Christian Dunker analisa por que a sociedade transforma diferenças em conflitos Almoço Do MyNews

Christian Dunker analisa por que a sociedade transforma diferenças em conflitos

Em entrevista ao Almoço MyNews, psicanalista fala sobre ressentimento, individualismo e os efeitos da lógica de confronto na sociedade contemporânea.

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  • Na segunda‑feira (2), o professor Christian Dunker, da USP, foi entrevistado no Almoço MyNews e abordou o prazer de humilhar quem perde.
  • Ele afirmou que a dificuldade de reconhecer e acolher diferenças alimenta conflitos sociais e a desescuta na sociedade contemporânea.
  • Dunker relacionou sentimentos de culpa, inadequação e depressão à lógica de confronto que pode gerar revolta coletiva.
  • O psicanalista é autor de “A revolta dos patinhos feios”, que propõe transformar inadequação em pertencimento.

Por que tantas pessoas sentem prazer em humilhar quem perdeu? Christian Dunker partiu dessa pergunta durante sua entrevista ao Almoço MyNews nesta segunda-feira (2). Professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), o psicanalista também é autor do livro A revolta dos patinhos feios: Como transformar sua inadequação em pertencimento. Na conversa, ele analisou como a dificuldade de reconhecer e acolher as diferenças alimenta conflitos sociais.

Além disso, Dunker relacionou esse comportamento a processos mais amplos. Segundo ele, a desescuta e a falta de abertura ao outro encontram espaço em diferentes dinâmicas da sociedade contemporânea. Entre elas, estão o fascismo, os processos associados ao neoliberalismo e a lógica do mundo digital. Nesse cenário, a revolta não se limita à reação individual diante da exclusão. Pelo contrário, ela também pode alimentar disputas e aprofundar a divisão entre as pessoas.

Quando a inadequação vira instrumento de conflito

Na avaliação de Dunker, sentimentos como culpa, inadequação e depressão podem alimentar uma lógica de confronto. Isso acontece quando a sociedade trata essas experiências como problemas exclusivamente individuais. Em vez de estimular o reconhecimento e a solidariedade, essa dinâmica incentiva a competição. Assim, cada pessoa passa a enxergar as outras como adversárias. Enquanto isso, quem lucra com os conflitos amplia seus ganhos.

Para desenvolver essa reflexão, o psicanalista utiliza a história do patinho feio como referência central de seu livro. Na fábula, o personagem enfrenta a rejeição por ser diferente. No entanto, ao longo da narrativa, ele descobre que pertence a outro grupo. Dessa forma, a história oferece uma reflexão sobre coragem, identidade e pertencimento. Também mostra que a diferença não precisa representar um motivo para a exclusão.

Dunker, porém, propõe ir além da transformação individual. Para ele, não basta que cada pessoa descubra sua própria beleza ou encontre uma forma de pertencer. É preciso construir uma experiência coletiva de acolhimento. Por isso, o psicanalista amplia a imagem do patinho que se transforma em cisne. Em vez de uma transformação solitária, ele propõe a ideia de uma revoada, na qual todos possam compartilhar a revolta e construir novos laços.

Da revolta à transformação coletiva

A revolta, segundo o psicanalista, não precisa terminar em uma reação individual. Ao contrário, ela pode abrir caminho para uma transformação mais ampla. Dunker resume esse movimento ao afirmar que, depois da revolta, vem a revolução. Ou seja, a possibilidade de transformar o mundo e as relações que produzem exclusão.

Além disso, a mensagem do livro passa pela busca de uma versão mais autêntica de si mesmo. Entretanto, essa descoberta não deve criar uma nova obrigação de desempenho individual. O desafio está em abandonar a necessidade de se destacar a qualquer custo. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer a possibilidade de existir entre os outros, sem transformar a própria imagem em instrumento de exploração.

Por fim, Dunker questiona uma cultura que estimula a competição permanente e dificulta o reconhecimento do outro. Nesse sentido, a saída não está apenas em superar individualmente a sensação de inadequação. Ela também depende da construção de formas coletivas de pertencimento.

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