A aula prática de Trump para Lula sobre o que não fazer Trump e Lula / Fotos: Reprodução (Instagram)/Ricardo Stuckert (PR)

A aula prática de Trump para Lula sobre o que não fazer

Americano mostra mais um lado seu que surpreende o mundo de forma negativa

Desde a campanha eleitoral e, principalmente, após seu retorno à Casa Branca, Donald Trump colocou a implementação de tarifas de importação como prioridade de sua agenda econômica. No último dia 2 de abril, o presidente americano anunciou as novas tarifas, que começaram a vigorar a partir do sábado, 5 de abril.

Com um discurso que contradiz toda a teoria moderna do comércio internacional, do desenvolvimento econômico, da tradição histórica do liberalismo e até mesmo de seu próprio partido, Trump afirma que as tarifas serão benéficas para os americanos.

Trump e o que não fazer

Seus argumentos, similares aos da esquerda desenvolvimentista, seguem a linha de que as tarifas protegeriam empresas locais da concorrência estrangeira, preservando empregos; forçariam indústrias a construírem fábricas nos Estados Unidos; e gerariam receitas multibilionárias, reduzindo o déficit fiscal e comercial com países que, pela visão mercantilista do presidente americano, se aproveitam do comércio com os EUA para enriquecer às custas da nação americana.

A realidade, entretanto, é outra. As empresas, em um ambiente de livre mercado, têm como objetivo entregar o melhor produto ou serviço aos seus clientes, com o menor custo possível. Esse é o roteiro para lucrarem, crescerem e se perpetuarem. A busca contínua pelo aumento da produtividade é determinante nesse processo, especialmente em um mundo globalizado.

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É pensando na eficiência e na redução de custos que as principais indústrias do mundo escolhem o local de produção dos seus produtos. De montadoras de veículos a fabricantes de tênis, o raciocínio é o mesmo: privilegiar locais com mão de obra adequada, disponibilidade de matéria-prima, segurança jurídica, infraestrutura e logística — tudo isso a preços competitivos.

Essa é a lógica que explica, por exemplo, por que a montagem de um carro da General Motors ou Ford envolve fábricas e processos nos EUA, México e Canadá, e o motivo pelo qual a Nike, com sede no Oregon, tem 50% dos seus tênis manufaturados, em 130 fábricas, no Vietnã.

As tarifas, por sua vez, têm um efeito extremamente oneroso: os preços para o consumidor necessariamente sobem, seja pelo repasse do novo imposto, pela redução da produtividade da indústria ou por ambos os motivos. O resultado é óbvio: aumento da inflação, queda do consumo e, logo, desemprego.

Algumas das notícias nas 48 horas seguintes ao anúncio tarifário do presidente americano ilustram bem as expectativas sobre as novas medidas:

As ações de empresas americanas cotadas em bolsa perderam nesse período US$ 5,4 trilhões em valor de mercado, o que é especialmente grave em um país onde 55% da população investe em ações, especialmente por meio de fundos de pensão.

O JPMorgan, maior banco americano, passou a estimar em 60% a chance de a economia americana e mundial entrarem em recessão até o final deste ano.

Produtos da Apple, como iPhones e MacBooks, podem ter aumento de preços de 43% e 39%, respectivamente, para compensar o novo imposto.

Jerome Powell, presidente do FED (Banco Central americano), afirmou que o cenário é altamente incerto, com elevado risco de haver mais desemprego e inflação.

E o Brasil e o governo brasileiro, como ficaram nisso tudo?

O Brasil terá uma tarifa adicional de 10% sobre suas exportações para os EUA, na fórmula esdrúxula adotada pelo governo Trump para estabelecer as aliquotas. Uma conta que despreza a tarifa efetivamente cobrada pelo outro país e considera o saldo da balança comercial entre as nações. Nos casos em que os EUA são superavitários, como ocorre com o Brasil, a tarifa foi fixada em 10%, o patamar mais baixo em relação às demais. O impacto efetivo para o nosso país dependerá da reação dos outros países e, portanto, da guerra tarifária que acontecer.

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O presidente Lula, antes mesmo do anúncio definitivo, já vinha criticando a postura protecionista de Trump, ressaltando a importância de um comércio aberto e globalizado. Lula afirmou:

“Se ele (Trump) está pensando em taxar tudo o que os Estados Unidos importam, isso será prejudicial para os Estados Unidos. Vai elevar os preços das coisas e causar uma inflação que ele não percebe. Acho que essas tarifas são muito ruins (…) estão dificultando o comércio no mundo. Esse protecionismo não ajuda nenhum país do mundo.”

Recentemente, para combater a alta dos alimentos, o governo brasileiro anunciou cortes pontuais nos impostos de importação.

Um observador externo, que não conheça o governo Lula e a realidade do Brasil, poderia imaginar que se trata de um presidente liberal, à frente de um país aberto ao comércio internacional. Ledo engano.

Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil está entre as economias mais fechadas do mundo, com a soma de exportações e importações representando menos de 25% do PIB. Para efeito de comparação, no México esse número chega a 80% e na média mundial é de cerca de 60%.

Apesar dos discursos de Lula contra o protecionismo de Trump, o Brasil mantém uma realidade tarifária que faria inveja ao próprio presidente norte-americano. As tarifas brasileiras são consideravelmente altas em padrões internacionais, mantendo setores altamente protegidos contra a concorrência estrangeira, o que contribui para uma produtividade baixíssima, equivalente, hoje, a um quarto da americana.

Entre os exemplos mais emblemáticos está o setor automotivo. Carros importados enfrentam taxas alfandegárias que podem ultrapassar 35%, tornando praticamente proibitivo para consumidores brasileiros o acesso a veículos estrangeiros mais baratos e modernos. Outro setor amplamente protegido é o têxtil, com tarifas que variam de 20% a 35%. Como resultado, roupas produzidas no Brasil costumam custar bem mais que seus equivalentes importados, limitando as opções para o consumidor final.

Produtos eletrônicos também enfrentam barreiras significativas, com alíquotas que variam entre 16% e 35%, dependendo do tipo de produto. Eletrodomésticos como geladeiras e fogões podem chegar a 35%. Nem as crianças escapam: no setor de brinquedos, as tarifas chegam a esse mesmo patamar.

O resultado no Brasil é o mesmo que os EUA agora poderão experimentar: preços altos, produtos de pior qualidade, menor oferta e baixa concorrência.

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Lula deveria aproveitar lição negativa de Trump

As altas tarifas, alardeadas como necessárias para preservar empregos e indústrias nacionais, produzem efeitos opostos: baixa eficiência, desestímulo ao investimento e à inovação, aumento do desemprego, ausência de participação nas cadeias globais de produção e empobrecimento geral da população.

Lula deveria aproveitar a lição negativa dada pelo governo Trump e reconhecer que tarifas altas são prejudiciais para a economia e o desenvolvimento de um país. É uma oportunidade para o Brasil colocar em prática uma política de abertura econômica, com o fim do protecionismo alfandegário, e costurar acordos de livre comércio com parceiros complementares e confiáveis.

O resultado seria um país mais conectado, competitivo e próspero. A hora é essa.

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