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Partidos no interior de São Paulo começam as articulações internas para viabilizar pré-candidaturas; tendência do voto fisiológico e disputa por influência ideológica regional marcam o xadrez eleitoral em Atibaia e Bragança Paulista
Em termos geográficos o Circuito das Águas Paulista pode ser compreendido em dois grandes eixos de influência: a Região Bragantina e a Região das Estâncias. A primeira gravita em torno de Bragança Paulista, com mais de 185 mil habitantes, e Atibaia, com 167 mil habitantes, irradiando influência sobre municípios vizinhos — cerca de 13 cidades-satélite no entorno de ambas. A segunda reúne cidades tradicionalmente ligadas ao turismo e ao setor de serviços, como Socorro, Águas de Lindóia, Lindóia, Serra Negra e demais localidades do circuito.
Ambas regiões são geograficamente ricas, e com uma posição estratégica importante. Por exemplo, como já afirmou o prefeito Daniel Martini (PL) de Atibaia, ao lado do governador Tarcísio de Freitas durante uma coletiva de imprensa, o município está “no meio de tudo”. De fato, ela está. A cidade é servida pela Rodovia Fernão Dias, principal ligação entre São Paulo e Minas Gerais — responsável por liga-lá até Bragança Paulista — e pela Rodovia Dom Pedro I, um dos principais corredores logísticos que conecta o Vale do Paraíba ao interior paulista. Além disso, está localizada a aproximadamente uma hora da capital paulista e a cerca de 50 minutos de Campinas, consolidando-se como um importante polo de integração regional.
Sob o ponto de vista político, o cenário regional apresenta certas peculiaridades. Atibaia é atualmente administrada pelo PL, enquanto Bragança Paulista permanece sob a influência do mesmo grupo político ligado à família Chedid há aproximadamente três décadas. Apesar da relação institucional amistosa entre as duas administrações, a proximidade do calendário eleitoral pode intensificar a disputa por protagonismo regional e evidenciar diferenças políticas e sociais entre os municípios.
É justamente nesse contexto que a coluna acompanha e analisa a dinâmica eleitoral da Região Bragantina e do Circuito das Águas. A proposta aqui é montar um verdadeiro “tabuleiro de xadrez” da política regional, identificando alianças, áreas de influência, potenciais candidaturas e movimentos partidários que poderão moldar a disputa de 2026.
Lembrando que, estarão em jogo não apenas a Presidência da República e os governos estaduais, mas também as cadeiras da Câmara dos Deputados, das Assembleias Legislativas e do Senado Federal, tornando a eleição um dos principais testes de força para as lideranças políticas da região.
Nos bastidores, fontes ligadas ao PL na região adiantaram que Frederick Wassef, ex-advogado de Jair Bolsonaro, dificilmente disputará algum cargo nas eleições deste ano. A informação não foi confirmada oficialmente pelo partido, mas, mesmo assim, Wassef segue acumulando influência política em Atibaia. Em junho do ano passado, Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, anunciou-o como o “presidente regional do partido em Atibaia”. Vale lembrar que Wassef é o responsável pelo escritório onde Fabrício Queiroz foi encontrado e preso em 2020 no âmbito da Operação Anjo, que investigava o suposto esquema de “rachadinhas” no gabinete de Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República.
Do lado do Partido dos Trabalhadores, William Vieira desponta como candidato isolado a deputado federal pela região e deve enfrentar dificuldades para penetrar no conservadorismo ideológico e político local, em vista ainda do voto histórico na região, influenciado tanto pelo atual prefeito de Bragança, Edmir Chedid — que somou oito mandatos consecutivos como deputado estadual antes de renunciar para assumir o Executivo bragantino — quanto pelo PL.
Apesar da forte influência regional, essa força política de Edmir parece não ser traduzida nas disputas para deputado federal. É justamente neste vácuo que o ex-prefeito de Atibaia e atualmente deputado federal, Saulo Pedroso (PSD-SP), vem conquistando espaço — condição que também dificulta a entrada de outros concorrentes não-ideológicos na região. Segundo levantamento desta coluna, Saulo apareceu nas eleições de 2022 com força em sete das oito cidades do Circuito das Águas mapeadas, com desempenho mais expressivo naquela que governou entre 2013 e 2020. Com o desempenho, Saulo obteve mais de 25 mil votos no estado, garantindo a vaga de suplente e assumindo posteriormente a vaga de Marco Antonio Bertaiolli (PSD).
Em 2022, nomes mais “personalistas”, ideologicamente alinhados à esquerda e à direita, conquistaram espaço nas eleições proporcionais: Guilherme Boulos, do PSOL, de um lado, Carla Zambelli e Eduardo Bolsonaro, do PL, do outro. Ainda assim, é nítido o peso fisiológico de nomes ligados à carreiristas políticos locais — e pouco ideológicos.
Para deputado estadual, o Circuito das Águas demonstrou fidelidade à “dinastia Chedid” naquele pleito: Edmir somou votos expressivos para além da Região Bragantina, chegando até Valinhos, cidade já mais próxima da órbita de Campinas.
Já como prefeito, apesar de Chedid ter afirmado recentemente que sairia do União Brasil para o partido do governador Tarcísio, o Republicanos, não há sinalização de que ele concorrerá novamente a campanha proporcional, nem indicação de um nome para sucedê-lo até então — o que deixa um vácuo de influência local. Esse espaço por sua vez pode ser ocupado pelo pré-candidato do PL, o delegado Sandro Montanari, ex-seccional de Bragança e recentemente indicado presidente do partido no município. Seu histórico à frente da seccional da Região Bragantina pode ser um trunfo relevante, especialmente em termos horizontais de influência. Montanari tem sinalizado apoiar a reeleição do governador Tarcísio de Freitas, podendo este ser um expoente de transferências de votos positivo ao pré-candidato, uma vez que Tarcísio apoiará Flávio Bolsonaro (PL) para o pleito Executivo da República. Sandro, no entanto, não está sozinho nessa corrida.
