Nada nesta área é realmente regional. Como um polo de petróleo bruto, capital, comércio, tecnologia, exploração espacial, colaboração e conectividade, o Golfo tornou‑se, de fato, um verdadeiro “Golfo Global”
Desde o início do século, os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), liderados pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), deixaram de atuar apenas como exportadores de energia para assumir o papel de peças centrais na economia mundial. Com uma estratégia de diversificação econômica cuidadosamente planejada, transformaram-se em um ponto de convergência global — um elo fundamental para o fluxo de petróleo bruto, capital, comércio, tecnologia, exploração espacial, cooperação e conectividade. Essa evolução orientada para o futuro, porém, foi abruptamente afetada pela guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, um conflito do qual tanto os EAU quanto a sub-região do Golfo não participam.
A estratégia dos países do CCG de consolidar um hub comercial estável e próspero vem sendo abalada pelos acontecimentos recentes. A região aspirava ser vista como uma ponte, e não como um campo de batalha. No entanto, quando o espaço aéreo é fechado, rotas marítimas são atacadas e a infraestrutura é atingida por drones e mísseis, não é apenas a base física desses Estados que sofre danos, mas também o papel da região como eixo vital do comércio e da economia globais. A percepção crescente de que a volatilidade do modelo dos EAU ou do “Golfo como hub” está sendo exposta é, na verdade, uma demonstração de quão bem-sucedido esse modelo tem sido Os Emirados, que não participam do conflito, foram alvo de um volume de ataques três vezes maior do que Israel nas duas primeiras semanas, um indicador claro do verdadeiro alvo: o modelo baseado em redes econômicas em oposição à lógica da polaridade de segurança.
O Efeito Dominó
Entre as nações do CCG, os Emirados Árabes Unidos funcionam como um eixo vital do comércio internacional e da mobilidade global. Suas companhias aéreas de passageiros e de carga conectam cerca de 600 cidades ao redor do mundo, permitindo que um país com menos de 12 milhões de habitantes transporte aproximadamente 120 milhões de viajantes por ano. Somando-se a isso a malha aérea dos demais países do CCG, os números tornam-se ainda mais expressivos. A DP World, por sua vez, administra sozinha 80 portos e terminais marítimos e terrestres em seis continentes, sendo responsável por 10% de todo o tráfego mundial de contêineres.
Além disso, como 20% do petróleo e do GNL mundial passam pelo Estreito de Ormuz, as interrupções atuais podem aprofundar a crise nos mercados de energia, elevar a inflação global e provocar desacelerações econômicas. Quase metade da ureia comercializada no planeta é produzida na região do Golfo, e qualquer paralisação nesses embarques pode comprometer seriamente a produção agrícola e a oferta global de alimentos. Ao mesmo tempo, enquanto os países do Golfo aceleram seus investimentos trilionários para se tornarem referências globais em centros de dados, logística baseada em IA e finanças digitais, a instabilidade reduz a confiança do setor e ameaça travar o desenvolvimento da infraestrutura digital que sustentará a próxima fase da economia mundial.
Sul Global: Crise Trans-regional
Os efeitos dessa guerra ultrapassam não apenas o Oriente Médio e as grandes capitais do Ocidente, mas também alcançam regiões centrais da Ásia, África e América Latina. Como um gateway logístico e humanitário fundamental, os EAU oferecem apoio, recursos financeiros e estruturas essenciais de cadeia de suprimentos para economias emergentes que sofrem as pressões inflacionárias mais intensas sempre que a instabilidade no Golfo provoca a escalada dos preços de energia.
Essa ruptura fica clara, por exemplo, no corredor Brasil–EAU, que se transformou em um ambiente de alto risco, onde tensões logísticas imediatas se chocam com esforços de integração estrutural de longo prazo. O papel do Brasil como superpotência agrícola depende diretamente do acesso contínuo aos insumos industriais provenientes do Golfo, já que a região é a principal fornecedora de ureia comercializada globalmente.
Este “estilhaço econômico” estende-se à região mais ampla da América Latina, onde os EAU foram responsáveis por 77% de todos os investimentos do CCG entre 2016 e 2022. Ao focar em infraestrutura crítica — como operações de terminais no Peru e no Equador — o Golfo facilita a diversificação estrutural da América Latina e a integração com o Pacífico. Porém, quando o chamado Golfo Global é levado a adotar uma postura defensiva em matéria de segurança, o fluxo de investimentos tecnológicos em energias renováveis e setores digitais diminui, comprometendo a transição para além de um modelo econômico baseado em commodities.
O impacto é talvez mais agudo na África, onde os Emirados Árabes Unidos se consolidaram como o quarto maior investidor do continente, com 110 bilhões de dólares comprometidos entre 2019 e 2023. Hoje, porém, essa parceria enfrenta forte pressão: o bloqueio do Estreito de Ormuz e os ataques às rotas de navegação no Mar Vermelho interromperam o fornecimento de fertilizantes para países como Sudão, Etiópia e Tanzânia, que dependem do Golfo para mais da metade de seus insumos agrícolas transportados por via marítima. Para os exportadores da África Oriental, o conflito criou um verdadeiro embargo logístico. O desvio das rotas para o Cabo da Boa Esperança acrescentou três semanas ao tempo de transporte, provocando uma queda de 25% nas exportações de alto valor do Quênia e de Ruanda destinadas aos mercados do Oriente Médio e da Ásia.
A Segurança é Indivisível
Apesar desses riscos, a guerra e em curso se apoia na perigosa crença de que suas consequências podem ser isoladas. Na prática, o papel do Golfo como elo central das redes globais o transforma em um ponto decisivo para a prosperidade mundial. Se sua estabilidade for abalada, os impactos se espalharão das salas de reuniões de startups de tecnologia na Índia aos portos da Tanzânia e aos mercados agrícolas do Brasil.
A comunidade internacional precisa reconhecer que a segurança dos países do CCG vai muito além de um assunto regional. Sua estabilidade é um pilar da ordem global interconectada. O silêncio dos Emirados Árabes Unidos e de seus vizinhos não indica fragilidade; é sua principal ferramenta para reduzir tensões. Os países do Sul Global, em especial, devem apoiar esses esforços diplomáticos, pois um conflito no Golfo representa um ataque direto à economia mundial.
O momento exige estratégias rápidas e abrangentes de gestão e redução de crises, com a participação de todos os atores relevantes. Embora os Emirados e seus parceiros do CCG sigam comprometidos em atuar como motores de crescimento, é essencial apagar as chamas da guerra, não intensificá-las.
João Bosco Monte é o Presidente do Instituto Brasil África; Mohammed Baharoon é Diretor-Geral do B’huth (Centro de Pesquisa de Políticas Públicas de Dubai) e Narayanappa Janardhan é Diretor de Pesquisa da Academia Diplomática Anwar Gargash, Abu Dhabi.