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Almoço Do MyNews
Em entrevista ao Almoço MyNews nesta quarta-feira (4), analista aponta desgaste do trumpismo, impacto econômico da guerra com o Irã e repercussões para o bolsonarismo brasileiro após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos representam mais do que uma derrota eleitoral para Donald Trump. Além de expor fissuras no Partido Republicano, o resultado enfraquece o movimento MAGA e pode mudar os rumos da política americana nos próximos meses. Essa é a avaliação de Rose Martins, que participou do Almoço MyNews nesta quarta-feira (4 de novembro).
Para a analista, o resultado funcionou como um plebiscito sobre o governo Trump. Nesse contexto, a derrota deve acelerar o distanciamento entre lideranças republicanas tradicionais e o trumpismo, especialmente entre aqueles que pretendem disputar espaço político nas próximas eleições presidenciais. “Existe o Partido Republicano e existe o trumpismo”, afirmou.
Além disso, Rose observa que a própria base de apoio do presidente não apresenta a mesma unidade de antes. O vice-presidente J.D. Vance, por exemplo, tem adotado posições mais moderadas em questões de política externa. Ao mesmo tempo, figuras influentes da direita americana, como o comentarista Tucker Carlson, passaram a criticar publicamente decisões de Trump.
“Eu não colocaria a base MAGA e o trumpismo como algo coeso. Várias figuras do MAGA passaram a criticar o Donald Trump publicamente”, observou. Para a especialista, esse movimento indica uma tentativa de algumas lideranças de preservar o próprio capital político diante do desgaste do presidente.
Os efeitos do resultado eleitoral, entretanto, ultrapassam as fronteiras dos Estados Unidos. A presença de parlamentares e lideranças bolsonaristas acompanhando o pleito em território americano também ganhou um significado simbólico. Afinal, Trump representa uma das principais referências internacionais da direita radical brasileira.
Na avaliação de Rose, a derrota enfraquece o discurso de que a extrema-direita seria uma força política inevitável ou eleitoralmente imbatível. “É uma derrota para eles também em termos de propaganda política. Se teve essa derrota lá, como é que vão dizer que a extrema-direita é a melhor via para o Brasil?”, questionou.
Além disso, a analista considera que o resultado representa um momento particularmente delicado para o bolsonarismo. Isso porque os Estados Unidos funcionam como uma referência política e ideológica para esse campo. “Eles estão lá assistindo ao vivo realmente essa derrota da expressão máxima da extrema-direita mundial, que é onde é o farol deles”, afirmou.
Apesar do avanço democrata no Congresso americano, Rose Martins não acredita que um eventual processo de impeachment contra Trump seja necessariamente o principal objetivo da oposição. Pelo contrário, para ela, os democratas podem preferir manter o presidente politicamente enfraquecido até a próxima eleição presidencial, prevista para 2028.
“A minha leitura é de que os democratas não queiram o impeachment do Donald Trump. Eu acho que isso poderia embaralhar o jogo para daqui a dois anos; eles querem que tudo se mantenha nesse constante caos”, avaliou.
Diante desse cenário, a estratégia seria explorar o desgaste da administração republicana sem antecipar uma disputa institucional. Assim, os democratas poderiam manter a pressão política sobre Trump e evitar uma mudança no equilíbrio de forças antes da próxima eleição presidencial.
Além das disputas partidárias, o custo de vida aparece como um dos principais fatores para compreender a derrota republicana. Segundo Rose, a política externa de Trump, especialmente a escalada do conflito com o Irã, deixou de ser uma questão distante. Na prática, passou a atingir diretamente a rotina dos americanos.
Nesse contexto, o fechamento do Estreito de Ormuz e a alta dos preços dos combustíveis pressionaram os custos de transporte e produção. Como consequência, o impacto chegou também ao setor agrícola e aos preços dos alimentos, ampliando a insatisfação em um cenário econômico já difícil.
“A guerra não é só um problema de política externa. A guerra virou um problema de dinheiro, um problema econômico impressionante”, destacou.
Segundo a analista, o eleitor sentiu os efeitos do conflito no próprio orçamento. Ou seja, a política internacional passou a ter consequências concretas no cotidiano da população. “Ficou mais caro para a pessoa que vai abastecer o carro, ficou mais caro para quem faz transporte de mercadorias, ficou mais caro para quem produz alimentos”, explicou.
Portanto, o resultado das eleições combina desgaste político, insatisfação econômica e disputas dentro da própria direita americana. Para Rose Martins, a derrota de Trump abre um período de reorganização do Partido Republicano e coloca em xeque a força internacional do movimento MAGA. Nos próximos meses, será possível observar até que ponto seus aliados continuarão associados ao presidente ou buscarão construir um caminho próprio.