Foto: SBT News
Conteúdos associaram Flávio Bolsonaro a projeto de lei arquivado em 2008; levantamento do Democracia em Xeque mostra que debate alcançou 1,3 milhão de publicações e 12,4 milhões de interações
Conteúdos publicados nas redes sociais associaram o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a uma suposta proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A discussão ganhou força após uma reportagem da GloboNews mencionar a reação de setores da Igreja Católica a uma possível articulação envolvendo grupos evangélicos. Flávio negou a existência de qualquer proposta desse tipo e afirmou que a associação seria falsa. O projeto recuperado nas publicações, porém, é o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado Victório Galli, que propunha alterar a legislação referente ao feriado de 12 de outubro. O texto foi arquivado pela Câmara dos Deputados em agosto de 2008.
A controvérsia também foi relacionada a uma declaração feita por Flávio em agosto, quando afirmou que, caso fosse eleito presidente, um de seus primeiros atos seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Nas redes, a fala foi utilizada para estabelecer uma associação com a proposta de 2007 e com o debate sobre a condição de Nossa Senhora Aparecida como padroeira. Após a repercussão, a GloboNews corrigiu a informação sobre a existência de um projeto atual ligado ao candidato. O episódio, entretanto, continuou a circular e ganhou novos desdobramentos políticos e judiciais, incluindo uma decisão do ministro André Mendonça, do TSE, sobre publicações relacionadas ao caso.
Segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque, o debate sobre Nossa Senhora Aparecida acumulou 1,3 milhão de publicações e 12,4 milhões de interações no período analisado. Nas primeiras 24 horas da controvérsia, foram registradas 669.863 menções, com pico de 46,5 mil menções por hora. Em 72 horas, o volume chegou a 1,61 milhão de menções. O monitoramento aponta que a conversa não ficou restrita à alegação envolvendo Flávio: temas como religião, cultura, liberdade de expressão, judicialização e defesa da Padroeira também passaram a concentrar parte relevante das publicações.
Na distribuição temática, o eixo “debate social e cultural nas redes” reuniu 238.815 resultados, ou 18% do universo analisado. Já “fake, mentira ou desmentido” registrou 226.645 resultados (17%), enquanto “judicial, censura e remoção” somou 170.170 (13%). A categoria “defesa da Padroeira e impacto eleitoral” também alcançou 170.099 resultados (13%). O projeto de lei de 2007, Victório Galli e os Bolsonaro apareceram em 73.622 resultados, equivalentes a 6% da distribuição temática.
No recorte de 2.618 publicações de perfis políticos e imprensa, que somaram 44,9 milhões de interações, o Democracia em Xeque identificou cinco grandes eixos de discussão. O maior deles, “fé, laicidade e defesa da Padroeira”, concentrou 1.026 posts, ou 39%, e 20,3 milhões de interações, correspondentes a 45% do engajamento. Em seguida aparecem “acusação, negativa e o projeto de 2007”, com 831 publicações e 22% das interações; “decisão de Mendonça e a mira no Secom”, com 327 posts e 8%; e “apuração da GloboNews e a retratação”, com 299 publicações e 19% das interações.
A análise também mostra uma mudança no foco da discussão ao longo dos dias. Em 25 de setembro, foram registradas 1.442 publicações no recorte de perfis políticos e imprensa, com forte presença dos eixos sobre defesa da Padroeira e sobre a acusação e o projeto de 2007. No dia seguinte, o volume caiu para 942 posts, mas o eixo relacionado à decisão de André Mendonça foi o único a crescer, passando de 96 para 205 publicações. Para o instituto, os dados indicam que a controvérsia se desdobrou em diferentes frentes — da verificação da associação entre Flávio e o projeto arquivado à disputa sobre religião, liberdade de expressão e atuação da Justiça Eleitoral — sem se limitar à acusação que deu origem ao episódio.