Pandemia

Um ano de pandemia de covid-19 no Brasil

Brasil tem mais de 10,3 milhões de casos registrados e mais de 251 mil mortes pela doença
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Um ano de pandemia no Brasil. Um ano de incertezas, sofrimento, medo, ansiedade. “Trabalhando com doenças infecciosas em toda minha carreira eu nunca imaginei que chegaríamos em algo tão próximo disso”, afirma o imunologista Gustavo Cabral, coordenador de pesquisas na USP na área de vacinas.

O primeiro caso de covid-19 foi confirmado oficialmente pelo Ministério da Saúde no dia 26 de fevereiro de 2020. Era feriado de carnaval. O paciente era um homem que na época tinha 61 anos e tinha estado na Itália. Morador de São Paulo, ele recebeu o diagnóstico no dia anterior, em um hospital particular da capital paulista. Desde então, o Brasil já acumula mais de 10,3 milhões de casos e mais de 251 mil mortes pela doença. Nas últimas 24 horas, foram 1.582 óbitos, segundo o consórcio de veículos de imprensa. É a maior marca registada até agora.

Mais do que números, o Brasil acumula histórias de pessoas que morreram, de famílias que perderam parentes, de pacientes que ficaram meses no hospital, de gente que teve a doença e não teve sintomas.

Teresinha Mauro tem 64 anos e teve covid-19 em outubro do ano passado. Começou com uma dor de cabeça que ela achou que fosse sinusite. Depois veio a febre. Ela e a irmã fizeram o exame para saber se estavam com a doença. O dela deu negativo e o da irmã positivo. Teresinha repetiu o PCR e novamente o resultado foi negativo.

Os sintomas foram aumentando e então sua filha decidiu comprar um oxímetro. E o resultado da medição a fez ir para o pronto-socorro. A tomografia indicou que ela estava com pneumonia no pulmão esquerdo e, segundo os médicos, era decorrente da covid-19. “Você não tem ar para respirar. Parecia que o ar não existia. Eu não conseguia levantar da cama, eu não conseguia ir até a cozinha, eu não conseguia tomar banho sozinha”, conta.

Teresinha não foi internada, ficou em repouso em casa. Precisou fazer exercícios de fisioterapia para melhorar a respiração e demorou 30 dias para se recuperar. “Em novembro eu conseguia andar assim meio quarteirão, um quarteirão, mas era muito difícil”. E até hoje ela sente os efeitos da doença, por isso ainda faz reabilitação cardiopulmonar. “Morro de saudade de ver o mar”, diz já fazendo planos para depois da vacinação.

Se para Teresinha o primeiro sintoma foi uma dor de cabeça para a advogada e psicanalista Juliana Aguiar, de 43 anos, foram dores nos rins. Não que ela imaginasse logo de cara que pudesse ser covid-19. Afinal, ela já havia tido outras vezes infecção nos rins. Só que dessa vez foi diferente. “A dor não passava, só piorava. Fui piorando de um jeito que eu nunca fiquei. E comecei a ter febre. Fiz o exame de covid-19 porque eu sabia que eu estava estranha, mas não sabia o que era”, conta.

O exame deu positivo e os médicos explicaram pra ela que o coronavírus baixou sua imunidade, por isso ela teve a infecção nos rins. Ela tratou a infecção e ainda está em casa isolada, se recuperando da covid-19. “Eu estou ansiosa pra tomar a vacina. Muito mais agora. Eu fiquei muito ruim, de um jeito que eu nunca tinha ficado na minha vida. Eu tenho medo de pegar de novo”, diz.  

Depois de um ano da pandemia, médicos e cientistas já conhecem melhor o novo coronavírus. Todos sabemos da importância do distanciamento social, das medidas de higiene e do uso da máscara. As vacinas também chegaram, mas ainda em quantidade insuficiente.

“A gente aprendeu muito. A gente tem hoje uma base muito mais concreta de ciência no entendimento do vírus, com algumas dúvidas. Cada dia é um novo aprendizado. E temos uma coisa que é fantástica: temos vacina”, afirma Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.

