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Nos últimos anos, milhares de profissionais decidiram aprender programação acompanhando uma transformação bastante concreta do mercado. À medida que empresas de diferentes setores passaram a desenvolver seus próprios sistemas, aplicativos e plataformas, aumentou também a necessidade de pessoas capazes de construir e manter essa infraestrutura tecnológica. A Inteligência Artificial começa a provocar uma nova transformação, […]
Nos últimos anos, milhares de profissionais decidiram aprender programação acompanhando uma transformação bastante concreta do mercado. À medida que empresas de diferentes setores passaram a desenvolver seus próprios sistemas, aplicativos e plataformas, aumentou também a necessidade de pessoas capazes de construir e manter essa infraestrutura tecnológica.
A Inteligência Artificial começa a provocar uma nova transformação, mas acredito que ainda estamos olhando para ela principalmente pelo lado das ferramentas. Discutimos quais atividades poderão ser automatizadas, quanto um desenvolvedor consegue produzir utilizando IA ou quais profissões serão mais impactadas, quando existe outra questão igualmente importante: quem estamos preparando para trabalhar em estruturas nas quais parte da execução poderá ser realizada por agentes?
A forma de organizar o trabalho começa a mudar
Durante muito tempo, organizamos as equipes de tecnologia a partir da distribuição de tarefas entre pessoas. Uma squad poderia reunir desenvolvedores, profissionais de produto, qualidade, dados e design, cada um responsável por determinadas etapas até que um produto ou uma funcionalidade chegasse ao usuário.
Os agentes de Inteligência Artificial começam a alterar essa lógica porque podem assumir sequências inteiras de atividades, interagir com ferramentas e sistemas e participar de fluxos que antes dependiam da execução humana em praticamente todas as etapas. Isso não significa que as equipes deixarão de existir, mas que sua composição e, principalmente, a divisão do trabalho tendem a mudar.
O Work Trend Index 2026, da Microsoft, analisou sinais de produtividade e ouviu 20 mil profissionais que utilizam IA em dez países, entre eles o Brasil. Entre os usuários mais avançados identificados pela pesquisa, já aparecem profissionais trabalhando com fluxos de múltiplas etapas e sistemas com vários agentes, inclusive decidindo quais partes do trabalho devem permanecer com pessoas e quais podem ser automatizadas. (microsoft.com)
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes da transformação atual. Se parte da execução passa a ser realizada por agentes, o trabalho humano também começa a se deslocar para definir objetivos, organizar fluxos, avaliar entregas e corrigir desvios, mas a revisão humana continua sendo fundamental, especialmente quando uma decisão pode gerar impacto financeiro, jurídico, operacional ou diretamente sobre um cliente.
Estamos ensinando a usar IA, mas precisamos ensinar a conduzi-la
Nos últimos anos, capacitação em Inteligência Artificial se tornou quase sinônimo de aprender a utilizar ferramentas generativas e escrever bons prompts. Esse conhecimento tem valor, mas me parece insuficiente para o tipo de ambiente profissional que começa a surgir.
Um profissional responsável por processos que utilizam agentes precisará compreender o problema antes de automatizá-lo, decidir quais tarefas podem ser delegadas, determinar quais dados e ferramentas um agente poderá acessar e criar critérios para avaliar o que está sendo produzido. Também precisará definir em quais etapas a revisão humana será obrigatória, porque utilizar agentes não significa retirar pessoas do processo, mas reorganizar onde a participação humana é mais necessária.
A própria pesquisa da Microsoft mostra essa preocupação entre quem já utiliza IA no trabalho. Quando perguntados sobre quais habilidades humanas ganham importância conforme a Inteligência Artificial assume mais atividades, 50% apontaram o controle de qualidade das respostas da IA e 46% citaram pensamento crítico. (microsoft.com)
Por isso, acredito que a próxima etapa da capacitação precisa avançar do uso da ferramenta para a capacidade de organizar o trabalho realizado com ela. Programação e dados continuam importantes, mas passam a dividir espaço com integração de sistemas, avaliação, segurança, governança e, principalmente, com a capacidade de definir como pessoas e agentes devem atuar dentro de um mesmo processo.
Uma nova formação para quem já está no mercado
Existe uma oportunidade importante entre os profissionais que já estão dentro das empresas. Desenvolvedores, engenheiros de dados, arquitetos, profissionais de produto e outras pessoas que já participam da construção de soluções tecnológicas podem incorporar novas competências para trabalhar com estruturas baseadas em agentes.
Consultorias de software também começam a lidar com essa necessidade a partir da formação dos próprios times. Na Luby, por exemplo, desenvolvedores têm acesso, por meio de parceiros, a oportunidades de capacitação e especialização em temas relacionados à Inteligência Artificial, permitindo que profissionais que já possuem experiência em desenvolvimento acrescentem novas competências à sua atuação.
É nesse contexto que funções como a de Forward Deployed Engineer, ou FDE, ajudam a mostrar uma das possíveis evoluções desse mercado. O FDE é um profissional que atua próximo à implementação de soluções em ambientes reais, combinando conhecimentos de software, dados, integração e Inteligência Artificial para fazer com que diferentes tecnologias funcionem dentro de um processo específico.
Com o avanço dos agentes, esse tipo de atuação ganha uma nova dimensão. Imagine uma empresa que queira automatizar parte do atendimento ao cliente: um agente pode interpretar a solicitação, outro consultar sistemas internos e um terceiro organizar uma possível resposta, mas ainda será necessário definir como esses agentes interagem, quais informações podem acessar, quais decisões podem tomar sozinhos e em quais situações um profissional deve obrigatoriamente revisar o resultado.
É justamente esse tipo de competência que acredito que precisaremos desenvolver com mais intensidade. Não se trata apenas de criar agentes, mas de saber projetar ambientes nos quais vários deles possam executar partes de um processo sem que a empresa perca controle, segurança ou capacidade de revisão.
Nos últimos anos, o mercado investiu bastante em formar pessoas capazes de desenvolver software porque essa era uma competência necessária para acompanhar a transformação digital das empresas. Talvez estejamos chegando ao momento de fazer um movimento semelhante com a Inteligência Artificial, preparando profissionais para construir e supervisionar processos nos quais pessoas, sistemas tradicionais e agentes passarão a trabalhar de forma cada vez mais integrada.
Se essa transformação realmente avançar, a questão para empresas e instituições de ensino não será apenas quantos profissionais sabem utilizar Inteligência Artificial. Será quantos estarão preparados para estruturar o trabalho realizado por agentes, avaliar o que eles produzem e garantir que a revisão humana continue presente nos momentos em que ela é necessária.