“14 ou nada?”: por que mais de 143 mil eleitores anularam o voto digitando o número de Renan Santos? Militância de Renan Santos vira alvo de disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro no 2º turno (Foto: Unsplash / Kaue Martins Bergamasco) Fiéis eleitores

“14 ou nada?”: por que mais de 143 mil eleitores anularam o voto digitando o número de Renan Santos?

Número usado por Renan Santos no primeiro turno apareceu entre os mais digitados em votos nulos na disputa de 25 de outubro; ex-candidato da Missão não apoiou nenhum dos finalistas

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  • No segundo turno das eleições presidenciais de 2026, realizado em 25 de outubro, 143 372 eleitores registraram o número 14, anulando o voto.
  • O número 14 foi a terceira sequência mais usada em votos nulos, ficando atrás de 00 (1,48 mi) e 11 (162,3 mi), segundo dados abertos do TSE.
  • A sequência havia sido utilizada pelo candidato Renan Santos (Missão) no primeiro turno, onde obteve 2,68 mi de votos e não apoiou nenhum dos finalistas.
  • A maior concentração de votos nulos com 14 ocorreu em São Paulo (13 180 registros), seguida pelo Rio de Janeiro (5 055).

Ao menos 143.372 eleitores digitaram o número 14 e anularam o voto para presidente no segundo turno das eleições de 2026, realizado em 25 de outubro. O número havia sido utilizado no primeiro turno pelo candidato Renan Santos (Missão), que terminou a disputa presidencial na quarta colocação e não declarou apoio a nenhum dos dois concorrentes que avançaram à etapa final.

Levantamento da coluna a partir dos dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que o 14 foi o terceiro número mais registrado entre os votos nulos do segundo turno. Ficou atrás apenas do 00, digitado 1.483.343 vezes, e do 11, com 162.324 registros. Dados do TSE após a apuração do segundo turno mostram que 1,12% dos eleitores que compareceram às urnas neste domingo, 25, votaram em branco, o equivalente a aproximadamente 1,4 milhão de pessoas. Outros 2,12% anularam o voto, cerca de 2,7 milhões.

No primeiro turno, Renan recebeu 2.675.887 votos nominais em todo o País. O volume de votos anulados com o número 14 na etapa seguinte equivale a cerca de 5,36% da votação obtida pelo candidato, embora os dados isolados não permitam determinar a intenção de cada eleitor que digitou a sequência.

Números mais digitados entre os votos nulos

Número Votos nulos
00 1.483.343
11 162.324
14 143.372
12 98.490
99 78.143
31 77.823
15 77.389
55 61.750
10 38.803
33 35.576

A maior quantidade de votos nulos com o 14 ocorreu em São Paulo (SP), onde a sequência foi digitada 13.180 vezes. O Rio de Janeiro apareceu em seguida, com 5.055 registros.

As cidades com os maiores números foram:

  • São Paulo (SP): 13.180;
  • Rio de Janeiro (RJ): 5.055;
  • Brasília (DF): 2.780;
  • Curitiba (PR): 2.332;
  • Fortaleza (CE): 2.276;
  • Belo Horizonte (MG): 2.251;
  • Salvador (BA): 1.572;
  • Porto Alegre (RS): 1.249;
  • Recife (PE): 1.213;
  • Guarulhos (SP): 1.177.

A coluna ouviu eleitores de Renan Santos, que digitaram o número 14 nas urnas tanto no primeiro quanto no segundo turno, ou aqueles que viraram o voto para outros candidatos. Os personagens ouvidos optaram por manter o anonimato e por isso foi escolhido nomes fictícios para suas falas.

Kaique Alves [nome fictício], de 27 anos, afirmou à coluna “apesar do Renan ter aberto para a militância votar em quem quiser, acredito em um projeto e país, acreditamos na Missão. Esse projeto não seria concretizado com Flávio e muito menos com Lula (PT)“. Já outra eleitora de 23 anos que votou 14 no primeiro turno, mas optou por Lula no segundo, diz que entende o Renan e a Missão, mas a possibilidade de eleger Flávio Bolsonaro tendo maioria no Congresso “seria devastador”.

Já o estudante Lucas Valle [nome fictício], de 23 anos, afirmou que votou no Renan, mas também virou o voto no petista por alguns fatores, especialmente religiosos: “Sou católico de berço, praticante e já fui seminarista por dois anos. A instrumentalização da fé alheia foi determinante na minha escolha. O PT fez isso, inegável, mas o bolsonarismo vem repetindo isso cotidianamente desde 2018, e inclusive no meu círculo pessoal, eles são absurdamente ridículos tentando argumentar com verdades incompletas, usando desonestidade intelectual“.

Lucas criticou o eleitor bolsonarista e a campanha de Flávio Bolsonaro (PL), por “não descerem do pedestal e dialogar”, tecendo críticas específicas à Pablo Marçal, o influenciador “Chief” e ao deputado federal Nikolas Ferreira.

“Nesses dois aí, por exemplo teve uma militante deles que veio me falar que não precisava do meu voto, porque eu sou criança que tira foto com o Kim, sou um péssimo católico por não declarar voto no Flávio e não conheço a minha religião. E ainda ficou me mandando estudar ou ir fazer uma faculdade presencial (embora eu já esteja fazendo)“, disse.

Renan não apoiou candidatos no segundo turno

Durante a campanha da etapa decisiva, Renan Santos manteve distância dos dois candidatos que permaneceram na corrida presidencial e afirmou que não apoiaria nenhum deles.

A postura guarda relação com uma posição já adotada pelo então dirigente do Movimento Brasil Livre (MBL) quatro anos antes. Na eleição de 2022, Renan defendeu publicamente a anulação do voto no segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, em meio à estratégia do movimento de rejeitar simultaneamente petismo e bolsonarismo. Após a definição da eleição de 2026, contudo, o ex-candidato descartou as alegações de fraude levantadas por apoiadores de Flávio Bolsonaro e atribuiu peso à campanha realizada pelo campo petista e à rejeição enfrentada pelo bolsonarismo.

“Não teve fraude na eleição. Todo mundo que viu a campanha sabe que a campanha do petismo foi colossal. E a do bolsonarismo também foi”, afirmou Renan em publicações feitas nos stories do Instagram.

Na avaliação do ex-candidato, a capacidade eleitoral do bolsonarismo para conquistar cargos legislativos e governos estaduais não necessariamente se reproduz em uma disputa majoritária nacional. “O antibolsonarismo é maior que o antipetismo. Acho que isso está provado”, declarou.

Renan também relatou conhecer mulheres que nunca haviam votado no PT, mas optaram por Lula no segundo turno devido à rejeição a integrantes do campo bolsonarista. Nas mesmas publicações, Renan fez uma exortação para que familiares e amigos desencorajassem apoiadores de Flávio Bolsonaro a participar de manifestações contrárias ao resultado das urnas.

“Não deixem as pessoas irem para as ruas. Estou falando sério, não deixem as pessoas correrem risco. Peço de coração”, afirmou. O ex-candidato ainda criticou políticos que colocam sob suspeita o resultado presidencial enquanto reconhecem os próprios mandatos conquistados pelo mesmo sistema eleitoral.

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