Vacinas

Pouco mais de 6,3 milhões de pessoas receberam até agora a primeira dose da vacina, segundo o consórcio de veículos de imprensa. 1,7 milhão de pessoas receberam a segunda dose.

Duas vacinas estão sendo aplicadas no Brasil: a Coronavac, do Instituto Butantan, e a da Oxford/AstraZeneca, que será produzida pela Fiocruz. O uso emergencial dos dois imunizantes foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária no dia 17 de janeiro. Mas a quantidade de doses disponíveis por enquanto não é suficiente nem para vacinar os grupos prioritários.

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A enfermeira Mônica Calazans foi a primeira pessoa a ser vacinada no Brasil no dia 17 de janeiro de 2021 (Foto: Governo do Estado de São Paulo)

“O programa Nacional de Imunização, imagina que é um carro de Fórmula 1, uma coisa extraordinária, mas que é dirigido por uma pessoa amadora. O Programa Nacional de Imunização é dirigido por amadores”, critica o imunologista Gustavo Cabral.

A médica Isabella Ballalai explica que o Brasil será autossuficiente em vacina graças ao Instituto Butantan e à Fiocruz, mas não agora. “A estratégia de vacinação está correta. O que a gente não tem é vacina”, diz. “O Brasil é um país grande e precisa da autossuficiência. Agora o que precisa ficar claro é: vamos produzir quando e de quanto em quanto tempo. Butantan e Fiocruz já apresentaram o cronograma de entrega. E esse cronograma não atende a autossuficiência do Brasil hoje. A gente não está conseguindo vacinar minimamente o grupo de risco”, acrescenta.

A vacina da Pfizer foi a primeira a ter o registro definitivo concedido pela Anvisa. Mas não há até agora acordo entre o governo federal e o laboratório para a compra de doses.

Nesta quinta-feira (25), o Ministério da Saúde informou que assinou contrato para a compra de 20 milhões de doses da vacina Covaxin, fabricada na Índia. Oito milhões de doses devem começar a chegar em março.

Enquanto não há vacina para todos, os casos de Covid-19 seguem aumentando e uma das preocupações dos especialistas são as novas variantes do vírus.

Novas variantes

Se no início da pandemia, não tínhamos informações sobre o novo coronavírus, agora o desafio são as variantes. “O que mudou de lá pra cá é que quanto mais a gente aprende, mais desafios o vírus traz. A gente tem hoje o desafio das variantes”, afirma Isabella Ballalai.

Araraquara, no interior de SP, decretou em lockdown depois de registrar casos das novas variantes do coronavírus na cidade. foto: Instagram/Prefeitura de Araraquara

Segundo o Ministério da Saúde, até 20 de fevereiro, foram registrados no Brasil 204 casos das variantes do Reino Unido e do Amazonas. O imunologista Gustavo Cabral explica que todo vírus passa por mutações, mas ressalta que é importante controlar a circulação do vírus para evitar mais mutações. “Quanto mais a dispersão do vírus, tem a possibilidade de surgir novas variantes”.

Para controlar a disseminação do vírus, o distanciamento social e as medidas de restrição continuam sendo fundamentais. “Falta um Programa Nacional de Conscientização para que a população compreenda que a participação dela no combate à pandemia é essencial. Só que o que nós tivemos até agora foi um Programa Federal de Desorientação”, critica Gustavo Cabral.

“O que não dá pra entender é a percepção das pessoas sobre a pandemia hoje. Hoje temos mais casos que em agosto. A flexibilização deu para a população uma noção de que tudo voltou ao normal e as pessoas estão voltando ao normal. Só que não é verdade. Estamos com mais casos do que em agosto. E com a variante circulando entre nós a tendência é que tenhamos muito mais casos”, diz Isabella.

E quando a pandemia vai acabar? Essa é a pergunta que todos nós fazemos todos os dias, mas a resposta ainda não existe. “Todos queremos a definição, mas não é possível definir. O que a gente pode dizer é que se a gente não tomar uma medida planejada e estratégica no país, não teremos um bom cenário no futuro. 2021 certamente não será um ano normal”, afirma a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.

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