colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics

Para enxergar o óbvio

No tabuleiro de xadrez da política, por vezes, enxergar o óbvio é mais difícil do que parece
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A política não faz sentido sem uma preocupação com seu impacto na vida das pessoas. Isso pode parecer óbvio, mas diante do descalabro que vivemos e do desastre produzido por nossas lideranças, nunca é demais lembrar a frase de Orwell, segundo a qual enxergar o que se encontra diante do seu nariz exige grande esforço.

Nossos políticos e certos grupos partidários, bem como parte da elite econômica, chegou ao topo sem preocupar-se muito com as consequências de seus métodos e das políticas públicas para a população. O objetivo, em muitos casos, foi amealhar poder e fortuna como fins em si mesmos, sem maiores preocupações sobre o impacto da perseguição de objetivos privados sobre a coisa pública. 

A atual confusão em que o país se encontra atende a muitos interesses, mas, sem sombra de dúvidas, nenhum deles é o dos cidadãos que todos os dias se espremem em transportes públicos ou são afetados pela incerteza acerca do número de refeições diárias.

Vimos um ano de 2020 traumático, forças políticas dispersas entre a negação e o silêncio e, por incrível que pareça, após a apoteose negacionista marcada pelas comemorações de Réveillon e Carnaval, o país torna-se o epicentro da pandemia da COVID-19. Para além de todo o sofrimento causado aos familiares dos mais de 300 mil brasileiros mortos até aqui, o mundo político segue sem conseguir estabelecer uma agenda prioritária mínima em socorro aos setores mais vulneráveis da sociedade. 

À medida que a renda das classes B, C e D são gradativamente ameaçadas, os ganhos da estabilidade econômica comprometidos e a entropia da governança pública avança a galope, o país é tomado por uma enorme insensibilidade decisória. Obviamente que concessões discursivas foram feitas aqui e acolá, fala-se o tempo todo de vacinação, mas, não se fala quase nada sobre políticas públicas distributivas e redistributivas, e o apego ao tratamento precoce e as críticas ao afastamento social introduzem elementos de dúvida a seriedade de tais concessões.

Alguns setores que antes olhavam apenas seu umbigo parecem estar despertando para algo trivial, porém que também deve ser reiterado, para usar a sabedoria contida na frase de Orwell. O futuro de cada um de nós, inclusive da elite política e econômica, depende do futuro de todo o país e, sobretudo, da correção das desigualdades obscenas, das injustiças flagrantes e da exclusão sistemática da grande maioria da população. 

Política é feita de gente. E gente fala, chora, sangra e se revolta. E se sobra soberba em vários tomadores de decisão, falta prudência, vista por Cícero como “saber distinguir as coisas desejáveis das que convém evitar”. E se o desejo do poder é uma constante, vale evitar os humores populares naquilo que eles tenham de mais imprevisível. Sim, porque a paciência vai se esgotando, a destituição e o desamparo levam ao desespero, e o país como um todo pode entrar em ebulição. É por isso que a política precisa ser uma atividade elevada, de verdadeiro serviço público, em que a palavra República signifique realmente o cuidado com a res publica, a coisa pública e o interesse geral. Passou da hora de que os políticos – e não apenas as honrosas exceções entre eles – passem a olhar o interesse da gente comum. É isso ou terão de enfrentar as consequências imprevisíveis da fúria popular e a da descrença crescente nas instituições.

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