Ataques ao Irã reacendem o paradoxo nuclear: quem não tem a bomba pode virar alvo
Há uma reflexão incômoda circulando entre analistas de geopolítica. Ela é tão perturbadora que, como pacifista, eu hesito até em formulá-la. Mas é impossível ignorá-la: o grande erro de Ali Khamenei pode ter sido não ter feito sua própria bomba atômica.
Não sou eu quem diz isso.
Quem diz são especialistas que observam a lógica fria da dissuasão nuclear. A mesma lógica que, desde a Guerra Fria, sustenta um paradoxo: países que têm a bomba não são atacados. Países que não têm, são.
Um único teste nuclear, dizem esses analistas, talvez tivesse sido suficiente para afastar o risco do bombardeio americano articulado em estreita coordenação com Israel.
Bastaria uma demonstração de capacidade, não necessariamente o uso, para mudar o cálculo estratégico.
Repito: não concordo com essa tese.
Mas eu a ouço.
E, quando ouço, não consigo deixar de pensar: e se eles estiverem certos?
E se a simples existência de um artefato nuclear fosse suficiente para impedir que uma bomba explodisse no próprio quintal?
Se for assim, então a mensagem que está sendo enviada ao mundo, pelos caminhos mais tortos e perigosos, é clara: quem quiser sobreviver, construa sua bomba.
É um pensamento terrível.
Mas é um pensamento que ganha força cada vez que um país sem armas nucleares é atacado, enquanto potências nucleares são tratadas com cautela quase ritual.