Nove milhões a mais, e ninguém viu Fotos: divulgações redes sociais de Samara e Martins e Democracia Cristã

Nove milhões a mais, e ninguém viu

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O Brasil vota hoje com mais eleitoras do que eleitores e com duas candidatas à Presidência que a maioria dessas mulheres sequer soube que estavam na disputa

Samara é dentista do SUS. Clariana é advogada em Mato Grosso. As duas são mães, as duas disputam a Presidência da República neste domingo. E aposto que muita gente está sabendo disso agora.

Os números do TSE são claros. São 83.877.126 eleitoras, 52,84% do eleitorado. No total, 158.745.463 brasileiros estão aptos a votar. Faça a conta e você vai encontrar cerca de 9 milhões de mulheres a mais que homens na fila da urna. É mais gente do que a população de muitos países europeus.

Agora olhe para a cédula. Das 13 candidaturas à Presidência, só duas são de mulheres, Samara Martins, da UP, e Clariana Barão, do DC. Nos governos estaduais, são 32 mulheres entre 195 candidatos, 16,4%, menos do que em 2022. A maioria vota. A minoria decide em quem a maioria pode votar.

À esquerda está Samara. Mulher preta, mineira de Belo Horizonte, mora no Rio Grande do Norte e trabalha como dentista do SUS na Saúde da Família. Conhece bem a vida das mulheres e das mães no andar de baixo da escala social, as que se dividem entre o trabalho, os filhos e a fila do posto de saúde. Defende o combate à misoginia e o fim da escala 6×1.

À direita está Clariana. Mulher branca de classe média, nascida em Cuiabá, advogada, preside o DC em Mato Grosso. Seu programa põe a proteção de mulheres e crianças em primeiro lugar e defende menos burocracia e apoio aos pequenos negócios. Sabe o quanto é difícil empreender neste país, onde quem abre uma pequena empresa é tratado como suspeito até prova em contrário.

São visões de Brasil quase opostas, mas as duas têm algo em comum. Nenhuma tinha dinheiro para campanha nem visibilidade eleitoral. Dez partidos ficaram com a cota mínima do fundo eleitoral, R$ 3,3 milhões, enquanto uma campanha presidencial pode gastar até R$ 133,3 milhões. A UP não tem tempo de TV. Nos debates, só tem lugar garantido quem é de partido com pelo menos cinco parlamentares no Congresso. Os outros dependem de convite. O DC conhece bem essa realidade. Joaquim Barbosa desistiu de ser o candidato do partido justamente por falta de tempo de propaganda e de acesso ao fundo. Clariana herdou a mesma escassez.

O resultado é um paradoxo. Mulheres brancas e pretas, ricas e pobres, de esquerda e de direita, vão votar hoje sem saber que havia duas mulheres pedindo o voto delas para o Planalto. Não rejeitaram as propostas. Simplesmente nunca foram apresentadas a elas.

E nós, jornalistas, temos nossa parte nisso. Partidos decidem o dinheiro, a lei decide quem vai aos debates, mas somos nós que decidimos quem vira notícia. Cobrimos a polarização porque ela dá audiência. E a polarização tem dois rostos, ambos masculinos.

Não estou dizendo em quem votar. Estou dizendo que uma democracia em que a maioria nem fica sabendo quem a representa na urna funciona pela metade. Desconfio que isso não é bom para a democracia. Muito menos para as mulheres.

Por isso fizemos questão de abrir espaço para quem quase não teve nenhum. A pergunta que fica depois da apuração não é quantos votos Samara e Clariana tiveram, e sim quantas brasileiras teriam votado diferente se soubessem que elas existiam. Uma eleição também se mede pelas vozes que ninguém ouviu, e o jornalismo independente existe para encurtar essa distância. No MyNews, as duas foram ouvidas. Há extensa entrevista com cada uma delas.

 

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