colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics

Para enxergar o óbvio

No tabuleiro de xadrez da política, por vezes, enxergar o óbvio é mais difícil do que parece
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

A política não faz sentido sem uma preocupação com seu impacto na vida das pessoas. Isso pode parecer óbvio, mas diante do descalabro que vivemos e do desastre produzido por nossas lideranças, nunca é demais lembrar a frase de Orwell, segundo a qual enxergar o que se encontra diante do seu nariz exige grande esforço.

Nossos políticos e certos grupos partidários, bem como parte da elite econômica, chegou ao topo sem preocupar-se muito com as consequências de seus métodos e das políticas públicas para a população. O objetivo, em muitos casos, foi amealhar poder e fortuna como fins em si mesmos, sem maiores preocupações sobre o impacto da perseguição de objetivos privados sobre a coisa pública. 

A atual confusão em que o país se encontra atende a muitos interesses, mas, sem sombra de dúvidas, nenhum deles é o dos cidadãos que todos os dias se espremem em transportes públicos ou são afetados pela incerteza acerca do número de refeições diárias.

Vimos um ano de 2020 traumático, forças políticas dispersas entre a negação e o silêncio e, por incrível que pareça, após a apoteose negacionista marcada pelas comemorações de Réveillon e Carnaval, o país torna-se o epicentro da pandemia da COVID-19. Para além de todo o sofrimento causado aos familiares dos mais de 300 mil brasileiros mortos até aqui, o mundo político segue sem conseguir estabelecer uma agenda prioritária mínima em socorro aos setores mais vulneráveis da sociedade. 

À medida que a renda das classes B, C e D são gradativamente ameaçadas, os ganhos da estabilidade econômica comprometidos e a entropia da governança pública avança a galope, o país é tomado por uma enorme insensibilidade decisória. Obviamente que concessões discursivas foram feitas aqui e acolá, fala-se o tempo todo de vacinação, mas, não se fala quase nada sobre políticas públicas distributivas e redistributivas, e o apego ao tratamento precoce e as críticas ao afastamento social introduzem elementos de dúvida a seriedade de tais concessões.

Alguns setores que antes olhavam apenas seu umbigo parecem estar despertando para algo trivial, porém que também deve ser reiterado, para usar a sabedoria contida na frase de Orwell. O futuro de cada um de nós, inclusive da elite política e econômica, depende do futuro de todo o país e, sobretudo, da correção das desigualdades obscenas, das injustiças flagrantes e da exclusão sistemática da grande maioria da população. 

Política é feita de gente. E gente fala, chora, sangra e se revolta. E se sobra soberba em vários tomadores de decisão, falta prudência, vista por Cícero como “saber distinguir as coisas desejáveis das que convém evitar”. E se o desejo do poder é uma constante, vale evitar os humores populares naquilo que eles tenham de mais imprevisível. Sim, porque a paciência vai se esgotando, a destituição e o desamparo levam ao desespero, e o país como um todo pode entrar em ebulição. É por isso que a política precisa ser uma atividade elevada, de verdadeiro serviço público, em que a palavra República signifique realmente o cuidado com a res publica, a coisa pública e o interesse geral. Passou da hora de que os políticos – e não apenas as honrosas exceções entre eles – passem a olhar o interesse da gente comum. É isso ou terão de enfrentar as consequências imprevisíveis da fúria popular e a da descrença crescente nas instituições.

Relacionadas
Poder
Refletir acerca do poder e de suas atribuições é um desafio que se coloca para a Ciência Política e para a literatura. Usando João Ubaldo Ribeiro como referência, buscamos responder quem manda no governo Bolsonaro pós-reforma ministerial
Superpotências
O tempo presente reserva um grande desafio para a diplomacia brasileira, a retomada de uma inserção internacional pragmática e descomprometida com interesses ideológicos de ocasião. Somente isto permitirá a retirada de vantagens comparativas do crescente embate entre os Estados Unidos e a China
O poder da palavra
George Orwell alertou, no século passado, para as distorções na linguagem política para a defesa do indefensável. No entanto, o autor não imaginou a degradação do discurso político na defesa nua e crua da brutalidade
Faz sentido pensar um Brasil que há muito deixou cair a máscara de uma democracia racial, de um país que se considera modelo de tolerância e que oferece, pela chamada meritocracia, oportunidades a todos seus filhos que trabalham e lutam?
Seja à direita ou à esquerda, de tempos em tempos o eleitorado, em um comportamento de manada, parece marchar na direção de alguma figura que se coloca como o instrumento de resolução dos problemas nacionais
A capacidade do sistema político de dar respostas e superar a polarização paralisante determinará em boa medida o êxito dos EUA no enfrentamento de desafios globais
Inscreva-se na newsletter

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e Política de Cookies. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.