à Presidência da República.
Apesar de reconhecer avanços conquistados desde 2023 — como a geração de empregos, a retomada do crescimento econômico, a queda da inflação e o combate à fome —, o grupo alerta que desafios estruturais como a dependência tecnológica, a vulnerabilidade climática e a extrema disparidade de renda exigem uma reorientação do papel do Estado.
Em vez de focar apenas em ajustes pontuais, o conjunto de propostas sintetiza reformas estruturantes organizadas em frentes estratégicas:
Proteção social e tempo livre: Criação de diretrizes nacionais contra as desigualdades, redução da jornada de trabalho sem corte salarial e valorização do salário mínimo.
Mobilidade e serviços públicos: Mobilidade urbana encarada como direito com financiamento para Tarifa Zero, fortalecimento da saúde e educação universais e instituição de uma Política Nacional de Cuidados.
Justiça fiscal e transição ecológica: Aumento da tributação sobre os super-ricos, alinhamento de subsídios estatais à economia de baixo carbono e reforma agrária com estímulo à agricultura familiar.
Inclusão financeira: Expansão do crédito acessível a famílias e pequenos empreendedores por meio do fortalecimento dos bancos públicos.