Ilustração gerada por IA
DISPUTA ELEITORAL
Maricá e Saquarema transformaram-se em um laboratório político onde o pragmatismo dos bilhões neutraliza as divergências ideológicas entre PT e PL
A abundância súbita de recursos provenientes do pré-sal redefiniu a importância estratégica de duas cidades no litoral do rio de janeiro. Maricá e Saquarema foram elevadas ao status de potências financeiras subnacionais, tanto que analistas já apelidaram de “Oriente Médio Brasileiro”. Localizadas a poucos quilômetros da capital, essas cidades operam orçamentos que rivalizam com grandes metrópoles, transformando a região no centro de gravidade da disputa política fluminense. O controle desses municípios não é apenas uma questão de gestão local; é a posse das chaves de cofres bilionários que financiam projetos de poder e modelos de governança antagônicos em sua retórica, mas surpreendentemente simbióticos em sua prática.
É por isso que olhar para a disputa eleitoral em Maricá e Saquarema apenas pelas lentes tradicionais de esquerda e direita é perder uma parte importante da história. Ali, PT e PL podem estar em lados opostos do palanque, mas descobriram algo parecido quando chegaram os bilhões: o poder extraordinário de uma prefeitura rica para interferir diretamente na vida dos moradores
Sob hegemonia do PT há 16 anos, Maricá tornou-se o principal laboratório social da esquerda brasileira. Com um orçamento de R$ 7,55 bilhões em 2025, a gestão ergueu um “Estado de bem-estar social” municipal. O modelo é sustentado pela Moeda Mumbuca, que circula exclusivamente no comércio local; o sistema de Tarifa Zero (115 ônibus gratuitos); e o Passaporte Universitário, que financia bolsas integrais para residentes.
No centro desse “emirado” está Washington Quaquá, figura que personifica a ambiguidade da região que tenta lançar seu filho Diego Quaquá em uma chapa com apoio do ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes e o presidente Lula. Mas que vem gerando crises abertas dentro do partido até mesmo pelo controle do número de urna 1313. Washington Quaquá destinou o número, estratégico para puxar votos, ao seu filho, Diego Quaquá, atropelando as pretensões de lideranças como Lindbergh Farias e Marcelo Freixo.
A tensão entre a base doutrinária do PT e o Atual prefeito de Marica, Quaquá, atingiu o ponto de ruptura durante um seminário de segurança pública no Rio. Ao defender a megaoperação nos Complexos da Penha e do Alemão, que resultou em 122 mortes sendo considerada a mais letal da história do estado, Quaquá desafiou abertamente a cartilha dos direitos humanos de seu partido. Diante da militância, o prefeito foi incisivo ao afirmar que o Bope “só matou otário, vagabundo, bandido”, e que a operação só falhou por não ter “ocupado o território”.
Saiba mais: Washington Quaquá: O sheik do PT
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A poucos quilômetros dali, Saquarema seguiu um caminho politicamente diferente, mas financeiramente nem tanto. A cidade está associada a forças da direita e à família Peres que atualmente conta como sua principal representante a candidata a deputada federal pelo PL e ex-prefeita Manuela Peres que tem o apoio de Flávio Bolsonaro e o também candidato ao Governo do Rio de Janeiro Douglas Ruas.
Ao equilibrar a retórica conservadora com o uso massivo dos royalties para garantir estabilidade política é aqui que Saquarema começa a se parecer mais com Maricá do que seus grupos políticos provavelmente gostariam de admitir.
Para rivalizar com sua vizinha, Saquarema aderiu ao consenso do bem-estar social. Programas como “Educa Saquá” e “Social Saquá” demonstram que a atenção aos mais vulneráveis não é monopólio de um único campo político, sinalizando que, na região dos bilhões, a proteção social consolidou-se como um compromisso indispensável para a governabilidade.
Saquarema ostenta um dos maiores PIBs per capita do país, mas ainda assim, tem moradores convivendo com problemas de saneamento, infraestrutura e uma renda mensal de apenas R$ 2.310 (Censo 2022) distantes da riqueza que aparece nas estatísticas. É uma fotografia quase perfeita da chamada maldição do petróleo: o dinheiro chega antes do desenvolvimento.
A nomeação do ex-assessor e figura central no caso das “rachadinhas” de Flávio Bolsonaro”, Fabricio Queiroz como subsecretário de Segurança e Ordem Pública foi uma costura política entre o proprio senador e atual candidato a presidência da República Flávio Bolsonaro e o ex-prefeito e Marido de Manoela Peres, Antonio Peres. O objetivo era”tranquilizar” Queiroz após suas sucessivas queixas de abandono pela família Bolsonaro. Uma manobra que foi um dos casos mais simbólicos da habilidade e facilidade dos Peres em realizar articulações não apenas regionais, mas também a nível nacional
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Maricá e Saquarema transformaram-se em um laboratório político onde o pragmatismo dos bilhões neutraliza as divergências ideológicas entre PT e PL. Ambas as gestões descobriram que a transferência direta de renda e obras faraônicas são eficazes para a manutenção do poder, independentemente de quem ocupa a cadeira.
Contudo,com o “penhasco fiscal” projetado para 2026 e a finitude dos recursos do pré-sal, o assistencialismo de hoje pode se tornar o colapso de amanhã.
Quem governa uma cidade abastecida por royalties dispõe de uma capacidade incomum de entregar benefícios, fazer obras, organizar grandes eventos e criar políticas que estabelecem uma relação muito concreta entre o poder e o eleitor.
Enquanto isso, do outro lado do país, uma nova onda começa a seduzir prefeitos, governadores, empresários e políticos: a possibilidade de petróleo na Margem Equatorial, diante da costa amazônica.
Antes mesmo de sabermos o tamanho dessa riqueza e quanto dela poderá efetivamente ser explorada, já conseguimos imaginar os royalties, os investimentos, os empregos e os bilhões chegando.
Maricá e Saquarema, porém, oferecem uma lição para quem está esperando essa nova onda no Norte do país.
A questão não é apenas saber quanto petróleo existe debaixo do mar. É decidir o que e quem ficará em terra quando essa onda passar.