Às vésperas do primeiro turno, o efeito teflon de Flávio Bolsonaro Flávio Bolsonaro. Foto: The Jerusalem Post

Às vésperas do primeiro turno, o efeito teflon de Flávio Bolsonaro

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No próximo domingo, 4 de outubro, os brasileiros vão às urnas. Os principais candidatos à Presidência são Lula (PT), que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), o desafiante. Alguns especialistas já trabalham com a possibilidade de que um deles vença ainda no primeiro turno, ora com ligeira vantagem para o candidato do […]

No próximo domingo, 4 de outubro, os brasileiros vão às urnas. Os principais candidatos à Presidência são Lula (PT), que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), o desafiante. Alguns especialistas já trabalham com a possibilidade de que um deles vença ainda no primeiro turno, ora com ligeira vantagem para o candidato do PL ora com vantagem para o incumbente. Por enquanto, vislumbra-se um potencial segundo turno entre os dois.

Flávio Bolsonaro foi ungido candidato pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, inelegível e condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) como líder da trama golpista, pena que hoje cumpre em prisão domiciliar. Há meses, asseverei que Flávio carregava um bônus (o sobrenome e o capital político do pai) e um ônus: as suspeitas, até hoje não esclarecidas de forma convincente, envolvendo “rachadinhas”, a compra de uma mansão e de outros imóveis e, mais recentemente, suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do pai. Em 2018, Jair Bolsonaro foi chamado de candidato teflon, pois nenhum escândalo grudava nele. Talvez Flávio, que não herdou o carisma do pai, tenha herdado essa camada antiaderente. O desgaste do áudio em que pede dinheiro a Vorcaro, com uma intimidade pouco usual, ocorreu ainda na pré-campanha; depois, veio o rompimento público entre Michelle Bolsonaro e o enteado; e, a cada passo, as explicações de Flávio eram rapidamente desmentidas por apurações jornalísticas. Pouco importou. Nada disso foi capaz de lhe tirar os votos já cristalizados.

Sílvio Cascione, em artigo recente no Estadão (18/09/26), afirmou que a crise envolvendo o Supremo trouxe à tona o desejo de mudança de um eleitorado desencantado com a política, o que pode, indiretamente, até ajudar o PL. O ponto fulcral do texto, contudo, está no que o autor reconhece como a qualidade superior do marketing de Flávio Bolsonaro: o senador tem sido disciplinado, em discursos e programas, ao se concentrar em três pilares: 1) apresentar-se como uma versão mais jovem e moderna do pai (acrescento: e mais moderada); 2) explorar o medo do crime; e 3) culpar Lula pelo alto custo de vida.

As pesquisas de intenção de voto mostram crescimento de Flávio Bolsonaro ao longo do tempo. Cabe lembrar, porém, que, numa eleição polarizada, haverá quem vote em Flávio por considerá-lo melhor que Lula, mas haverá também uma enorme quantidade de votos motivados não por suas propostas e qualidades, e sim pela rejeição, e mesmo pelo ódio, a Lula e ao PT. Para o candidato, pouco importa a motivação: o que conta é o voto na urna.

Façamos, agora, um exercício hipotético com a vitória de Flávio Bolsonaro. Confirmada sua eleição, as urnas eletrônicas, tão atacadas pelos bolsonaristas, passarão a ser confiáveis? Ou se voltará a falar em fraude? Outro ponto relevante: Flávio já admitiu que pretende, como presidente, livrar o pai da prisão. Encontrará, porém, um STF com a composição atual, que provavelmente não admitirá esse “perdão” a quem arquitetou um golpe de Estado. Teríamos, assim, uma crise institucional logo nos primeiros cem dias de governo. Há, ainda, a perspectiva de um Congresso predominantemente conservador, o que daria a Flávio mais governabilidade do que teve o pai. E não nos esqueçamos de um Senado disposto a pautar o impeachment de ministros do STF e ao qual caberá sabatinar os próximos indicados à Corte pelo presidente eleito.

Em breve, o eleitor legitimará um candidato e um grupo político para exercer o poder pelos próximos quatro anos. Se a camada de teflon resistir até 4 de outubro, a pergunta deixará de ser se os escândalos grudam em Flávio Bolsonaro e passará a ser o que ele fará com o poder que pede ao eleitor. Flávio Bolsonaro dará continuidade ao tensionamento constante em relação às instituições e à democracia ou buscará se afastar do universo político no qual foi moldado?

Para Flávio Bolsonaro – até aqui – o bônus do sobrenome tem superado o ônus de sua trajetória, e, com isso, some-se a rejeição ao PT e Lula que lhe dão condições de ser eleito. A pergunta: isso será suficiente para governar?

 

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