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Coluna
Entre o medo herdado da ditadura, a polarização e o cansaço diante do debate público, por que falar de política se tornou tão desconfortável para tantos brasileiros?
Existe um velho ditado segundo o qual futebol, religião e política não se discutem à mesa. São três assuntos que “devem” ser evitados porque mexem com as emoções, despertam divergências irreconciliáveis e podem transformar uma conversa do cotidiano em uma briga. Mas por que política não se discute? Essa pergunta passou a me acompanhar nos últimos anos. Não apenas pela profissão que escolhi, mas pela percepção de que o “não se discute política” deixou, em muitos casos, de ser apenas um conselho para evitar conflitos. Tornou-se quase um modo de convivência. Não se discute. Não se pergunta. Não se procura entender.
E, quando não se discute política, também se abre mão de compreender como funciona o sistema democrático em que vivemos, quem toma as decisões que afetam nossas vidas e de que maneira o poder é distribuído. Porém a falta de discussão política, evidentemente, não nasceu ontem. Para tentar entender isso, fui buscar uma resposta mais próxima… Minha própria família. Minha mãe conta que meu bisavô, que a criou desde a infância, tinha muito medo de conversar sobre política durante os últimos anos da ditadura militar. Ela se lembra de uma bronca que recebeu depois de fazer uma piada sobre o governo à mesa. O medo dele era gigante, dizia que alguém do DOPS ou do DOI-CODI, poderia estar ouvindo pelas janelas da casa térrea em que eles moravam no bairro da Saúde e que ela não deveria voltar a falar daquele assunto nem em casa nem na rua. As histórias não terminam aí.
Minha avó, mãe da minha mãe, também relata o medo de falar sobre política quando era jovem. Entre as lembranças de quando era aluna na USP, está uma ida ao teatro para assistir a peça Roda Viva, de Chico Buarque, durante a ditadura, em uma noite em que a apresentação da peça foi invadida pela PM. São histórias familiares, mas não são casos isolados. Elas ajudam a lembrar que o medo de falar sobre política já foi, no Brasil, uma questão concreta de segurança. A ditadura militar terminou há mais de quatro décadas. Mas ainda assim, a pergunta permanece, ‘Por que o desconforto com a política continua tão presente?’ E talvez não exista uma única resposta.
Uma delas pode estar na falta de representação. Para uma parcela significativa da população, nenhum grupo político parece traduzir completamente suas expectativas. De um lado, há a percepção de que decisões tomadas em Brasília estão distantes da vida cotidiana. De outro, convivemos com notícias recorrentes sobre escândalos, investigações e disputas de poder enquanto grande parte da população enfrenta problemas muito mais imediatos, como salário, aluguel, inflação, juros, transporte público e emprego. A política, então, deixa de parecer uma ferramenta para transformar a realidade da população brasileira e passa a ser percebida como um espetáculo distante.
Há também o desgaste provocado pela polarização. O debate político brasileiro passou a conviver com uma quantidade enorme de informações, desinformação, opiniões contraditórias e conflitos permanentes nas redes sociais que vazam para a realidade. Muitas vezes, discutir uma ideia significa ser imediatamente colocado em algum lado. O meio-termo parece desaparecer. Discordar deixou de ser apenas discordar, em determinados ambientes, significa ser inimigo. E talvez seja justamente aí que a política começa a afastar quem mais precisa participar dela.
A democracia não é apenas o momento em que o eleitor deposita seu voto na urna. Ela também está na capacidade de discutir políticas públicas, cobrar representantes, compreender instituições, questionar decisões e reconhecer direitos, inclusive os direitos de pessoas que vivem realidades completamente diferentes das nossas. Só que esse processo exige tempo e disposição. E quem trabalha longas jornadas, enfrenta transporte público lotado, se preocupa com o preço dos alimentos e chega em casa exausto pode simplesmente não querer passar mais algumas horas acompanhando a última disputa entre políticos, ministros e partidos. Não necessariamente por alienação mas por cansaço.
A política brasileira também se tornou um espetáculo permanente. A cada dia existe uma nova crise, uma nova declaração, uma nova disputa institucional, uma nova acusação. A velocidade das redes sociais transformou a política em uma sucessão interminável de acontecimentos. Para quem já está sobrecarregado pela própria vida, acompanhar tudo isso pode parecer mais um fardo. Mas aí nasce o outro problema, quando deixamos de discutir política, alguém continua tomando decisões políticas. E essas decisões afetam justamente aqueles que decidiram não participar da conversa.
Talvez seja por isso que o silêncio político seja mais complexo do que parece. Não estamos falando apenas de pessoas que “não gostam de política”. Estamos falando de uma sociedade que carrega uma história de repressão, uma experiência democrática marcada por crises, uma profunda desconfiança nas instituições e uma comunicação pública cada vez mais fragmentada. E existe ainda uma outra forma de silenciamento, aquela que acontece quando determinados debates são desqualificados antes mesmo de começarem.
Nas redes sociais, palavras como “mimimi” e “lacração” passaram a ser utilizadas para deslegitimar determinadas pautas e discursos, especialmente aqueles relacionados a direitos de grupos historicamente marginalizados. O problema não está em discordar de uma pauta. Discordar faz parte da democracia. O problema começa quando o rótulo substitui o argumento. Quando uma discussão sobre racismo, feminicídio, homofobia, reforma na grade trabalhista vira “lacração”. Quando uma reivindicação por direitos vira “mimimi”. Quando uma pergunta sobre desigualdade é tratada como exagero. Quando falar de política passa a ser considerado inconveniente simplesmente porque o assunto provoca desconforto em certas alas políticas.
A democracia deveria funcionar justamente ao contrário. Ela não exige que todos pensem da mesma maneira, na verdade é o contrário. Exige que pessoas diferentes possam disputar ideias, apresentar argumentos, discordar e, principalmente, continuar conversando. Talvez o maior problema da “política não se discute” seja justamente esse. Política precisa ser discutida. Não porque toda conversa precisa terminar em consenso. Mas porque, quando deixamos de conversar, outras pessoas ocupam o espaço. E o poder jamais fica vazio.
A pergunta, portanto, talvez não seja por que os brasileiros não gostam de discutir política. E sim o que aconteceu para que discutir aquilo que determina nossas próprias vidas tenha se tornado algo que preferimos evitar, e se existe um projeto político para que o povo se afaste da discussão que determina seu futuro? Encontrar essa resposta talvez seja um dos primeiros passos para entender não apenas a relação dos brasileiros com a política, mas também os limites e as possibilidades da nossa própria democracia.