Ex-presidente Jair Bolsonaro (à esquerda), ao lado do filho Carlos Bolsonaro (à direita), em entrevista à imprensa após virar réu por tentativa de golpe | Foto: Camilla Lucena/Mynews
Eleições
Em 2018 os militares acharam que tutelariam o pai. Agora parte da elite que apoiou Lula em 2022 aposta que fará o mesmo com o filho
Poucas vezes um texto de revista atravessou tão depressa a distância entre a banca e o grupo de WhatsApp da família. Nesta sexta-feira, a coluna de João Moreira Salles na Revista Piauí, “O que esses brasileiros sabem”, foi compartilhada à exaustão, comentada em todas as redes e encaminhada de celular em celular. João escreve sempre com precisão de relojoeiro. Desta vez se superou. O texto é avassalador.
O alvoroço tem explicação. João listou, com todas as letras, nomes da elite financeira e empresarial que nas últimas semanas abriram as portas de suas salas de jantar a Flávio Bolsonaro. Muitos deles, em 2022, integraram a frente ampla que ajudou a eleger Lula. Naquela época enxergavam um risco democrático real e, mesmo torcendo o nariz para o programa econômico petista, foram às urnas pela democracia. Quatro anos depois, o risco parece ter evaporado dos seus radares.
Não se trata de devoção. Em conversa reservada, nenhum desses anfitriões descreveria o senador como estadista. A avaliação corrente nesses salões é, digamos, mais modesta. Admite-se que o candidato não foi exatamente talhado para as complexidades do cargo, e é justamente aí que mora o seu encanto. Quem não tem projeto próprio, supõe-se, executa com docilidade o projeto dos outros. Ninguém usa a expressão “idiota útil” à mesa, por educação. Mas é dela que se trata.
Uma fonte desse grupo me explicou a mudança de rota com a serenidade de quem já fez as contas. Agora, garantiu, não há risco democrático como se vislumbrava com Jair em 2022. Haverá, no máximo, um risco de corrupção elevada. Mas isso se resolve. Com Lula, completou, o país quebra. A lógica cabe numa planilha. Em 2022, a democracia pesava mais que a economia. Em 2026, a balança virou. Melhor enfrentar a corrupção do que uma crise financeira.
Será tão simples assim?
Os militares fizeram cálculo parecido em 2018. Imaginaram que cercariam o capitão de generais sensatos, que o tutelariam, que o país seria governado de fato pela caserna enquanto o presidente cuidava das redes sociais. O general Santos Cruz durou seis meses no Planalto. Outros saíram depois, em silêncio ou aos tropeços. Descobriram cedo que estavam muito enganados.
Porque Bolsonaro fez exatamente o que disse que faria. E o resultado foi uma trapalhada de proporções históricas. Hostilizou a China, maior parceira comercial do país. Comprou briga pessoal com o presidente da França. Tratou a Argentina com desdém. Transformou a política ambiental em motivo de constrangimento internacional e de portas fechadas na Europa. Chamou a pandemia de gripezinha enquanto o país enterrava centenas de milhares de mortos. Erros diplomáticos, econômicos, geopolíticos, erros por todos os lados. A parte da utilidade, como se viu, era negociável. A outra parte, não. E claro, sempre que pode falou mal das urnas e do processo eleitoral brasileiro, justamente aquele que o elegeu.
Mas João foi mais cirúrgico. A principal proposta de Flávio Bolsonaro não é fiscal, nem tributária, nem de reforma do Estado. É tirar o pai da prisão e, se possível, devolver-lhe os direitos políticos. E João lembra o que já deveria estar na memória de todos. Quando era deputado, Jair Bolsonaro elogiou um torturador, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, no plenário da Câmara, diante do país inteiro.
O que se tem, portanto, é uma escolha bem menos técnica do que a planilha sugere. Na prática, estamos vendo um grupo que, posto diante das alternativas, prefere a tortura a uma crise econômica. Ou, para ser generosa, prefere não fazer a pergunta.
A conferir.