A importância e contexto de uma função essencial para políticos ganharem eleições é tema de debate no nosso site
A política e suas campanhas eleitorais sempre caminharam lado a lado com marqueteiros. Eles atuam como uma espécie de vendedor do produto, no caso, o candidato. Desse modo, o MyNews trará importantes entrevistas sobre a relevância dessa da função de marqueteiro. Inicialmente, conversamos com Guto Araujo, que explicou como chegou a essa área e quais são suas atribuições em campanhas.
R: Costumo dizer que nasci com um pé na área criativa e outro na estratégia. Iniciei minha carreira em agências publicitárias, depois passei para o outro lado do balcão e me destaquei como diretor de comerciais, tanto na publicidade quanto em campanhas políticas. Trabalhei com os grandes marqueteiros dos anos 90 e me estabeleci no grupo de Duda Mendonça, que depois se tornou o grupo de João Santana. Fiquei nesse grupo por 12 anos. Com João, participei de seis campanhas presidenciais vitoriosas na América Latina, praticamente um PhD. Foi ele quem me incentivou a migrar para a área estratégica e de coordenação de campanhas.
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No currículo de Guto, há experiências na campanha para a Prefeitura de Florianópolis (2016), para o Solidariedade na disputa pela Prefeitura de Boa Vista (2020), para o MDB na eleição para o Governo do Amazonas (2022) e para o União Brasil na campanha para a Prefeitura de Curitiba. Ele já trabalhou com PP, MDB, PSDB, PT, DEM e União Brasil, partidos com visões distintas.
R: Tenho muitos colegas que realmente atuam com um viés ideológico, mas esse não é o meu caso. Creio que isso tem relação com a história da minha família. Meu pai foi militar e seguiu uma linha conservadora na Aeronáutica, mas depois ingressou na aviação comercial e, para defender os direitos trabalhistas dos aeronautas, fundou um sindicato. Assim, tornou-se progressista de certa forma, e nossa família sofreu perseguição durante o governo militar. Cada um constrói sua trajetória a partir de suas origens. Se o Brasil adotasse um modelo semelhante ao dos Estados Unidos, com a hegemonia de dois partidos, provavelmente a dinâmica seria diferente. Lá, você escolhe um lado e segue.
Nas redes sociais, a direita acusa à esquerda de não saber se comunicar com seus pares, enquanto a esquerda se defende dizendo que a direita se apoia somente em discursos de ódio. Guto analisou essa questão.
R: O professor Adam Przeworski, em Crises da Democracia, faz uma afirmação curta e pragmática: “A democracia é um sistema no qual partidos perdem eleições”. Completo essa ideia com um exemplo brasileiro: se considerarmos as eleições municipais, o número de derrotados é quatro vezes maior que o de vitoriosos. Agora, imagine se todos os derrotados resolvessem contestar os resultados das urnas em seus municípios. Nossa democracia é consolidada e reconhecida, e temos o melhor sistema eleitoral do mundo, isso é um fato. Esse deveria ser o princípio do raciocínio do eleitor. Todos estamos no mesmo barco, com as mesmas necessidades como cidadãos e seres humanos. Basta olhar a Pirâmide de Maslow.
As narrativas mudam conforme as eras. Assim como houve a onda Obama, com uma perspectiva progressista que se espalhou pelas Américas no início do século, agora vemos a expansão do conservadorismo na América Latina e na Europa. Nenhuma dessas tendências é novidade na história política, elas se alternam. O que incomoda a todos, na verdade, são os radicalismos, pois sabemos que eles geram ódio, violência e sofrimento. Portanto, o problema não está exatamente nas redes sociais, mas no conteúdo gerado pelo sentimento da população e pelo momento histórico atual. O discurso “anti-sistema”, hoje utilizado pela direita, é muito parecido com o que a esquerda usava quando estava na oposição.
A diferença está na forma contemporânea de divulgação, impulsionada pelas ferramentas digitais. O conservadorismo cresceu em sincronia com o boom digital, mas, na minha opinião, os dois lados envelheceram. Trump, seu maior representante, já tem 78 anos; Bolsonaro, 70; Lula, 79. Estamos na transição para um novo ciclo histórico.
Por fim, Guto avaliou o governo atual, criticado por não ter ações e planos de marketing, principalmente no caso do Pix, em que a oposição dominava o debate e, quando o governo tentou responder, já não tinha a confiança do público.
R: O caso do Pix é apenas a ponta de um iceberg gigantesco. Ulysses Guimarães, figura central da redemocratização, disse certa vez: “Não se pode fazer política com o fígado, conservando rancor e ressentimentos na geladeira. A pátria não é capanga de idiossincrasias pessoais. É indecoroso fazer política uterina, em benefício de filhos, irmãos e cunhados. O bom político costuma ser mau parente”.
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A polarização política levou o país a um novo tabuleiro estratégico, onde as regras parecem não valer como antes. Os dois últimos governos enfrentaram esse problema. Desde o segundo mandato de Dilma, o eleitor começou a buscar alternativas. Por um tempo, a terceira via foi amplamente discutida, mas já não é uma pauta nacional. Isso afeta todos os setores e compromete pilares essenciais da gestão pública, como a comunicação.
O governo Bolsonaro demorou a encontrar estratégias de marketing e comunicação. Iniciaram o governo sem direção, pautados apenas nas frases aleatórias de seu líder. Talvez o resultado das eleições de 2022 tivesse sido diferente se essas falhas não tivessem ocorrido. Com a entrada do governo Lula 3, esperava-se que a experiência de tantos anos no poder e o legado de figuras como João Santana resolvessem naturalmente a comunicação. No entanto, ninguém compreendeu completamente como atualizar os antigos métodos e ferramentas que levaram Lula à presidência em 2002 e 2006.
Contudo, para concluir, o envelhecimento e a consequente desestruturação dos antigos grupos políticos desorganizaram a receita. O caldo entornou, e as lambanças se transformaram em uma grande bagunça difícil de arrumar na cozinha chamada Brasil. Muitas manchas não sairão mais”, concluiu ao MyNews, Guto Araújo.