Ainda em Bragança, o vereador Juninho Boi surge também como pré-candidato a deputado estadual, apadrinhado pelo deputado federal Jonas Donizette (PSB) — cuja presença eleitoral na região é ínfima, e sem força de penetração eleitoral em Bragança e Atibaia. Em termos políticos e de influência, Jonas, enquanto ex-prefeito de Campinas, está para sua cidade, assim como Saulo está para Atibaia. Segundo pesquisa da Vox Brasil de junho deste ano, Donizette aparece com aproximadamente 17,7% das intenções de voto estimuladas em Campinas para deputado federal, o principal nome lembrado pelos entrevistados.
No entanto, a principal incógnita é: até que ponto a influência política de Jonas Donizette em Campinas poderá beneficiar a candidatura de Juninho na Região Bragantina? A lógica inversa se aplica de fato. Caso o ex-prefeito dispute a reeleição para a Câmara dos Deputados, é natural que Juninho participe da campanha em seu reduto eleitoral, buscando transferir votos para o aliado. Mas em que momento Juninho terá forças para expandir sua força eleitoral para além de Bragança?
No plano regional o cenário tende a ser mais desafiador para o pré-candidato à deputado estadual. Com o PL fortalecido em Atibaia — segunda maior cidade da Região Bragantina e administrada por um prefeito filiado à legenda —, o PSB deverá enfrentar obstáculos para ampliar sua capilaridade nos municípios do entorno. Soma-se a isso a concentração de capital político de lideranças locais ligadas ao campo conservador do PL, fator que pode limitar a expansão eleitoral da sigla na região.
Segundo a pesquisa da Vox Brasil, a intenção de votos para deputado federal na Região de Campinas, entre brancos, nulos e indecisos, somados superam 43%, uma fatia que os candidatos mais ideológicos tentarão conquistar. Para deputado estadual, a porcentagem é superior a 51%. Aqui três partidos poderão protagonizar uma corrida eleitoral nos moldes europeus ao adotarem estratégias distintas aos partidos do Centro, como PSB, PSD e, em certa instância, do PL.
A novidade destas eleições, a Missão, partido ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), lançou uma pré-candidatura regional: a arquiteta e urbanista Ingrid Cardoso disputará votos no Circuito das Águas. De certo ponto de vista racional — o processo pelo qual escolhas individuais se agregam em decisões coletivas —, Ingrid ocupa um espaço parecido ao de PT e PSOL na região.O eleitor ideológico, já alinhado ao MBL, não é o desafio. O eleitor fiel da Missão já está garantido. O seu desafio será alcançar o “eleitor mediano”, historicamente mais fisiológico e conquistado por políticos tradicionais na região de disputa (e por eleitor mediano, digo o que está mais ao centro da “régua ideológica” no também chamado de espaço euclidiano de preferências).
Ainda assim, Ingrid carrega um diferencial: o perfil mais à direita do movimento, o que, evidentemente, distancia do eleitorado de PT e PSOL, mas que pode se traduzir em capital político regional — especialmente com o apoio de Kim Kataguiri, deputado federal pelo Missão. Campinas foi a segunda cidade que mais votou em Kataguiri, o que pode favorecer Ingrid com o público mais jovem (embora ela possar largar em desvantagem diante de Montanari). Seu potencial está em capturar o voto de direita não bolsonarista — mas dependerá de como a tradicional militância do MBL conseguirá projetar seu nome pelo restante da Região Bragantina.
A Região Metropolitana de Campinas (RMC) tende a influenciar Bragança e Atibaia mais pelo viés ideológico do que fisiológico. Entendo que em redutos eleitorais tradicionais, o eleitor mediano tende a votar em nomes já consolidados; partidos como Missão, PT e PSOL, por outro lado, precisam penetrar em uma lógica dominada pelo “voto comum”, ao passo de mobilizar novas lideranças cidades vizinhas para ganhar espaço.
Nos bastidores, fontes ligadas ao PT na região afirmam que a organização para a corrida eleitoral está sendo finalizada. Ana Perugine, deputada estadual do partido e pré-candidata à reeleição, tem força política considerável em Hortolândia — o que abre caminho de consolidação eleitoral em Americana, Sumaré, Monte Mor, Paulínia e cidades vizinhas. Já em Valinhos, Marcelo Yoshida (PT) desponta como pré-candidato a deputado estadual, o que pode descentralizar os votos hoje concentrados em Perugine, mas também alcançar municípios mais distantes, como Vinhedo e Louveira, até chegar à “terra de ninguém” eleitoral de Itatiba — território de transição para uma Região Bragantina hoje dominada pela direita.
O desafio não é, porém, impossível: em 2022, Eduardo Suplicy (PT) somou votos em praticamente todo o Circuito das Águas e em Campinas, sendo o deputado estadual mais votado do estado naquele ano, com aproximadamente 807 mil votos.
O cenário político nacional também influencia diretamente as disputas regionais. Levantamento recente da pesquisa Genial/Quaest mostra que a desaprovação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) oscila entre 48% e 49%, em um quadro de estabilidade dentro da margem de erro. Na Região Metropolitana de Campinas, o cenário é mais equilibrado. Segundo pesquisa do instituto Vox Brasil, 48,5% dos entrevistados aprovam a gestão federal, enquanto 46,3% a desaprovam. O levantamento foi realizado com margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%, indicando um eleitorado regional mais dividido do que o observado no panorama nacional.